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sexta-feira, 8 de julho de 2016

A insanidade da cruz ou católicos pagãos




"Não foi para batizar que Cristo me enviou, mas para anunciar o evangelho, sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo. Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus" (1Cor 1,17-18).

Muitos católicos tiveram o primeiro impacto da sua conversão num desses encontros de fim de semana tão comuns em nossas Paróquias. Ali a Palavra veio forte, a experiência sensitiva acompanhada de emoção abria a mente para encontrar Deus de maneira mais próxima do que nas missas, por exemplo. Muitos desses neoconvertidos nos movimentos e nos encontros não tinham o hábito de frequentar a santa Missa ou de ter vida de oração diária. A partir deste momento primeiro - que poderíamos comparar com o encontro de Moisés com a sarça ardente no deserto - muitos começam uma vida católica mais amiúdo: muitos pedem os sacramentos da fé, participam mais ativamente da vida da Igreja, se integram em pastorais e serviços, passam a comungar com frequência, etc.

Depois que passa-se este primeiro momento de euforia e certa consciência do ser cristão, do pecado, das obrigações cristãs, etc, a pessoa que teve um grande choque de conversão dá-se conta de sua humana fragilidade e é aí que a vida católica se choca com suas opções e sua mentalidade ainda mundana, pagã e, então, perde força aquela primeira conversão. Imaginemos hipoteticamente uma pessoa que teve uma vida devassa na bebedeira, na pornografia, na jogatina e na sexualidade desregrada - o que não é muito incomum. Logo esta pessoa se deparará com o mandamento "não pecar contra a castidade", por exemplo, se deparará com uma moça que quererá viver o namoro casto, terá amigos que não bebem, entre outras coisas, pois estará fazendo parte de outro círculo de relações. O que fazer diante deste quadro? Em geral, a pessoa pensa poder viver uma vida agradando a Deus, mas, vivendo os hábitos pagãos e mundanos antigos: quer continuar tendo vida sexual ativa e degenerando-se em vícios de todo tipo. A experiência a seguir é começar a mitigar a exigência de mudança de vida e conversão legitimando os próprios erros com as seguintes frases: "não é bem assim que devem ser feitas as coisas"; "não se pode ser duro demais na exigência"; "tem que dar um tempo para cada um se converter de verdade sem forçar a barra"; "Deus é bom e conhece os nossos limites, por isso não nos condenaria". Em geral este discurso carregado de ambiguidades sobre Deus e sobre o homem, quer mitigar as exigências de um caminho de conversão verdadeiro e sincero.

Não é possível tomar por concluída a conversão dada naquele encontrinho de fim de semana que fez todos chorarem. A conversão verdadeiramente católica é aquela que toma a sério aquela advertência de São Paulo que encima este texto: a cruz é verdadeiramente loucura para o mundo. Noutras palavras, a conversão é inimizade com o mundo como diz Jesus no seu discurso antitético de João 15, 18: "se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim" e continua: "minha escolha vos separou do mundo" (v.19). Entre o cristão e o mundo não há amizade, mas, inimizade. Não há colaboração, mas, dominação e separação por meio da razão e da fé. Este é o escândalo da cruz: dar prosseguimento à vida de conversão para que a cruz de Cristo - o seu sacrifício redentor por muitos - não se torne vão.

Viver deste modo é amar o Senhor Jesus com todo o amor que se possa ter. Tal amor é: conhecimento de Deus, abnegação voluntária, auto sacrifício, negação de si mesmo, domínio dos impulsos, conversão da mentalidade (cf. Rm 12,2). Por isso o cristão é sempre visto como "louco" aos olhos do mundo. Uma loucura, talvez, equivalente àquilo que Jesus disse: "Desde João Batista até agora o reino dos céus sofre violência e violentos se apoderam dele" (Mt 11,12) e isto pode ser legitimamente interpretado assim: os violentos são os que conseguem entrar no reino dos céus à custa das mais duras renúncias. Quem, no entanto, é capaz de renunciar assim a si mesmo senão os que amam Deus loucamente? Os que querem dar sua vida por Deus? Os que não pensam em guardar nada de sua vida mundana e pagã para si, mas, que desejam desapegar-se dela para viver em Deus porque só Deus vale a pena, só Ele é o verdadeiro tesouro, a verdadeira alegria? Somente este gau de "loucura" ou de amor é capaz de gerar uma energia vital forte o suficiente para convencer o coração a prosseguir o difícil caminho da virtude e da conversão até à vida eterna que às vezes se torna monótono caminho de luta árdua contra as próprias más inclinações.

A Igreja está cheia de neoconvertidos com mentalidade pagã que pensam que já está tudo bem, estão convertidos, estão prontos, porque já fizeram "o encontro", "o retiro", "a jornada", etc. Nada mais falso! "Não resistiria aos embates do tempo uma fé católica reduzida a uma bagagem, a um elenco de algumas normas e de proibições, a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados que não convertem a vida dos batizados. Nossa maior ameaça “é o medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez”. A todos nos toca recomeçar a partir de Cristo, reconhecendo que “não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”. (Documento de Aparecida, nº 12)

Aconselho ler meu outro artigo: "O católico médio perdido entre o relativismo moral e a má fé" para aprofundar o tema.



Padre Luis Fernando Alves Ferreira
Diocese de Itumbiara
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Blog do Padre Luís Fernando