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quinta-feira, 26 de maio de 2016

Eucaristia: prisioneiro de amor


Há um Prisioneiro num cárcere pequeno. O cativo é Rei de reis, Senhor de senhores. Esse cárcere diminuto é o Sacrário: chama-se Prisão de Amor (cfr. São Josemaría Escrivá, Forja, nº 827), porque o delito é de amor. Sendo Deus, veio a ser homem. Eterno, assumiu o tempo. Invulnerável, quis padecer. Onipotente, ficou inerme sobre o Presépio de Belém. Todo poderoso, foi fugitivo, cruzando desertos de amor cheios de areia. Criador do Universo, trabalhou com fadiga por muitos anos na oficina de José. Onipresente, caminhou passo a passo, incansável, pelos caminhos da Palestina. Grossas gotas de sangue escorreram da sua pele até o chão de Getsêmani. Entregou-se – porque quis – a uma flagelação cruel, à coroação de espinhos. Abraçou a Cruz e deixou-se cravar nela, entre dois ladrões, ao som dos insultos blasfemos das suas criaturas. Tudo sem necessidade, por puro amor, para redimir os pecados de todos e de cada um dos homens e para abrir-lhes as portas do Paraíso.

“Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente com o Seu Corpo e com o Seu Sangue, com a Sua Alma e com a Sua Divindade. Juntando-se a isso um infinito amor, o que haveria de obter-se senão o maior milagre e a maior maravilha?” (João Paulo II, Homilia, 9 VII 1980)

Poderia alguém dizer que é “justo” que estejas aí, Jesus, na tua prisão, indefeso, mais do que em Belém, do que em Nazaré, do que no Calvário? Pois sim, digo que é justo, justíssimo, porque nos roubaste o coração, e o fizeste com “agravantes”. Por que te excedeste tanto no teu amor? Por que nos amas assim, com essa loucura incrível? Não bastava uma só gota do teu Sangue para redimir um bilhão de mundos? Não bastava apenas um só dos teus suspiros? Por acaso não era suficiente apenas a tua Encarnação no seio virginal de Maria Santíssima? Por que tanta dor, por que tanto tormento, por quê?...

É justo, Senhor, que agora estejas aí, cativo na tua pequena prisão escura! Roubaste-nos o coração! É justo com essa justiça maravilhosa, que na sublime simplicidade divina funde-se com o amor, com a misericórdia, com a generosidade, com a verdade, com a liberdade, com a beleza, com a harmonia, com a alegria... É justo que estejas preso porque amas infinitamente, porque te excedeste, e quem se excede tem que pagar por isso! Cumpres a tua expiação no Sacrário.

O que não é de modo algum justo é que eu fique indiferente, ou que te esqueça e passe horas sem me lembrar do teu amoroso cativeiro. Não é justo que passe um só dia sem te visitar no Sacrário ao menos uma vez. Não é justo que o Sacrário não seja o ímã dos meus pensamentos, palavras e obras. Não é justo que – tendo Tu roubado-me o coração – eu não esteja onde está o meu tesouro. Por isso renovo agora o meu propósito de centrar a minha vida no teu cárcere de amor. E sempre que possa, ainda que seja só por uns breves instantes, irei visitar-te para dizer-te: “Adoro-te com devoção, Deus Escondido!” (Hino Adoro te devote). Com uma genuflexão pausada (ia dizer “solene”) direi: Adoro a tua presença real sob as aparências do pão, que já não é pão pois tem a tua substância: o teu Corpo, o teu Sangue, a tua Alma humana, a tua Divindade, com o Pai e o Espírito Santo. 

O MILAGRE DOS MILAGRES

Aqui está o milagre dos milagres, o mistério de fé que reúne em si todos os mistérios do Cristianismo (cfr. São Josemaría, homilia “Amar o mundo apaixonadamente” in Questões atuais do Cristianismo, n. 113): Deus Uno e Trino, a Encarnação do Verbo, a Redenção da Humanidade, a Vida, a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo e a Sua Glorificação eterna... Tibi se cor meum totum subiicit, meu coração submete-se a Ti por inteiro: é teu! Tu o roubaste! Quia te contemplans totum deficit, contemplando-te ele se rende, perde toda outra razão para bater. Não poderia ser de outro modo, quando se ouve o eco daquela canção:

Corazones partidos
yo no los quiero;
y si le doy el mío,
lo doy entero

“Corações partidos,
eu não os quero;
e se lhe dou o meu,
dou-o inteiro”

Se Tu me dás o teu inteiro, o que eu poderia fazer com o meu? Hoje, na Missa, deste-me tudo. Agora só cabe uma palavra: obrigado! Aqui estou eu para servir-te: totus tuus ego sum, sou inteiramente teu.

