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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Homilética: 16º Domingo do Tempo Comum - Ano C: "O único necessário".




Neste domingo, a liturgia nos propõe dois exemplos de hospitalidade, o de Abraão e o de Marta. A história de Abraão dirige nosso olhar para o mistério escondido na hospitalidade. A história de Marta e Maria nos ensina que, antes de se desdobrar em gestos de hospitalidade, importa saber acolher. A verdadeira hospitalidade não consiste em preparar muitas coisas, mas em acolher o dom que é a pessoa. Receber as pessoas com atenção, dar-lhes audiência, pode ser uma ocasião para receber a única coisa verdadeiramente necessária, a palavra de Deus: sua promessa (no caso de Abraão), seu ensinamento (no caso de Maria). O lema que se repete durante a celebração pode ser: “Em primeiro lugar, escute o Senhor”.

Comentário dos textos bíblicos

I leitura: Gn 18,1-10a

A primeira leitura nos mostra como a hospitalidade de Abraão é recompensada pela promessa de Deus. Sob a aparência de três viajantes, Deus apresenta-se, incógnito, a Abraão, que demonstra toda aquela hospitalidade tão apreciada no Oriente. Aos poucos, o foco da narrativa se desloca da hospitalidade de Abraão para a promessa de Deus. Abraão não perguntou pela identidade de seus hóspedes. Agiu por bondade gratuita. Com a mesma gratuidade, Deus lhe concede o que era estimado impossível: um filho de sua mulher Sara, já idosa.

A leitura mostra que, quando se está oferecendo hospitalidade, na realidade se está recebendo a generosidade de Deus. A hospitalidade que Abraão, generosa e gratuitamente, oferece a três homens, perto do carvalho de Mambré, transforma-se em receber. Ele recebe a coisa que mais deseja: um filho de sua mulher legítima, Sara. Talvez por isso se diz que a hospitalidade é “receber” uma pessoa: o hóspede é um dom para nós…

Deus passa por nossa vida, junto de nossa casa, e importa fazê-lo entrar (Gn 18,3), para que a nossa vida não fique vazia. Deus pode chegar como um viajante, um necessitado, e nossa gratuita bondade deve estar pronta para o “receber” no momento imprevisto.

Evangelho: Lc 10,38-42

O evangelho, com o episódio de Jesus na casa de Marta e Maria, focaliza “o único necessário”.

Quem acolhe um hóspede parece estar oferecendo algo – a hospitalidade –, mas pode ser que, na realidade, esteja recebendo mais do que oferece, como foi o caso de Abraão na primeira leitura. Lida nessa ótica, a história de Marta e Maria se torna reveladora. Hospedar e cuidar é bom; mais fundamental, porém, é “receber” o dom que é o hóspede, com tudo o que tem de mais importante. E o mais importante, no caso, é a palavra de Jesus. Ele não veio para se fazer servir como um freguês num hotel; veio para servir (Mt 20,28), e serve por meio de sua palavra, de sua vida inteira. Ele é inteiramente palavra, palavra de Deus, no seu dizer, no seu fazer, no seu sofrer. Acolher essa palavra é o único necessário.

Quem se esgota em “fazer coisas” para o outro, sem realmente o “receber”, pode ser chamado de ativista. O ativismo é um mal de nosso tempo, mas não data deste século. É doença que espreita a humanidade desde sempre. Jesus aproveita as intensas ocupações da “dona Marta”, sua anfitriã, para falar desse assunto. Marta dá muita importância aos próprios afazeres e pouca àquilo que recebe de Jesus. Ela deseja que Maria, imersa na escuta das palavras do Mestre, interrompa sua escuta e a ajude a preparar a comida. Mas por que preparar comida se não se sabe para quê? Se alguém não se abre para receber a mensagem, para que acolher o mensageiro? Um bom anfitrião procura servir o melhor possível, mas, se não escuta o que o visitante tem para dizer, fará uma monte de coisas, mas a finalidade real da visita não se realizará. “Marta, Marta, tu te ocupas com muitas coisas; uma só, porém, é realmente necessária…” Jesus não diz o que é essa coisa necessária, mas a história nos faz entender que é o que Maria estava fazendo: escutar Jesus. Maria escolheu a parte certa. Mais fundamental do que a casa bem arrumada e a mesa bem provida com que Marta se preocupa é acolher Jesus, com suas palavras, no coração. Então a mesa bem preparada servirá para sua verdadeira finalidade.

O ativismo, mesmo a serviço dos outros, corre o perigo de ser um serviço a si mesmo: autoafirmação à custa de quem é o “objeto” de nossa caridade. A superação do ativismo consiste em ver o mistério de Deus nas pessoas, assim como Maria o enxergou em Jesus, o porta-voz de Deus, o portador das “palavras de vida eterna” (cf. Jo 6,68).

O hóspede vem a nós com uma recomendação de Deus, e por isso lhe dedicamos atenção. Nossa preocupação não deve ser os nossos próprios afazeres, mas a interpelação que o rosto do outro nos dirige. Então não lhe imporemos uma hospitalidade que nós inventamos em proveito de nossa autoafirmação, mas abriremos o coração àquilo que ele diz e é. É isso que Jesus lembra a Marta.

