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terça-feira, 19 de abril de 2016

Pio XII, o papa odiado por Hitler


Uma ação sistemática de ataques e calúnias ao longo das décadas tem pintado o papa Pio XII como cúmplice da perseguição nazista. Recentemente, no entanto, a névoa do preconceito covarde, que há muito tempo tenta encobrir a imagem do papa Pacelli, está começando a se dissipar, graças à pesquisa de historiadores que vêm estudando o último papa nascido em Roma.

É neste contexto que surge “O Terceiro Reich contra Pio XII”, do historiador Pier Luigi Guiducci, que analisou durante sete anos documentos nazistas, alguns inéditos, conservados nos arquivos de vários países, revelando qual era a ideia que o nazismo tinha de Pio XII e, mais em geral, do cristianismo.

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ZENIT – Prof. Guiducci, como começar a entender a realidade histórica ligada a Pio XII e ao nazismo?

Com a existência de uma lenda negra ligada ao mundo nazista. Berlim, por um lado, bloqueou toda a ajuda do Vaticano à Polônia. A ordem era desviar as ajudas para o exército alemão. Formalmente, os auxílios deviam ser entregues à Cruz Vermelha alemã, mas este organismo tinha sido inserido entre as organizações do regime, submetido aos líderes da época. Ao mesmo tempo, os oficiais nazistas que operavam na Polônia transmitiam continuamente à população invadida pela Wehrmacht uma mensagem: "O papa se esqueceu de vocês. O Vaticano não se mexeu. Vocês foram abandonados".

Muitas pessoas se convenceram de que existia essa passividade do pontífice e até um acordo entre ele e as forças de ocupação. Essa ideia errônea foi reforçada pela máquina de extermínio nazista (Shoah). A documentação que pode ser consultada (incluindo as atas do primeiro julgamento de Nuremberg) mostra que toda mensagem transmitida pela Santa Sé (para a abertura de canais de assistência humanitária) ou pelos seus representantes era sistematicamente arquivada. Eu encontrei um informe de um espião para Berlim dizendo que o papa estava fortemente contrariado porque toda iniciativa do Vaticano era sempre neutralizada. Mas há também outra lenda negra, ligada ao mundo comunista. Pio XII tinha recebido no Vaticano um número significativo de relatórios diplomáticos (além de boletins e informações verbais) que listavam as sistemáticas ações de demolição do cristianismo na Rússia. Esta realidade, hoje vastamente documentada, inclusive com gravações em vídeo, se estendeu aos países-satélites de Moscou até atingir uma presença global. Com essa documentação, Pio XII reagiu com firmeza ao comunismo. Primeiro, confirmou a condenação do ateísmo e da sua propaganda. Depois, procurou conter a presença dos comunistas na Itália e em outros países. Evidentemente, a reação soviética foi duríssima.

ZENIT – E como ela se manifestou?

Os serviços secretos da Alemanha Oriental pediram aos colegas de Moscou que recebessem a cópia de um dossiê sobre Pio XII para implantar uma estratégia de destruição da sua imagem, especialmente no âmbito moral. O caso é que eles não encontraram elementos que sustentassem acusações contra o papa. Por isso, decidiram, no fim, insistir em projetos de desinformação, inclusive através de publicações e peças teatrais. Essa dinâmica foi descoberta pelos historiadores após a reunificação da Alemanha, em 1990. Os arquivos da Stasi foram inseridos num único sistema estatal de conservação (e acessível para os estudiosos). 

ZENIT – O seu livro mostra uma circular de 1941 assinada pelo hierarca Martin Bormann, cujo título é “Nacional-Socialismo e Cristianismo são incompatíveis”. Esse texto se deve à aversão pagã do Terceiro Reich à religião cristã?

Bormann se mostrou altamente agressivo com o cristianismo em geral e com o catolicismo em particular. Eles se gabava de "controlar" a juventude, de ter mudado o sistema educacional, substituindo a religião por assuntos relacionados com a história das glórias germânicas. Mas são os escritos e discursos dele que mais tornam claro esse pensamento. Bormann exalta a idolatria ao Estado e ao arianismo alemão. A preocupação era que os católicos, pela sua ligação com Roma, causassem surpresas amargas para o regime. Ele aplicou então uma série de medidas para impedir a Igreja católica de realizar a sua missão. Bormann tentou, com a anuência do Führer, criar uma "igreja" nacional alemã, e encontrou um membro da confissão evangélica (Ludwig Muller, que depois cometeu suicídio) para ser o Reichsbischof dessa Deutsche Evangelische Kirche. Mesmo assim, o ódio pagão do terceiro Reich pela religião cristã envolvia todos os dirigentes e o próprio Hitler. Obviamente, quanto mais o regime suprimia a oposição, perseguia os judeus e os membros de outras religiões, eliminava os deficientes, fazia uma guerra expansionista, mais aumentava e ficava intransponível o fosso entre o regime e cristianismo.

