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sexta-feira, 15 de julho de 2016

Francisco, para além dos “insultos” da modernidade

 
Na última exortação pós-sinodal do Papa Francisco, parece-me possível captar alguns indícios que prenunciam futuras reviravoltas na compreensão da identidade, da organização e da missão da Igreja.

Acima de tudo, Francisco, embora em continuidade com algumas aberturas dos seus antecessores, é o primeiro papa a ter assumido de forma completa o diálogo com a modernidade ou pós-modernidade. E ele faz isso com a reforma do estilo de exercício do primado petrino, a modificação da linguagem do seu ensinamento, a transformação do papel do magistério e a reinterpretação do conceito de infalibilidade.

Apesar da obsessiva ostentação do seu pauperismo, que pode parecer para muitos como instrumental e demagógico, o Papa Francisco está lentamente acertando as contas com a história dos últimos séculos (modernidade). Parece que Francisco, com sua orientação magisterial, quer quase remediar aqueles que Luhmann chamou de “insultos” que, na era moderna, a hierarquia eclesiástica infligiu ao caminho da razão: a) o biológico-evolucionista (Darwin-Teilhard de Chardin); b) o psicológico da subjetividade humana (Freud); c) o social (Marx).

No seu ensinamento, Francisco reconhece o primado do “tempo” em relação ao “espaço” e declara que não quer ocupar espaços, mas sim iniciar processos. O primado do tempo sobre o espaço envolve a adoção da lógica das parábolas evangélicas da semente que cresce, e do trigo e do joio. A Igreja de Francisco é uma Igreja “em devir”, dinâmica, promotora de processos. O que é isso senão a recuperação da reivindicação evolucionista?

Além disso, no plano ético, ele recupera os elementos subjetivos da culpa e do pecado (plena consciência e consentimento deliberado), declarando que a gravidade da culpa não pode ser separada da imputabilidade do sujeito. Na Evangelii gaudium, referindo-se ao ensinamento do Catecismo da Igreja Católica (n. 1.735), no que diz respeito à imputabilidade do pecador, ele lembra “aos sacerdotes que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível” (EG 44).

Na vontade do pecador em relação ao pecado, “a imputabilidade e a responsabilidade de uma ação” são “diminuídas” ou até mesmo “anuladas” por múltiplas causas. Reconsiderar a missão pastoral e sacramental da Igreja à luz desse ensinamento deveria nos tornar mais misericordiosos e prontos para tratar e curar as misérias humanas. O que é isso senão a recuperação da reivindicação psicológica do sujeito?

Por fim, Francisco traz novamente para o centro do seu magistério a doutrina social da Igreja e as reivindicações dos oprimidos, dos últimos, dos pobres… Ele denuncia com firmeza os modelos de desenvolvimento econômico que determinam “exclusão” e “desigualdade”, e que geram a cultura do “descarte”. Lamenta a idolatria do dinheiro, observando que “nós criamos novos ídolos (…) no fetichismo do dinheiro e na ditadura de uma economia sem rosto (…) que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo” (EG 55).

Ele não hesita em definir como ingênua a teoria da recaída favorável, que os proponentes do liberalismo econômico consideram como útil para o crescimento econômico e a equidade social. Ele considera que os atores desse sistema econômico produziram a cultura do descarte, a globalização da indiferença e a anestesia do coração. O que é isso senão a recuperação da reivindicação social?

Francisco se apresentou ao mundo com um sorriso desarmante e uma sedutora expressão da sua bondade interior. Antes ainda que com as palavras, Francisco comunica com a sua própria corporeidade, expressando o impulso missionário da sua ação pastoral. Ele é um homem intrépido, nada intimidado pelos formalismos institucionais. Aos solenes salões do Palácio Apostólico, ele prefere a praça em frente ao pátio da basílica pontifícia de São Pedro.

