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sexta-feira, 22 de julho de 2016

A Trindade Santa, Indivisa e Consubstancial




PARTE I

O Deus dos cristãos é diferente de todos os outros: é único, original. Nossa fé professa que Ele é uno e trino - Triuno -, um só Deus na Trindade das Pessoas divinas. E, no entanto, na prática, os cristãos não compreendem bem o que isto significa nem percebem o quanto isto é importante, fundamental, para a nossa fé.

Basta dizer que sem a Trindade, se Deus não fosse trino, a criação não seria possível, a salvação não existiria e não haveria esperança para a história humana nem para o universo! “Como?” – perguntam os cristãos, admirados com tais afirmações... Todas estas assertivas podem parecer exageradas. Se for assim, se para você tais afirmações são muito radicais, então é porque você é um desses, que não compreenderam ainda o quanto é fundamental, essencial mesmo, que Deus seja uno e trino. É para que, juntos, possamos aprofundar nossa compreensão deste que é o Mistério central da fé cristã vou apresentar algumas meditações sobre a Santa Trindade.

E vou logo afirmando que nosso encontro com a Trindade Santa começou num Primeiro Dia da semana, que chamamos agora de Domingo. Isto mesmo: tudo começou num Domingo!

Mas, vamos por ordem, começando com uma primeira questão: Onde a Igreja foi buscar essa fé trinitária? Não seria mais fácil dizer, como os judeus e os muçulmanos, que Deus é um só, com um monoteísmo absoluto, e basta? Não seria mais simples dizer, como os antigos arianos cristãos e os espíritas atuais, que Jesus é somente um profeta de Deus, alguém especial, mas que é criatura de Deus? Não seria menos complicado afirmar, como as testemunhas de Jeová, que o Espírito Santo é apenas uma força de Deus? Por que complicar? Onde os cristãos foram buscar esta certeza de que Deus é uno e trino?

Para encontrar a resposta a esta questão, é necessário voltar ao Dia da Ressurreição: foi ali que tudo começou: "primeiro dia depois do sábado" (Jo 20,19), provavelmente dia 9 de abril do ano 30!

Primeiramente, vamos deixar claro uma coisa: o Antigo Testamento não ensina que Deus é trino, não fala diretamente da Trindade! Os judeus nem sonhavam que Deus é Pai, Filho e Santo Espírito. Eles acreditavam num Deus único, Javé, e acreditavam que este Deus grande e misericordioso enviaria um dia o Messias – alguém muito especial, o maior de todos os profetas, tão grande quanto Moisés: ele viria libertar o povo de Israel de todos os seus opressores, limpar o Povo eleito de seus pecados, restaurar o trono do Rei Davi e espalhar por toda a terra o juízo de Deus e o Seu santo Reinado. Esse Messias seria cheio do Espírito de Javé, quer dizer, da Sua força: o próprio nome “messias” quer dizer “ungido”... Ungido pelo Espírito de Javé. Era assim que os apóstolos acreditavam, assim que Maria pensava, assim que qualquer judeu piedoso do Antigo Testamento imaginava. Os judeus sempre repetiram e continuam a repetir com toda a piedade: "Ouve, ó Israel: Javé nosso Deus é o único Javé!" (Dt 6,4).

Veio Jesus; Ele dizia ser o Messias: no início do Seu ministério Ele fora ungido pela Força de Javé, quer dizer, pelo Seu Espírito. Quando Javé O ungiu no Jordão, apresentou-O assim: “Este é o Meu Filho amado, de Quem Eu Me agrado (Mt 3,17). Isso mesmo: Jesus foi apresentado como Filho de Javé. Já na anunciação o Anjo tinha dito a Maria: “Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1,32). Mas, atenção: isto não queria dizer ainda que Jesus era Deus! No Antigo Testamento os reis eram chamados “filho de Deus” (cf. Sl 2,6s; 2Sm 7,14), também o povo de Israel era chamado assim (cf. Is 1,2;Dt 32,20; Os 11,1). Mais ainda: os justos, os pobres, todos estes eram considerados “filhos de Deus”, quer dizer Seus protegidos, Seus amigos (cf. Sb 2,16.18). Assim, quando os judeus falavam em filho de Deus não pensavam que alguém fosse Deus, fosse igual a Javé! Isso, nem pensar: O Senhor é único: não tem filhos, não pode ser dividido, não pode ser multiplicado; nada há nem pode haver jamais ao Seu lado: Ele é Único, Ele é Um no céu e na terra; Ele, o Indizível, o Santo, o Incompreensível, o Infinito, o Eterno, "O Nome" - "Hashem", como os judeus piedosos gostam de a Ele se referir!