ZENIT – Há também testemunhos de aversão do papa Pio XII ao regime de Hitler?

Na Positio sobre a causa de beatificação do venerável Eugenio Pacelli (Pio XII), há diversos testemunhos que atestam a aversão do papa ao regime de Hitler. O padre Peter Gumpel, relator da causa de beatificação, os mencionou em várias entrevistas. Outros documentos são mantidos no arquivo nazista, bem como em Londres e em Washington. Por exemplo, Reinhard Heydrich (colaborador de Himmler), numa circular aos Gauleiter (os líderes das províncias alemãs), escreveu: "(Pio XII) se alinhou em favor dos judeus, é inimigo mortal da Alemanha e é cúmplice das potências ocidentais". Também há memórias anotadas em diários de pessoas da época, além, é claro, dos discursos do papa, em especial o de 2 de junho de 1945, em que o pontífice fala explicitamente do espectro satânico do nacional-socialismo. E o regime sabia que o papa era radicalmente oposto à ideologia de Hitler. Isso é demonstrado pelo fato de que, durante algumas das suas visitas pastorais ao exterior, ligadas a congressos eclesiais, o então núncio Pacelli (que tinha condenado publicamente a doutrina do sangue e da raça) foi ridicularizado em público na Alemanha com charges que eu reproduzi no meu livro. E não se pode ignorar, junto com tudo isso, que todos os embaixadores estiveram presentes na coroação pontifícia de Pacelli, menos um: o do Terceiro Reich.

ZENIT – O seu livro também mostra, por outro lado, que o ministro alemão de Relações Exteriores, Joachim von Ribbentrop, estava convencido de que havia "uma linha ‘pacelliana’ de apoio à Alemanha". De onde vinha essa crença?

Von Ribbentrop estava cercado de colaboradores que tinham ligações com os espiões nazistas que operavam em Roma. O programa de controle da Santa Sé tentou trilhar várias estradas: a Gregoriana, o Osservatore Romano, a Rádio Vaticano, o Instituto Romano da Sociedade de Görres, os colaboradores do papa, a central telefônica do Vaticano, os malotes diplomáticos... Essas manobras deram pouco resultado. Deu mais certo a escuta através da estação de rádio posicionada no Forte Boccea. Depois, o conflito começou a levantar muitos problemas para os alemães e algumas grandes manobras falharam. Eles criaram então uma situação que eu tenho estudado com cuidado: Hitler não queria mais ouvir ou ler mensagens negativas. Ele os considerava uma expressão de derrotismo e os autores dessas comunicações eram até suspeitos de traição potencial. Nesse ponto, os autores de relatórios (incluindo o embaixador alemão em Roma) tentaram mudar de estratégia, inserindo "considerações serenas" sobre as relações entre a Santa Sé e o Terceiro Reich. Na prática, o início e o final do texto traziam informações “não traumáticas” e só no meio continham alguns dados “desagradáveis” para Berlim. Para um historiador, isto é importante, porque leva a ler mais cuidadosamente as fontes. Mais criticamente. E é justo ao estudar as mensagens enviadas a Ribbentrop que percebemos a "prudência" usada por seus colaboradores. Lendo essas notas "serenas" sobre as relações Alemanha-Vaticano, ele chegou a pensar nessa suposta “linha pacelliana de apoio” à Alemanha. Mas essa ideia se despedaçou quando ele se reuniu em Roma com Pio XII (11 de março de 1940). Foi o próprio papa que, numa resposta a uma das frases do ministro, listou uma série de atrocidades cometidas pelas forças do Terceiro Reich.

ZENIT – O Reichskonkordat, entre a Santa Sé e a Alemanha, tinha sido assinado em Roma em julho de 1933 pelo então cardeal secretário de Estado Eugenio Pacelli. Este gesto pode ter influenciado os julgamentos históricos sobre a relação entre Pio XII e o Terceiro Reich?

A concordata com a Alemanha (20 de julho de 1933) não foi firmada por causa do advento do Terceiro Reich. Ela fazia parte de uma política decidida muito antes da tomada do poder por Hitler e envolvia mais países: Sérvia (1914), Baviera (1924), Prússia (1929), Baden (Alemanha, 1932 ), Áustria (1933), Iugoslávia (1935), Portugal (1940). A concordata não é um ato público bilateral voltado a estabelecer uma amizade. Pelo contrário, é a expressão de um modus consuetudinário de lidar com questões relativas à vida das Igrejas locais (escolas, hospitais...) dentro de Estados específicos. Nesse contexto, deve-se lembrar que a Alemanha, no período pré-guerra, era um Estado reconhecido internacionalmente. Era uma nação levada em particular consideração também pelos representantes franceses, americanos, britânicos (em 1936, o lorde Londonderry encontrou o Fuhrer; em 1937, os duques de Windsor foram visitar a Alemanha convidados por Hitler...). A IBM teve relações comerciais com Berlim até o primeiro ano da Segunda Guerra Mundial, fornecendo calculadoras que foram usadas também em Auschwitz. Viviam na Alemanha milhões de católicos (em 1930, eles eram um terço da população). Havia uma hierarquia católica que já tinha passado por provações dolorosas. Pensemos em particular nos anos da Kulturkampf. Ele também havia uma rede de instituições de saúde e assistência, além das escolas. É bem sabido que o regime de Hitler considerava a concordata como mero papel, mas há outro fato (documentado) menos conhecido.