Visus, tactus, gustus in te fallitur: a vista, o tato, o gosto não conseguem perceber-te, mas basta-me o ouvido para saber com absoluta certeza que estás aí: Isto é o meu Corpo, Este é o cálice do meu Sangue... Não há nada mais verdadeiro do que a tua palavra todo poderosa, capaz de realizar o milagre dos milagres.

Nessas visitas ao Santíssimo, talvez breves, sempre demasiado breves – é inevitável –, acende-se a fé e, com a fé, a esperança e o amor. Creio e proclamo ser verdadeira a tua Humanidade Santíssima e a tua Divindade inefável: ambo tamen credens atque confitens, creio e confesso ambas as coisas. E com a fé acesa como o sol que surge num limpo amanhecer, peto quot petivit latro poenitens, peço o que pediu o ladrão arrependido. “Tenho repetido muitas vezes aquele verso do hino eucarístico: Peto quot petivit latro poenitens. E sempre me comovo: pedir como o ladrão arrependido!” (São Josemaría, Via Sacra, XII, 4).

Que pediu aquele homem de triste vida, que morria na cruz junto a Cristo? Lembra-te de mim quando estiveres no teu Reino (Lc 23, 42). “Reconheceu que ele, sim, é que merecia aquele castigo atroz... E com uma palavra roubou o coração a Cristo e abriu para si as portas do Céu” (Ibid.)

Com uma palavra. Também isso é “justo”, Senhor: se Tu me roubaste o coração, é justo que eu roube o teu. É tão fácil! “A Jesus basta um sorriso, uma palavra, um gesto, um pouco de amor para derramar copiosamente a sua graça sobre a alma do amigo” (Idem, V). Vês agora o meu coração contrito, rendido, convertido, derramado em Ti com todas as fibras do seu ser? Pois então, lembra-te de mim quando estiveres no teu reino! Eu te abro as portas do meu peito: Tu me abres as do teu, as portas do Reino do Amor.

BELÉM: A CASA DO PÃO

Essa pequena prisão de amor é também Belém, um Presépio eterno. O nome “Belém” significa “casa do pão”. O Sacrário é o lugar onde se guarda o Pão da Palavra, o próprio Verbo de Deus, a Palavra Única do Pai, que nos fala do Amor. É o pão dos anjos, o pão do céu, o remédio da imortalidade (cfr. Catecismo da Igreja Católica, nº 1331), porque os anjos não se alimentam de outra coisa a não ser do Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.

Nessa Belém dos nossos templos, encontra-se, a fim de nutrir os homens, não somente o Corpo e o Sangue redentores, mas também o Espírito de Cristo, que se irradia a partir do Sacrário para os nossos corações quando fazemos – como de costume – uma comunhão espiritual. Porque a Humanidade Santíssima de Jesus é o verdadeiro Templo onde a plenitude da Divindade habita corporalmente (Col 2,9). Seu alimento é fazer a Vontade do Pai, e o ar que respira é o Espírito Santo. Por isso, quando sopra, o Paráclito se difunde num incessante e sempre novo Pentecostes.

Não se percebe sempre, onde quer que estejamos, como que uma brisa vinda do Sacrário mais próximo a aliviar o esforço do nosso trabalho? Não vemos como essa brisa põe, se for o caso, doçura no sacrifício, sossego na dor, mais gozo na alegria de amar e de saber-nos infinitamente amados por um Coração de carne, como o nosso, que palpita com vigor divino?

Com seus laços de Amor, o Espírito Santo aperta, une, funde os nossos corações até podermos exclamar: já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim! (Gal 2, 20) É uma maravilha: o cristão endeusa-se, imerso no Infinito, como no diálogo daquela clássica cantiga:

Homem:
Por mais que estejais dividido
Vos encontro inteiro, meu Deus.

Deus:
Sim, que entre nós dois, amigo,
nunca haverá pão quebrado.

Homem:
Que igualdade se pode dar
entre o nada e o tudo?

Deus:
Quereis saber de que modo?
Comendo deste manjar.

Homem:
Portanto, depois de tê-lo comido,
venho por graça a ser Deus?

Deus:
Sim, que entre nós dois, amigo,
nunca haverá pão quebrado.

Homem:
Haverá quem não se assombre
de tão excessivo favor?

Deus:
Isso é o que pode o amor:
tornar a vós Deus, e a Mim, homem.