Assim, nem Maria, nem os apóstolos, nem ninguém imaginaria jamais que Jesus fosse Deus! Mais uma vez: o povo de Israel tinha muito claro na mente as palavras solenes da Escritura: “Ouve, ó Israel! Javé nosso Deus, Javé é um só!” (Dt 6,4) No entanto, um coisa é certa: Jesus se dizia Filho de Deus e agia de um modo completamente novo, estranho em relação a Deus: Ele era íntimo demais de Javé; chegava mesmo a tratá-Lo de um modo que ninguém ousava tratar: chamava-O de “Meu Abbá”, quer dizer, “Meu painho”, ou “Meu papai”! Isto mesmo: abbá era o modo como as criancinhas pequenas chamavam os seus pais! Jesus nunca dizia “nosso Abbá”; dizia sempre “Meu Abbá”. Você deve estar pensando no Pai-nosso, o “Abbá nosso” que Jesus nos ensinou... Cuidado! Jesus diz assim: “(Vós) Orai desta maneira: Abbá nosso...” (Mt 6,9); Quando (vós) orardes, dizei: Abbá... (Lc 11,2) A ideia é clara: Jesus manda que nós digamos “Abbá nosso”; Ele não entra, não diz “nós”, diz “vós”! Ele Se considera o Filho de Javé de um modo todo especial: “Subo ao Meu Abbá e vosso Abbá, ao Meu Deus e vosso Deus!” (Jo 20,17). Mais uma vez aparece claramente: Javé é o Deus e Pai de Jesus de um modo único, exclusivo, diferente do modo de ser nosso Deus e nosso Pai! Por isso mesmo Jesus Se colocava numa intimidade com Javé que parecia aos judeus muito desrespeitosa e atrevida, até mesmo blasfema. E mais: Jesus agia com uma autoridade que parecia igual a de Javé; fazia coisas que somente Javé poderia fazer:

· perdoava os pecados (cf. Mc 2,1-12)

· dominava o mar (cf. Mc 4,35-41; Jo 6,16-21 – segundo o Antigo Testamento somente Javé poderia dominá-lo – cf. Pr 8,29; Jó 38,8-11; Sl 104,7-9)

· interpretava a Lei (a Torá) com uma autoridade espantosa: “ouvistes o que foi dito (na Lei) aos antigos... Eu, porém, vos digo” (cf. Mt 5,21-48)

· quando ensinava, já começava exigindo obediência, antes mesmo de falar: “Amém, amém Eu vos digo” (cf. Jo 8,34; 6,47; 12,24).

Assim, compreendamos bem: nada disso afirmava que Jesus era Deus, que era igual a Javé, mas uma coisa é certa: Ele agia de tal modo que Se colocava numa proximidade com Deus que ninguém neste mundo poderia imaginar. Tanto isto é verdade, que os judeus chegavam a reconhecer, indignados: “Sendo apenas homem, Tu Te fazes Deus! (Jo 10,33)

Mas, repito, nem os apóstolos, nem os discípulos de Jesus, nem ninguém, poderia sonhar que Ele era igual a Javé, que Ele era divino, que Ele era Deus!

Então, como, finalmente, a Igreja chegou a esta conclusão? Como os apóstolos chegaram a afirmar que Jesus é Deus, com o Pai e o Espírito Santo?

É na próxima parte que veremos isto! Por agora, seria tão bom repetir sempre com toda a certeza e com toda a devoção: "Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é Único!" Pode repetir tais palavras santas com toda a convicção e certeza do Antigo Israel! O nosso Salvador nos ensinou que este é o primeiro fundamento da nossa fé: "O primeiro é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o Único Senhor! Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua força!" (Mc 12,29s) O Senhor é Único: nada nem ninguém pode ser colocado ao Seu lado, nada pode ser amado e servido ao lado Dele: Ele é Único! "Filhinhos, guardai-vos dos ídolos!" (1Jo 5,21).


PARTE II

Vimos, no tópico passado, que nem o Antigo Testamento nem ninguém na época de Jesus suspeitava que Deus fosse trino, que o Filho e o Santo Espírito fossem Deus! O Deus de Israel chamava-se Javé (Jeová é uma tradução errada do nome de Deus) e basta!