Nas primeiras palavras pronunciadas da loggia, que foram programáticas para o pontificado, o novo papa se apresentou como o bispo de Roma, que preside na caridade as outras Igrejas, evitando se autodefinir com títulos que enfatizassem o primado (papa, pontífice ou os seus sinônimos).

A sobriedade com que ele iniciou o seu ministério de bispo de Roma confunde e desconcerta muitas pessoas. O mesmo binômio Papa Francisco, que une em uma única pessoa as duas polaridades (a instituição e o carisma), representa uma autêntica reviravolta para a Igreja.

O novo papa está nos ajudando a redescobrir a dimensão carismática do pontificado e, no sinal do santo de Assis, assume em primeira pessoa as suas reivindicações reformadoras. Sabemos muito bem que os movimentos carismáticos nasceram e se enraizaram fortemente nas Américas. E, agora, o cardeal de Buenos Aires, que amadureceu uma experiência de episcopado carismático na América do Sul, está implementando um pontificado carismático.

Inclinar a cabeça e pedir que a praça lotada reze a Deus por ele em silêncio não é apenas sinal de humildade, mas também autêntica vontade de se unir ao povo de Deus (“bispo e povo”), para pedir com força o dom do Espírito. Não se trata de um carisma individual, mas de uma extensão dela em sentido comunitário que está ligado a uma instituição.

Francisco, na Evangelii gaudium, não hesita em falar corajosamente de uma conversão do papado: “Eu devo pensar também numa conversão do papado (…)  uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova” (EG 32).

A afirmação não põe em discussão o primado do bispo de Roma, mas se abre a novas formas do seu exercício, que recebam a “situação nova”. A afirmação expressa o desejo sincero de recuperar a plena comunhão com as Igrejas que, ao longo dos dois milênios, no plano doutrinal ou no plano disciplinar, tomaram caminhos diferentes da Igreja do bispo de Roma.

No discurso aos representantes da Igreja italiana reunidos em Florença, em novembro de 2015, Francisco afirmou: “Pode-se dizer que, hoje, não vivemos uma época de mudança, mas sim uma mudança de época”. Essa declaração, que passou em silêncio, não encontrou grande repercussão nos comentários dos vaticanistas, mas ela pode ser compreendida se for lida à luz daquilo que foi referido acima.

Francisco, com os seus gestos, o seu estilo, o seu magistério, está reformando a Igreja, indo além dos “insultos” da “modernidade”. Os historiadores buscam interpretar a fase histórica atual com atentas análises que tentam legitimar com a terminologia mais apropriada. O leque é amplo. Fala-se de pós-modernidade, de modernidade tardia, de segunda modernidade, de supermodernidade…

Provavelmente, Francisco está introduzindo a Igreja, através de um processo de transição, em uma nova era histórica, que está delineando lentamente a sua identidade. Como se sabe, as periodizações históricas são esquematizações póstumas, não se implementam com passagens instantâneas, mas se realizam progressivamente. A partir dessa urgência de adequação do dado teológico ao novo contexto histórico, nasce o seu compromisso para reformular e reinterpretar a revelação bíblica (homilias de Santa Marta) à luz da história contemporânea.

Àqueles que o acusam de querer mudar a doutrina e o Evangelho, ele poderia responder com João XXIII: “Não estamos mudando o Evangelho, mas o estamos apenas entendendo melhor!”. A urgência de uma reforma da Igreja capaz de harmonizar e organizar em uma síntese completa as reivindicações provenientes do processo histórico já foi advertida por São João Paulo II no início do novo milênio, quando, olhando para o futuro da história à luz do Concílio, ele exortava toda a Igreja com o convite Duc in altum, entendendo com isso, provavelmente, convidar todos os seus componentes para empreender corajosamente essa tarefa indeferível.

Francisco conseguirá ir além dos “insultos” da modernidade? Veremos. O que já parece ser indeferível é o estado de canteirização e de reforma da Igreja.



Por Nicola di Bianco,
professor do Instituto Teológico Salernitano
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IHU / Aleteia