ZENIT – Qual?

Com as derrotas de guerra, quando começaram a chegar à Alemanha e à própria Berlim os trens que transportavam feridos, inválidos e mortos, percebeu-se que o país precisava de pessoas capazes de lidar com situações humanitárias sobre as quais a propaganda tinha guardado silêncio absoluto. Com a fase de bombardeios (pensemos em Dresden), a realidade ficou terrível. Naquelas horas, as organizações católicas de assistência (que operavam porque eram reconhecidas pela concordata) não recuaram diante do risco de morte. A Igreja católica demonstrou que a concordata tinha sido feita justamente para proteger as organizações que operavam em toda situação de necessidade. A concordata reconhece um Estado, não um regime. Aliás, é por isso que ela continua em vigor até hoje.

ZENIT – O projeto de Hitler de invadir a Santa Sé e sequestrar Pio XII é um fato historicamente sólido?

Há uma série de testemunhos que atestam o projeto de neutralizar a Santa Sé e levar Pio XII para locais sob controle direto dos nazistas. Pessoalmente, eu sou cauteloso diante das declarações do general Karl Wolff (1974 e 1983), das SS, porque, no fim da guerra e nos anos seguintes, ele agiu de forma a fugir da acusação de crimes de guerra. Ele tentou parecer o que não era. Dito isto, deve-se destacar que várias vezes, em memoriais e em testemunhos sob juramento de contemporâneos, se fala seriamente da "possibilidade" de uma ordem de apreensão à força da pessoa de Pio XII. Podemos citar os testemunhos de diplomatas como Weizsäcker, Hassel, Kessel, Moellhausen e Rahn; de soldados como Rintelen e Von Plehwe, ou de oficiais das SS como Eugenio Dollmann e Walter Schellenbeng. Das precauções tomadas na Cidade do Vaticano em meados da década de 1943 se deduz que era levada a sério uma invasão alemã. Houve um momento em que alguns dos envolvidos na Secretaria de Estado receberam a ordem de arrumar as malas e ficar prontos para acompanhar o papa a qualquer momento. Entre eles, estava o cardeal Egidio Vagnozzi, que relatou o episódio em uma entrevista ao New York Herald Tribune em 21 de março de 1964. Havia também preocupações com o destino dos arquivos do Vaticano. Pio XII tinha mandado esconder seus documentos pessoais em pisos duplos perto dos apartamentos privados. Outros documentos da Secretaria de Estado foram espalhados por cantos ocultos dos arquivos históricos. Em agosto e setembro de 1943, os diplomatas das potências aliadas que viviam no Vaticano começaram a queimar seus documentos oficiais, tanto por decisão própria quanto a conselho do cardeal Maglione. A partir de 1941, alguns documentos importantes sobre as relações entre o Vaticano e o Terceiro Reich, em especial sobre as questões da Polônia, começaram a ser microfilmados e enviados para o delegado apostólico em Washington, dom Amleto Cicognani. Temia-se o pior.

ZENIT – Na sua opinião, a ideia de uma proximidade entre Pio XII e os nazistas poderia de alguma forma ter afetado o processo de beatificação de Pio XII?

Pio XII sempre teve uma estima especial pelo povo alemão. Ele trabalhou para a Santa Sé na Alemanha durante doze anos. Ele conheceu a realidade política da República de Weimar. Em 1920, ele foi o primeiro núncio para toda a Alemanha, na nova nunciatura de Berlim. Entre seus colaboradores, havia alemães. Ele apreciava várias habilidades do povo alemão (seriedade no trabalho, precisão, pontualidade, respeito pelas regras...). Já quanto ao nacional-socialismo, era completamente diferente. Ele nunca aceitou a doutrina da raça e do sangue. Foi o próprio Pacelli, ainda cardeal, quem revisou o esboço da encíclica que condenava a doutrina nazista (a “Mit brennender Sorge”), incluindo contínuos esclarecimentos. E foi o então núncio Pacelli quem condenou, em Lourdes, as teses que vinham de Berlim. Podemos concluir, portanto, que o papa era próximo do povo alemão, mas manteve uma condenação radical do nacional-socialismo. Inserir no processo de beatificação opiniões de quem não estudou a realidade histórica seria apenas favorecer a confusão. O papa Pacelli foi declarado venerável porque foram reconhecidas suas virtudes heroicas. O próximo passo, que é o reconhecimento de um milagre, é um fato ligado apenas aos desígnios da Providência.
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