Vimos também que Jesus Se apresentou e agiu como “filho de Deus’... Mas, na mentalidade dos judeus, “filho de Deus” não significava que Ele era igual a Deus, que Ele era Deus! Finalmente, vimos que Jesus agia e falava com uma autoridade que deixava os Seus contemporâneos espantados: “Sendo apenas homem, Tu Te fazes Deus!” (Jo 10,33)

Ficamos, no tópico passado, com uma pergunta: Como, então, a Igreja apostólica descobriu que Deus era trino? Foi no Dia da Ressurreição! Quando, naquele primeiro dia depois do sábado, o Ressuscitado veio ao encontro dos discípulos, eles foram surpreendidos. Não somente porque Jesus estava vivo, mas, sobretudo porque estava ressuscitado, quer dizer, completamente transfigurado: Seu corpo estava totalmente transformado; era o mesmo Jesus, trazia ainda as marcas da paixão, mas estava de tal modo glorificado que mal os discípulos conseguiam reconhecê-Lo! Antes, só O reconheciam porque Ele mesmo Se dava a conhecer (cf. Lc 24,15s.30s; 24,36ss; Jo 20,11ss; 20,26ss; 21,4ss). Seu corpo, apesar de real, não mais pertencia a este mundo: o espaço, o tempo, a matéria como a conhecemos, tudo isto fora ultrapassado por Jesus! Também Sua alma estava transfigurada: Suas palavras, gestos, atitudes, tinham agora uma majestade que os discípulos, diante Dele, prostravam-se e O adoravam (cf. Mt 28,17; Lc 24,50ss; Jo 20,17). Jesus aparecera, então com uma glória que não é deste mundo, que é divina. Mais tarde, São João dirá: “Nós vimos a Sua Glória, Glória que tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e verdade” (Jo 1,15).

Mas, quem glorificou Jesus deste modo? E como? Quem o glorificou foi Javé, o Deus de Israel, aquele a Quem Jesus chamava de Pai! Ele transformou de tal modo a natureza humana de Cristo, que agora aparecia claro que Jesus tinha a mesma Glória de Javé. Os escritos do Novo Testamento estão cheios desta convicção: “Jesus, o Nazareu, ... vós O matastes, mas Deus O ressuscitou!” (At 2,24); “Deus constituiu Senhor e Cristo, a esse Jesus que vós crucificastes” (At 2,36); “... a ação do Seu Poder eficaz (de Deus), que Ele (Deus) fez operar em Cristo, ressuscitando-O de entre os mortos e fazendo-O assentar à Sua direita nos céus, muito acima de qualquer Principado... e de todo nome que se possa nomear. Tudo Ele (o Pai) pôs debaixo de Seus pés (do Filho), e O pôs acima de tudo” (Ef 1,19ss). Então, para os discípulos, agora tudo aparecia claramente: Jesus não somente era “filho de Deus” num sentido figurado mas, pela Sua ressurreição, estava totalmente glorificado, divinizado, adorável como Javé! Ora, se Ele agora aparecia claramente como divino, então é porque sempre o fora: ”Ele tinha a condição divina, e não considerou o ser igual a Deus como algo a que Se apegar ciosamente. Mas esvaziou-Se a Si mesmo, e assumiu a condição de servo” (Fl 2,6). Desde a ressurreição, os discípulos podiam compreender: Jesus sempre fora Filho e Javé sempre fora Pai desse Filho eterno. Agora adquiriam pleno sentido algumas palavras de Jesus: “E agora, glorifica-Me, Pai, junto de Ti, com a Glória que Eu tinha junto de Ti antes que o mundo existisse” (Jo 17,5); “Quem Me vê, vê o Pai. Eu estou no Pai e o Pai está em Mim” (Jo 14,9s); “Antes que Abraão existisse, EU SOU” (Jo 8,58). Portanto, o Filho existe eternamente e provém eternamente de Javé, que é eternamente Pai: os dois são divinos, os dois têm a mesma dignidade: “No princípio era o Verbo e o Verbo estava com Deus (Pai) e o Verbo era Deus (como o Pai)” (Jo 1,1); “Ele (o Filho) é o resplendor de Sua Glória (do Pai) e a expressão do Seu Ser” (Hb 1,3). Quando o Filho disse que o Pai era maior que Ele (cf. Jo 14,28) é porque, ao Se fazer homem, Ele tomou a condição de servo, fazendo-Se obediente ao Pai por nós (cf. Fl 2,6-7). Agora, com a ressurreição, Ele apareceu totalmente glorificado mais uma vez; glorificado inclusive na Sua natureza humana, antes tão humilde quanto a nossa!

Assim, portanto, naquele Domingo da ressurreição, os discípulos experimentaram, descobriram, testemunharam que Javé é Pai do Filho eterno, que, por Sua vez, é igual a Ele: Jesus!