A verdadeira contemplação não é uma fuga a pensamentos aéreos, mas aquele realismo superior que nos leva a ver Deus no ser humano e o ser humano em Deus. Essa contemplação é também o fundamento da verdadeira práxis da fé, que consiste, precisamente, em tratar o ser humano como filho e representante de Deus. Para isso, o centro de nossa preocupação não deve ser nossa atividade, mas a pessoa humana que nos é dada e que nós “recebemos” como um dom da parte de Deus.

II leitura: Cl 1,24-28

A segunda leitura nos fala da manifestação do mistério de Cristo na missão do apóstolo. Servir a Cristo é participar de seu sofrimento. No sofrimento próprio, Paulo vê confirmada sua comunhão com Cristo, e isso é para ele uma alegria. Ele quer revelar o “mistério de Deus” – que é Cristo – por sua vida. Cristo é a “esperança da glória”. “Cristo no meio de nós” (1,27) não é um belo pensamento, mas força que nos impele ao encontro dos irmãos. Cristo é, em nós, a esperança, a impaciência do dia que há de manifestar, plenamente, o que ele é e o que nós seremos nele.

Deus vem ao ser humano. Paulo sabe dessa união de Deus e Cristo com o ser humano, que lhes pertence. O apóstolo considera o seu sofrimento como a complementação, no próprio corpo, do sofrimento de Cristo. Não que faltasse algo ao sofrimento de Cristo por parte deste – faltava algo por parte de Paulo; o sofrimento de Cristo precisava ser completado pela participação de Paulo. Isso, aliás, vale para todos nós. Só nos apropriamos, por assim dizer, da paixão de Cristo por nossa “com-paixão”.

Paulo anuncia a palavra de Deus em sua plenitude: o mistério escondido desde a eternidade, a realidade só conhecida por quem dela participa, a esperança da glória, “Cristo em vós”. Na comunidade dos fiéis, da qual Paulo se tornou apóstolo, está presente aquele que assume todo o sentido de nossa vida e da criação toda (Cl 1,15-20, cf. domingo passado). Para que fossem levados à perfeição os que receberam sua pregação, Paulo oferece sua vida.

(Querendo usar um texto mais afinado com o tema do evangelho e da primeira leitura, veja-se 1Pd 4,9-11: “Sede hospitaleiros”.)

Pistas para reflexão

O importante e o necessário: grande mal em nossa sociedade, e também na Igreja, é o ativismo, a falta de disposição para aprofundar o essencial, sob o pretexto de tarefas urgentes.

Na primeira leitura, vimos a virtude da hospitalidade na figura de Abraão. Deus, que nos anjos se tornou seu hóspede, recompensa-o com a promessa de um filho. Será que o evangelho não contradiz essa lição? Jesus dá a impressão de valorizar mais a presença passiva de Maria, que fica a escutá-lo, do que a preocupação de Marta em bem recebê-lo. Ou será que o jeito certo de recebê-lo é o de Maria: escutar sua palavra?

Jesus observa a Marta que ela anda ocupada e preocupada com muitas coisas, enquanto uma só é necessária. Essa observação não é uma crítica à hospitalidade, mas indica uma escala de valores: a melhor parte é a que Maria escolheu! O que esta faz é fundamental e indispensável: escutar. O resto (as correrias pastorais, as reuniões) é importante, mas deve ter fundamento no escutar. Jesus censura Marta não porque ela cuida da cozinha, mas porque quer tirar Maria do escutar para fazê-la entrar no ritmo das suas próprias ocupações. Marta não conhecia a escala de valores de Jesus.

Paulo, na segunda leitura, pode ser um exemplo. Ele passou pela “passividade” do sofrimento, assumindo no próprio corpo a sua participação no sofrimento de Cristo. Dessa identificação profunda com Cristo ele tirou a força para seu surpreendente apostolado. Gente ocupada é o que menos falta. Mas sabemos muito bem que toda essa ocupação não gira, necessariamente, em torno do fundamental. Dá até pena ver certas pessoas complicar a vida com mil coisas que, dizem, vão simplificá-la. Por outro lado, encontramos também, especialmente entre os pobres “de coração” (não aqueles com mania de rico), pessoas que levam uma vida simples, porém com muito mais conteúdo e, sobretudo, com um coração sensível e solidário.

Importa acolher (a Deus, a Jesus, aos outros) em primeiro lugar no coração. Só então as demais atuações terão sentido. Isso vale na vida pessoal e também na vida comunitária. Comunidades que giram exclusivamente em torno de preocupações e reivindicações materiais acabam esvaziando-se, caem em brigas geradas pelo personalismo e pela ambição. Mas comunidades que primeiro acolhem com carinho a palavra de Jesus num coração disposto saberão desenvolver os projetos certos para pôr essa palavra em prática. “Buscai primeiro o Reino de Deus…”


Pe. Johan Konings, sj
Nascido na Bélgica, reside há muitos anos no Brasil, onde leciona desde 1972. É doutor em Teologia e licenciado em Filosofia e em Filologia Bíblica pela Universidade Católica de Lovaina. Atualmente, é professor de Exegese Bíblica na Faje, em Belo Horizonte. Entre outras obras, publicou Descobrir a Bíblia a partir da liturgia; A Palavra se fez livro; Liturgia dominical: mistério de Cristo e formação dos fiéis – anos A-B-C; Ser cristão; Evangelho segundo João: amor e fidelidade; A Bíblia nas suas origens e hoje. E-mail: konings@faculdadejesuita.edu.br
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Vida Pastoral