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sexta-feira, 17 de junho de 2016

A tentação diabólica


O Diabo e seus demônios agem de modos diferentes e, por isso, podem ser combatidos também de muitas maneiras. O ponto de partida, porém, é sempre o mesmo: a tentação.

Apesar de haver hoje no mundo uma grande curiosidade acerca da possessão e dos exorcismos, a verdade é que a tentação é muito mais perigosa e importante do que a possessão, pois esta é uma ação extraordinária do diabo, enquanto que aquela é uma ação ordinária, do dia a dia. Santo Tomás, na Suma Teológica, na I seção, questão 114, artigo 2, afirma que o Diabo "sempre tenta para prejudicar, impelindo ao pecado." Ou seja, é próprio de Satanás tentar o homem, é o seu ofício, a sua função.

Assim, a ação demoníaca mais comum na vida do homem é justamente a tentação. Trata-se de um engano, de uma artimanha, crer que o Demônio age somente quando se "apodera" de alguém. Concentrar-se nesse aspecto é prestar um desserviço a si mesmo, pois leva à distração que, por sua vez, conduz ao pecado e à perdição.

O combate espiritual existe e é diário. Não se trata, como muitos imaginam, de algo esporádico, pelo contrário, é uma luta cotidiana e quanto mais cedo se compreender isso, melhor. Santo Tomás deixa clara a importância dessa informação no artigo 1, recordando dois versículos da Carta de São Paulo aos Efésios:

Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às insídias do diabo. A nossa luta não é contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, as Potestades, contra os dominadores desse mundo tenebroso, contra os espíritos malignos espalhados nos ares. (6, 11-12)

O Padre Antonio Royo Marin, em sua obra "Teologia de la Perfeccion Cristiana", explica que nem todas as tentações provém do diabo. Ele cita a carta de São Tiago 1, 14: "Cada um é tentado por suas próprias concupiscências que o atraem e seduzem." A Igreja ensina que o homem tem três inimigos: a carne, o mundo e o Diabo.

Ao falar sobre o dom da perseverança, o Concílio de Trento, já recordava essa grande verdade ao dizer que "sabendo que foram regenerados na esperança da glória, devem temer pela batalha que ainda resta contra a carne, contra o mundo, contra o diabo, da qual não podem sair vencedores, se não obedecerem, com a graça de Deus, às palavras do Apóstolo…" (DH 1541)

A palavra "carne" (em latim caro, em hebraico básar, em grego σαρξ, sarx), que designa o primeiro inimigo do homem, é usada na Bíblia em vários sentidos. Nesse especificamente, quer dizer a desordem interna que cada ser humano possui por causa do pecado original e que o leva ao pecado. É a tendência para a transgressão que habita cada ser humano. Ela se inicia com o pecado original e se aprofunda com os pecados pessoais, por isso é que não se pode dizer que toda tentação é obra do demônio. Santo Tomás fala a respeito no artigo 3, da mesma questão:

Diz-se que alguma coisa é diretamente causa de algo quando age diretamente para produzir o efeito. Desse modo, o diabo não não é causa de todo pecado. Com efeito, nem todos os pecados são cometidos por incitação do demônio, mas alguns pela liberdade de nosso arbítrio e pela corrupção da carne. Como diz Orígenes, "mesmo se o demônio não existisse, os homens teriam desejo dos alimentos, dos prazeres sexuais e de outras coisas parecidas." A respeito dessas coisas acontece muita desordem, a não ser que a razão refreie tais desejos, especialmente se se levar em conta a corrupção da natureza. Ora, refrear e ordenar esses desejos depende do livre-arbítrio. Não é pois necessário que todos os pecados provenham da instigação do demônio. Se todavia alguns provém da instigação dele, para cometê-los os ‘homens são enganados agora pela sedução como o foram nossos primeiros pais’, como diz Isidoro.


O segundo inimigo é o mundo. Convites, lugares, ocasiões, a própria sociedade podem ser também alavancas para a tentação, para o pecado. Mas, "graças à sua missão régia, os leigos têm o poder de vencer o império do pecado em si mesmos e no mundo, por sua abnegação e pela santidade de sua vida" (CIC 943).

O terceiro inimigo é o Diabo e seus demônios. Na Primeira Carta de São Pedro, ele diz que o "vosso adversário, o diabo, anda em derredor como um leão que ruge, procurando a quem devorar" (5, 8). Diante disso é preciso estar sempre alerta, sempre vigilante. Contudo, saber que a tentação é quase contínua não deve ser motivo de desânimo, pois "Deus é fiel e não permitirá que sejais provados acima de vossas forças. Pelo contrário, junto com a provação Ele providenciará o bom êxito, para que possais suportá-la" (ICor 10, 13).

Deus dá a força, a graça, por isso nunca a tentação é maior do que a capacidade de resistência da pessoa e resistir à tentação é uma forma das formas de manifestar o amor por Deus. "Bem-aventurado é o homem que suporta a tentação, porque ele receberá a coroa da vida que Deus prometeu àqueles que o amam"(1Tg 1,12). Se Deus permite a tentação é porque quer ver a luta dos seus filhos. A luta aumenta os méritos da pessoa perante Deus e a aproxima ainda mais Dele. É um mistério da graça divina.