Homem:
De onde a tal alteza sou vindo,
e a tanta baixeza Vós?

Deus
Sim, que entre nós dois, amigo,
nunca haverá pão quebrado

(Alonso de Ledesma)

Que justo é, meu Deus, que estejas nesse cárcere de amor! De agora em diante compartilharemos tudo: corações, pensamentos, afãs, trabalhos, penas, alegrias, amores. O Sacrário será o meu tesouro, o meu Presépio, o meu Pentecostes... E será para mim Betânia: espaço de encontro, lugar de sossego, onde se ama de verdade a Jesus, com admiração, com respeito, com carinho; onde se escutam as suas palavras sem preconceitos, e onde também Jesus, num eloqüente silêncio, escuta.

Até nos atrevemos a “repreendê-lo” carinhosamente por “não ter vindo a tempo” de curar Lázaro: Senhor – diz Marta –, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. Mas nada nesse mundo nos faz perder a fé: ainda agora eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus To concederá; acredito que Tu és o Messias, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo (cf. Jo 11, 17-44). Lá está Maria, a que é capaz de provocar um maiúsculo escândalo no coração de todos os Judas: derrama o salário anual de um operário em perfume de preciosa fragrância nos pés de Jesus, e os enxuga com seus lindos cabelos (Jo 11, 2). E também Lázaro – alma serena, coração valioso, olhar penetrante, cheio de luz –, que contempla e conversa com o Mestre, sente o valor do seu sangue nobre e generoso, e que pondera em silêncio a sua profunda amizade com Jesus.

“É verdade que ao nosso Sacrário chamo sempre Betânia... – Faz-te amigo dos amigos do Mestre: Lázaro, Marta, Maria. – E depois não me perguntarás mais por que chamo Betânia ao nosso Sacrário” (São Josemaría, Caminho, n. 322). E andarás pelo mundo “assaltando” Sacrários (Ibid., nn. 269 e 876). E alegrar-te-ás toda vez que encontrares mais outro no teu caminho habitual pelas ruas da cidade (cfr. Idem., n. 270). E não abandonarás nunca a Visita ao Santíssimo: “A Visita ao Santíssimo Sacramento é uma prova de gratidão, um sinal de amor e um dever de adoração para com Cristo, nosso Senhor” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1418).

“A Igreja e o mundo têm uma grande necessidade do culto eucarístico. Jesus nos espera neste sacramento de amor. Não nos furtemos a gastar tempo para ir encontrá-lo na adoração, na contemplação cheia de fé e aberta à reparação pelas faltas graves e delitos do mundo. Não cesse nunca a nossa adoração” (João Paulo II). Assim sempre “terás luzes e ânimo para a tua vida de cristão” (Caminho, nº 554), e dirás aos Anjos (que de algum modo compartilham conosco esse mesmo “Pão”): “Ó Espíritos Angélicos que guardais os nossos Tabernáculos, onde repousa o tesouro adorável da Sagrada Eucaristia, defendei-a das profanações e conservai-a para o nosso amor” (cfr. Caminho, nº 569)

UM GRITO SILENCIOSO

O Sacrário é uma chamada a nos entretermos numa conversa de fé, de esperança e de amor com Aquele que deu e continua dando o seu sangue por nós. É como ouvir um grito silencioso: Estou aqui! Vinde todos os que estais cansados, abatidos, desanimados, que eu os aliviarei! Vinde também todos os que estais contentes, pois gosto de compartilhar a vossa alegria e aumentá-la, para que seja mais completa, mais profunda, mais autêntica, mais humana e mais divina, para que ninguém vo-la possa arrebatar!

Para conseguir uma amizade crescente com Cristo é preciso ir purificando a mente e o coração, porque Ele é a própria pureza. A recepção freqüente do Sacramento da Penitência é o grande meio purificador. Sem ele a nossa fé seria escassa, a nossa esperança, incerta, o nosso amor, duvidoso, e as nossas obras, retorcidas. “Não somente a Penitência conduz à Eucaristia, mas também a Eucaristia conduz à Penitência. Com efeito, quando nos damos conta de Quem recebemos na Comunhão eucarística, nasce em nós quase espontaneamente um senso de indignidade, e ao mesmo tempo a dor pelos nossos pecados e a necessidade interior de purificação” (João Paulo II, Dominicae Cenae, 24 II 1980, nº 7). Assim poderemos fazer com que “brilhe ainda mais a glória e a força da Eucaristia” (Bula Incarnationis mysterium, nº 11).


Antonio Orozco Delclos
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Fonte: Arvo.net
Tradução: Quadrante

Disponível em: Quadrante