segunda-feira, 11 de abril de 2016

Geração escolhida, sacerdócio real


Vós sois geração escolhida, sacerdócio real. Este elogio, dado outrora por Moisés ao povo antigo de Deus, aplica-o agora o apóstolo Pedro, e com razão, aos gentios, porque acreditaram em Cristo, o qual, como pedra angular, reuniu todos os povos na mesma salvação que Israel tinha tido para si.

Chama-os geração escolhida, por causa da sua fé, para os distinguir daqueles que, rejeitando a pedra viva, acabaram por serem eles mesmos rejeitados. Chama-os também sacerdócio real, porque se encontram unidos ao Corpo d’Aquele que é o supremo rei e verdadeiro sacerdote; como rei, torna-os participantes do seu reino e, como pontífice, purifica-os dos pecados pelo sacrifício do seu Sangue. Chama-os sacerdócio real, para que se lembrem de esperar o reino eterno e de oferecer continuamente a Deus o sacrifício de uma conduta irrepreensível.

São chamados também nação santa e povo resgatado, em conformidade com o que diz o apóstolo Paulo, ao comentar uma passagem do Profeta: O meu justo vive pela fé; mas se dela se afastar, não agradará à minha alma. Nós, porém, não somos dos que se afastam da fé para sua perdição, mas dos que a conservam para salvar a alma. E nos Atos dos Apóstolos: O Espírito Santo vos constituiu bispos, para regerdes a Igreja do Senhor, que Ele adquiriu com o seu Sangue.

Assim, portanto, o Sangue do nosso Redentor fez de nós um povo resgatado, como outrora o sangue do cordeiro libertara do Egito o povo de Israel. Por isso, no versículo seguinte, ao recordar-se do sentido misterioso da antiga narração, ensina Pedro que ela deve ser realizada plenamente no novo povo de Deus, dizendo: Para anunciardes as suas grandezas.    

Efetivamente, assim como os que foram libertados da escravidão do Egito por Moisés entoaram ao Senhor um cântico triunfal, depois de terem passado o Mar Vermelho e de ter sido submergido o exército de Faraó, assim também nós, depois de termos recebido no Batismo o perdão dos pecados, devemos agradecer dignamente os benefícios celestes.

De fato, os Egípcios que afligiam o povo de Deus, e por isso eram símbolo das trevas e tribulações, representam bem os pecados que nos acompanhavam, mas que foram lavados pelas águas do Batismo.

A libertação dos filhos de Israel e a sua caminhada para a pátria outrora prometida, adapta-se ao mistério da nossa redenção, pela qual nos dirigimos para os esplendores da morada celeste, sendo nossa luz e guia a graça de Cristo. Esta luz da graça foi também prefigurada por aquela nuvem e coluna de fogo que, durante toda aquela viagem, os defendeu das trevas da noite e os conduziu, por caminho inefável, para a pátria prometida.



Do Comentário de São Beda Venerável, presbítero, sobre a Primeira Epístola de S. Pedro (Cap. 2: PL 93, 50-51) (Sec. VIII)