Interessante notar também que a tentação possui uma psicologia, uma forma de acontecer. E é no pecado dos primeiros pais que se encontra a melhor descrição de como o homem é levado a pecar:

A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "É verdade que Deus vos disse: ‘Não comais de nenhuma das árvores do jardim?’" A mulher respondeu à serpente: "Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus nos disse: ‘Não comais dele nem sequer o toqueis, do contrário morrereis.’" Mas a serpente respondeu à mulher: "De modo algum morrereis. Pelo contrário, Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal. A mulher viu que seria bom comer da árvore, pois era atraente aos olhos e desejável para obter conhecimento. Colheu o fruto, comeu dele e o deu ao marido ao seu lado, que também comeu. Então os olhos de ambos se abriram, e, como reparassem que estavam nus, teceram para si tangas com folhas de figueira." (3, 1-7)

O Padre Royo Marin faz uma divisão desse episódio em sete partes. Mas adverte que nem todas ocorrem, necessariamente, quando o homem peca. Ele pode cair imediatamente após a tentação diabólica, sem precisar de muito esforço do inimigo. Em outras situações, porém, o pecado pode levar algum tempo a mais para acontecer - ou nem mesmo se concretizar -, devido ao esforço sincero de conversão e à busca de santidade da pessoa.

Segundo o Padre Royo Marin, o primeiro passo é a aproximação do diabo: ele não permanece ao lado durante todo o tempo como o Anjo da Guarda. Alguns santos e teólogos levantaram a hipótese de que um demônio acompanha permanentemente o homem a fim de tentá-lo, mas essa possibilidade não encontrou nenhum respaldo bíblico nem se constituiu pertencente ao depósito da fé, portanto, é mais aceitável que seja mera opinião.

O segundo passo é o ataque do demônio. No caso de pessoas afastadas das virtudes é possível que o diabo se aproxime, ataque e ela caia rapidamente no pecado. Contudo, normalmente não é assim que acontece e não foi desse modo que se deu com Eva.

Os demônios são observadores e se utilizam das informações coletadas para consumar a tentação. Eles não têm acesso aos pensamentos nem às almas das pessoas, por isso, servem-se da análise até descobrirem o ponto fraco delas. O Padre Royo Marin ensina que é muito importante estar vigilante e fechar sempre as brechas.

Nessa etapa, tendo em seu poder as informações relativas à pessoa e sabendo qual é o seu calcanhar de Aquiles, o inimigo joga uma insinuação para que a pessoa entre no debate. Não é a tentação ainda, mas apenas uma ideia.

A terceira etapa é justamente a resposta da pessoa à sugestão recebida. Eva respondeu à serpente e o fez apresentando justificativas para a proibição, baseadas em sua racionalidade. Seu desejo não era realmente desobedecer a Deus, mas perdeu tempo raciocinando, tentando explicar por que não deveria comer o fruto. O Diabo, por sua vez, tenta levar a pessoa à conversa.

A proposta do pecado, quarta fase, vem sempre acompanhada de uma mentira. Apresenta uma proposta de felicidade imediata que, geralmente, vêm de acordo com o ponto fraco da pessoa. Se a isca for mordida o resultado não será a felicidade, mas sim a morte, vez que o Diabo é o Pai da Mentira. A ruína do homem está em buscar a felicidade onde ela não se encontra.

O Pe. Royo Marin diz que nesta etapa ainda há tempo de retroceder, pois não houve o consentimento. Por outro lado, a alma corre um sério risco de sucumbir à tentação. As forças da alma vão se debilitando e a graça de Deus se torna menos intensa porque a pessoa deu ouvidos ao Tentador.

A quinta etapa é a vacilação, na qual já se comete um pecado venial, pois a pessoa já contempla a hipótese de pecar. Há uma degustação. Nesse ponto, diz o Padre Royo Marin:

A alma começa a vacilar e a se perturbar profundamente. O coração bate com violência dentro do peito, um estranho nervosismo se apodera de todo o seu ser. A alma não gostaria de ofender a Deus, porém, por outro lado é tão sedutor o panorama que se lhe propõe diante dos seus olhos, ela então começa a realizar uma luta violenta que se pode prolongar por muito tempo.

Se a alma, num supremo esforço, sob a influência de uma graça eficaz conseguir superar a sua própria imprudência, será quase um milagre. Nessa etapa a alma está às porta do pecado.

Em seguida, vem o consentimento do pecado. E sobre essa etapa não há muito o que falar, pois está bastante clara: é a consumação do ato pecaminoso.

Por fim, o estágio do arrependimento. Ele que não é de todo mau, pois revela a consciência da alta vocação do homem para a santidade e produz nele o desejo de reparação, de proferir um ato virtuoso de humilhação e de reconciliação com Deus.
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Católicos e Cristãos