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segunda-feira, 30 de maio de 2016

Transformar a dor em amor.


Caríssimos, ouvimos na primeira leitura desta liturgia um pequeno trecho do cântico do Servo do Senhor no Livro de Isaías. Este trecho refere-se a Israel, o filho predileto de Deus entre todas as nações, por quem o Senhor nutre especial predileção. São Mateus em seu evangelho e toda a tradição da Igreja nos ensinaram, porém, que é uma profecia sobre Jesus. É, portanto, justo afirmar: Jesus tomou sobre si a dor de cada homem. O abismo que nos separava de Deus. Quando, no alto do Gólgota, ele gritava: “Deus meu, Deus meu, porque me abandonaste”, eram as nossas dilacerações que o fazia gritar. Mais que a dor física, mais que a humilhação e o cansaço, era a separação entre o homem e Deus que o fazia fremir e olhar o céu com olhar vazio procurando, em vão, apoio no Pai. Ele “ofereceu sua vida em expiação” para “derrubar o muro, a inimizade que nos afastava de Deus”. A nossa dor era sua. Seu grito e seu abandono eram os nossos. Ele caiu no negro abismo da ausência de Deus e da solidão absoluta para que não morrêssemos esmagados pela consciência de que não amamos a Deus o bastante e ao próximo como deveríamos. A ausência de amor no coração humano matou Jesus e nos mataria também, se ele não tivesse levado em si todas as nossas dores e separações.

No Evangelho, Jesus fala aos seus discípulos do cálice de dor que ele deve beber. Fala também aos discípulos que eles devem bebê-lo. Não como uma predição do futuro, mas, muito mais como uma exigência do seguimento de Cristo e sua imitação. No entanto, após falar do cálice de dor, manda os discípulos se tornarem servos, pequenos e irmãos. Porque? Porque Ele sabe que o cálice de dor é ainda insuportável para eles que querem ser grandes. Só será compreensível e assimilável quando tiverem perdido tudo: casa, irmãos, pai, mãe, por causa do reino e só será suportável se entre eles houver verdadeiro amor: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos”. “Vós sois meus amigos”, lhes disse Jesus.

O cálice de dor é bebido pela salvação dos homens. Ele é a cruz, ele é o amor crucificado. O amor crucificado é a autoimolação de Jesus. Tem coragem, sê firme, sê forte e corajoso e imola na cruz teu desejo de grandeza, de poder, de status social, de ser importante e proeminente, de ser alguém aos moldes mundanos. Sê ainda mais forte, sê ainda mais corajoso e mais firme e transforma tua dor em amor.

Uma mãe velou seu filho morto. Depois velou sua filha que se suicidou. Agora cuida das três netinhas. Cada lágrima de dor e saudade que escorre em seu rosto ela transforma em amor às suas netas. Serva por amor. 

Uma esposa traída ouviu de seu esposo a confissão da culpa. A dor era imensa, a humilhação era grande demais. Mas, o amor era maior. Junto às lágrimas de dor e desespero, angústia e sofrimento, havia a firme decisão de amar quem não merecia mais ser amado.

Olhamos uma mãe e dizemos: tens o semblante da Virgem Maria: serena, pacífica, humilde, toda recolhida em Deus. O que não sabemos é que aquele coração de mãe e esposa fora tantas vezes ferido que decidira amar, amar sempre e de novo, amar simplesmente. Fazer-se serva por amor.

Um filho não se dava com pai. Não conversavam. Eram estranhos debaixo do mesmo teto. Como conviver com esse pai? Ama, disse o diretor espiritual. Ama seu pai. Então ele resolveu amar. Um chinelo no pé, uma xícara de café para o pai, um presente de aniversário e um olhar silencioso desarmou o pai que descobriu que podia amar também. “Vem caminhar comigo”, convidou o pai e foram juntos na santa viagem até sua partida para o céu. Servos um do outro. Servos por amor.

Um jovem trabalhava no banco e na volta para casa ia até os usuários de drogas que ficavam em uma esquina. Desviar deles? Fugir? Chamar a polícia? O que fazer? Ama-os, disse o diretor espiritual, ama. Um dia leva bolo de aniversário a um, noutro dia empresta sua própria bicicleta a um daqueles viciados. Em outro dia se aproxima e não diz nada, apenas fica ali com eles. Não faz pregação, não lê o evangelho, nem diz para pararem de usar as drogas. Apenas ama. Um dia a esquina estará vazia, sem drogados, porque alguém os amou. Um servo por amor.

Ouvimos na segunda leitura: “temos um sumo-sacerdote capaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo como nós”, mas “amou até o fim”. Por isso, “aproximemo-nos com toda a confiança do trono da graça, para conseguirmos misericórdia e alcançarmos a graça de auxílio no tempo oportuno”.

Amemos, amemos até o fim como pequenos servos uns dos outros, irmãos no amor, servos por amor, pois, dizia Santa Terezinha do Menino Jesus: “o amor tem em si todas as vocações”.

Se tentares viver de amor, perceberás que aqui na terra, convém fazeres a tua parte. A outra, não sabes nunca se virá, e não é necessário que venha. Por vezes, ficarás desiludido, porém, jamais perderás a coragem, se te convenceres de que, no amor, o que vale é amar (Chiara Lubic).
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Autor e site: Padre Luís Fernando