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segunda-feira, 4 de julho de 2016

É possível comemorar a Reforma Protestante?


Entrevistas de prelados da Igreja, vaticanistas e comentadores nos canais católicos de notícias - ACI Prensa, Zenit, Aleteia, A12 e o site News.va, do próprio Vaticano - dão conta de que a Igreja Católica se juntará aos Luteranos para comemorar, de alguma forma, a Reforma Protestante do século XVI prestes a completar 500 anos. Ainda que soe completamente absurda a proposta, ela encontra adeptos e aplausos entre os bem-intencionados, e os não, que impulsionam o diálogo ecumênico. Fico pasmo já com a ideia de comemorar um pecado, celebrar uma ruptura na unidade do Corpo Místico, enaltecer a quebra da comunhão de fé, liturgia, moral, lei, dogmas e costumes. Celebrar a dilapidação de Catedrais, mosteiros, capelas e Igrejas. A morte de padres, freiras, monges e fiéis leigos. Pôr em relevo a crítica acerba luterana e calvinista e seu ódio por tudo o que é Católico. Dos filhos de Lutero e Calvino nada se espera de bom. Ei-los todos os dias nos seus programas de Tv falando mal da Igreja de Cristo, como os soldados que cuspiam no rosto do Salvador, humilhando-o. "Profetiza e dize quem te bateu" (Mt 26,66). Em geral, o argumento que se usa para defender esta novidade é a recomposição da unidade perdida com a Reforma. Olhando retrospectivamente a coisa parece muito bizarra.


Destruição dos ícones pelos protestantes

Tudo começou com a revolta de Lutero com a pregação das indulgências na Diocese de Magdeburgo por Johannes Tetzel para a construção da Basílica de São Pedro. A pregação das indulgências em Magdeburgo estava ligada pelo Arcebispo Alberto de Brandemburgo a um empréstimo contraído junto aos banqueiros de Augsburg para pagar os débitos contraídos com a Câmara Apostólica para acumular uma terceira Diocese, Mogúncia. Quem arrancava dinheiro do povo era Tetzel a mando de Alberto de Brandemburgo e não o Papa... Mas, isto é outra história. Fato é que Lutero se revoltou com isso e escreveu as suas 95 teses sobre a prática e a teologia da penitência. Ele foi chamado a se retratar várias e várias vezes de suas posturas e não obedeceu, preferindo permanecer inamovível. O Papa Leão X nomeou Caetano seu legado para o caso de Lutero. Lutero, no entanto, recusava-se peremptoriamente a qualquer gesto de boa vontade para com o Papa ou a Igreja. Pronunciou um sermão forte contra a excomunhão Papal, se recusou ir a Roma para uma audiência e foi ouvido em Wittenberg. 

Após a disputa teológica com João Eck e Karlsdat, Lutero recusou a teologia escolástica, formulou seu dogma da "Sola Scriptura" e rompeu com a Igreja Católica definitivamente. Rejeitou toda a Tradição precedente inclusive Agostinho, neguou todo o Magistério eclesiástico e o Concílio e chegou, inclusive, a negar a visibilidade da Igreja em detrimento de uma Igreja puramente espiritual. "Ele sente-se um profeta", escreve Guido Zagheni. Após a irrogação de sua excomunhão pelo Papa Leão X, Lutero escreveu em Latim o De captivitate babylonica ecclesiae, o mais radical de seus escritos, no qual nega quatro dos sete sacramentos, mantém o batismo, a Eucaristia e a penitência desfigurando, no entanto, totalmente estes três sacramentos. Ao batismo resta apenas a realidade da salvação pessoal que perdura enquanto perdurar a fé; à eucaristia retira-se o dogma da transubstanciação e, por consequência, pela ausência do sacerdote para consagrá-la; a missa deixa de ser o sacrifício para se tornar apenas memória, testamento de Cristo e a penitência vale enquanto no fiel residir fé fiducial na sua salvação pessoal independendo de ministro consagrado para tornar a penitência eficaz sinal de salvação. Seus escritos transparecem um teor gnóstico quando ele credita seu saber a uma iluminação direta de Cristo em sua pessoa o que virá, mais tarde, a inspirar o "livre exame" das escrituras.

Depois da revolta de Lutero contra a Igreja tantos outros o seguiu. O primeiro a segui-lo foi João Calvino  e seu companheiro Zwínglio inspirados em suas ideias e em sua prática. Antes deles Wicleff e Jhon Huss. Depois Henrique VIII se bem que por causas distintas das de Lutero e Calvino. Depois a árvore Protestante foi se dividindo ainda mais. Nasceu o ramo anabatista, depois o ramo Metodista, depois a igreja presbiteriana e a episcopaliana... Enquanto crescia em importância econômica e política na Europa, o protestantismo enforcava padres, freiras, confiscava mosteiros, conventos e bens eclesiásticos, invadia Igrejas e quebrava as imagens sacras numa onda iconoclasta como nunca se viu. Deste espírito anti-católico surgiu o protestantismo no novo mundo oriundo das migrações dos protestantes europeus, sobretudo, para os Estados Unidos. De lá veio o já miscigenado evangelismo das seitas pentecostais que aqui no Brasil começaram a se estabelecer desde o século XIX. Logo depois a árvore protestante já dividida tornou-se a dividir ainda mais e nasceu o ramo neo-pentecostal omnipresente em todo o território brasileiro.

Martinho Lutero incorreu em erro e pecado objetivos. Fora excomungado por causa de seu gesto cismático. Seu gesto causou divisão em toda a Igreja e tornou-se exemplar para outros atos de rebeldia e cisma. E, agora, vamos comemorar? O que temos para comemorar? Os corpos dos Padres e das freiras mortos pelo ódio protestante? A divisão? O pecado? Hoje em dia bate-se tanto contra o pecado da falta de comunhão e de unidade que chego a pensar que é impossível a cegueira acerca deste pecado no século XVI. A Igreja Católica fez um Concílio, o de Trento, para tratar de todos os erros veiculados pelos protestantes afim de chamá-los, pela razão, a reconhecerem seu erro e retornarem à grei de Cristo. Eu como padre não conheço e nem prego outro caminho de reconciliação e misericórdia senão quando os pecadores se arrependem de seus pecados para serem acolhidos pelo "Pai das Misericórdias e Deus de toda a consolação" e vejo notícias de que vamos comemorar um pecado!  Um pecado! Até hoje não li um pedido de perdão dos Luteranos! O "Pai das Misericórdias" perdoa o filho pródigo que volta arrependido. No entanto, para o perdão houve um arrependimento e só depois é que houve a festa! Vamos fazer festa em torno ao pecado! A Igreja teria errado, então, com Lutero?! Ao invés de Lutero estar errado seria a Igreja Católica a errada?! O erro e o mal deixaram de ser objetivos?! E os frutos de divisão que se seguiram à revolta Protestante? Teriam sido, então, bons para que nós os pudéssemos celebrar e comemorar?! Eu não consigo compreender isto. Talvez minha inteligência seja curta demais para ver o alcance de tudo isto e só os especialmente iluminados o consigam.


Padre Luis Fernando Alves Ferreira
Diocese de Itumbiara 
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Blog do Padre Luis Fernando