Mas, de que modo Javé ressuscitou Jesus, como O glorificou? Os discípulos já tinham ouvido falar, no Antigo Testamento, no Espírito de Javé: era uma força de Deus que impelia os profetas e reis! Mas, agora, o que eles descobriram foi uma coisa totalmente surpreendente: esse Espírito não só dava força, mas glorificava, quer dizer, divinizava (= tornava divino). Sim: o Espírito que o Pai derramou sobre Jesus morto divinizou a Sua natureza humana! Ora, ninguém dá o que não tem: se o Espírito diviniza, é porque é divino, é porque é Deus! O Novo Testamento está cheio desta certeza: “(Jesus) morto na carne (= na Sua natureza humana) foi vivificado no Espírito (no Espírito Santo)” (1Pd 3,18). Jesus foi estabelecido pelo Pai... “Filho de Deus com poder através de Sua ressurreição dos mortos, segundo o Espírito de santidade” (Rm 1,4). Pedro, no dia de Pentecostes, disse para quem quisesse ouvir: “Este mesmo Jesus, Deus O ressuscitou; e disto somos testemunhas. E agora, exaltado pela direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo” (2,32s). Assim, este Espírito não era somente uma força do Pai, uma energia, mas era Deus também, como o Pai e o Filho! Por isso, aquelas palavras de Jesus: “Rogarei ao Pai e Ele vos dará outro Paráclito, para que convosco permaneça para sempre, o Espírito da Verdade” (Jo 14,16); “O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu Nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse” (Jo 14,26); “Quando vier o Paráclito, que vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da Verdade, que vem do Pai, Ele dará testemunho de Mim” (Jo 15,26); “Quando Ele vier (o Paráclito), estabelecerá a culpabilidade do mundo a respeito do pecado, da justiça e do julgamento” (Jo 16,8); “Quando vier o Espírito da Verdade, Ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará...” (Jo 16,13).

Agora, sim, tudo estava claro: Javé é o Deus eterno, o Deus de Israel; mas Ele, o Deus único, não é um Deus solitário: Ele é o Pai eterno do eterno Filho, Deus com Ele e como Ele! E mais: com o Pai e o Filho existe eternamente o Santo Espírito, Deus como o Pai, Deus como o Filho! Na Páscoa, o Pai ressuscitou o Filho (na Sua natureza humana), divinizando-O, glorificando-O, na potência divina do Santo Espírito!

Foi assim que a Igreja descobriu, experimentou e professou, adorando, a Trindade Santa. Mas, isso era apenas o começo! São um ou três deuses? Como expressar com palavras esse mistério tão grande? Como compreender as relações entre esses três? O que é um na Trindade? O que são três? No próximo tópico...


PARTE III

Vimos, nos tópicos passados desta série de meditações, que Javé (Adonai) é o Deus eterno, o Deus de Israel; mas Ele, o Deus Único, o Indivisível, o Imultiplicável, o Simples, o Infinito fora do Qual nada há nem pode haver, Ele não é um Deus solitário: Ele é o Pai eterno do eterno Filho, que é Deus com Ele e como Ele! E mais: com o Pai e o Filho existe, ou melhor, é eternamente o Santo Espírito, Deus como o Pai, Deus como o Filho!

Na Páscoa, o Pai ressuscitou o Filho, divinizando-O, glorificando-O, na potência divina que é o Santo Espírito!

Ora, esta revelação da Trindade, acontecida na Páscoa, a Igreja foi experimentando dia após dia, na sua vida concreta; experimentando a Trindade, adorando a Trindade e, pouco a pouco, compreendendo a Trindade, o quanto possível seja nesta vida. O próprio Jesus havia dito que o Espírito Santo iria levar Seus discípulos à verdade plena: “O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em Meu Nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que Eu vos disse” (Jo 14,26); “Quando vier o Espírito da Verdade, Ele vos conduzirá à verdade plena, pois não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará...” (Jo 16,13).

Um dos sinais mais fortes da fé da Igreja na Trindade é o batismo. Desde o início ele é conferido em nome da Trindade Santa: “Então Jesus Se aproximou e lhes disse: “Toda a autoridade Me foi dada no céu e na terra. Ide, pois, fazei discípulos Meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,18s). Um antiquíssimo texto cristão do século III, escrito por Santo Hipólito de Roma, sacerdote e mártir, mostra como o batismo era conferido em Nome de Trindade:

"Assim que o que vai ser batizado desce à água, diga-lhe aquele que batiza, impondo sobre ele a mão:

'Crês em Deus Pai Todo-Poderoso?”

E o que é batizado, responda: Creio.

Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o (= mergulhe-o) aquele uma vez. E diga, a seguir:

'Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, que nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria e foi crucificado sob Pôncio Pilatos e morreu e (foi sepultado) e, vivo, ressurgiu dos mortos no terceiro dia e subiu aos Céus e sentou-Se à direita do Pai e há e vir julgar os vivos e os mortos?'

Quando responder: Creio, será batizado (= mergulhado) pela segunda vez.

E diga novamente:

'Crês no Espírito Santo, na santa Igreja e na ressurreição da carne?'
Responda o que está sendo batizado: 'Creio'.
E seja batizado pela terceira vez".

Lembrem-se que a palavra batizar significa mergulhar. O cristão é, portanto, mergulhado no Pai criador, no Filho salvador e no Espírito Santo, presente na santa Igreja como Força de ressurreição.

Mas, além do batismo, se olharmos com atenção, um número enorme de textos do Novo Testamento falam de Trindade. Note-se bem: estes textos não são uma explicação do mistério trinitário, mas sim uma mostra claríssima de como a Igreja vivia na Trindade. Um peixe não se preocupa em explicar o mar, em compreendê-lo, apesar de viver mergulhado nele! Assim foi a Igreja com a Trindade: ela cria, adorava e experimentava o Deus uno e trino. Basta!

Vejamos alguns desses textos.

"Há diversidade de dons mas um mesmo é o Espírito. Há diversidade de ministérios mas um mesmo é o Senhor. Há diferentes atividades mas um mesmo é Deus que realiza todas as coisas em todos (1Cor 12,4-6)". - Aqui aparece claramente que toda a vida da Igreja, seus dons, ministérios e atividades, é vivida trinitariamente: um mesmo Espírito, um mesmo Senhor (Jesus) e um mesmo Deus (Pai). É importante notar que quase sempre que o Novo Testamento fala em “Deus”, está se referindo a Deus Pai; Jesus é quase sempre chamado de “Senhor”.

“Em Cristo sois co-edificados para serdes uma habitação de Deus, no Espírito” (Ef 2,22). - Mais uma vez a Trindade na vida dos cristãos: eles são edificados em Cristo (o Filho) como habitação pertencente a Deus (Pai) porque estão cheios do Espírito Santo.

“Todos os que são conduzidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus. Pois não recebestes um espírito de escravos para recair no medo, mas recebestes um Espírito que faz de vós filhos adotivos com o qual clamamos ‘Abbá, Pa’i” (Rm 8,14s). - A ideia, aqui, é belíssima: o cristão é filho de Deus (Pai) porque recebeu o Espírito Santo derramado pelo Filho ressuscitado; é este Espírito Santo do Filho que nos faz dizer 'Pai' a Deus:

“E porque sois filhos, enviou Deus aos vossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: Abbá, Pai!” (Gl 4,6). - Assim, segundo o Apóstolo, é o Santo Espírito Quem ora, Quem geme em nós. E a Sua oração é a do próprio Filho Jesus: “Abbá, Pai”! Por isso mesmo Jesus, o Filho amado do Pai, dizia: “O Pai do céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem” (Lc 11,13).

Note-se bem: de tudo que aqui foi apresentado, vai aparecendo claramente que a Igreja sempre viveu na Trindade; a Trindade é seu fundamento, seu chão, seu horizonte, o ar que ela sempre respirou. Antes mesmo de conseguir encontrar palavras exatas para exprimir este mistério tão grande, a Igreja o viveu, o experimentou profundamente. É sempre assim que acontece nas coisas mais importantes da vida: primeiro se vive, se experimenta... Só depois é que se tenta conceituar, explicar por palavras.

Por agora terminemos com mais uma palavra de Paulo, palavra trinitária, de extrema beleza: “Eu dobro os joelhos diante do Pai... para pedir-Lhe que Ele conceda que vós sejais fortalecidos em poder pelo Seu Espírito no homem interior, que Ele faça habitar Cristo em vossos corações pela fé” (Ef 3,14-17). Isso mesmo: tendo o Espírito do Filho em nós, Espírito que o Filho manda de junto do Pai, o cristão tem o Filho habitando em si: o Espírito habita em nós; como é Espírito do Filho nos faz filhos e, assim, nós podemos chamar a Deus de Abbá, como Jesus chamava!

No próximo tópico vamos continuar a meditar sobre outros textos do Novo Testamento que falam da Trindade e vamos ver como foi que a Igreja, logo após a morte da primeira geração de cristãos, a geração apostólica, continuou a viver a sua fé na Trindade e procurou explicar melhor este mistério estupendo.
 
 
 
Dom Henrique Soares,
Bispo de Palmares - PE