quarta-feira, 6 de abril de 2016

Cristo vivo na Sua Igreja


É indubitável, caríssimos, que o Filho de Deus Se uniu à natureza humana tão intimamente que não só nesse homem, que é o Primogênito de toda a criatura, mas também em todos os seus santos, está o mesmo Cristo. E como a Cabeça não se pode separar dos membros, também os membros não se podem separar da Cabeça. E se é certo que não é próprio desta vida, mas da eterna, que Deus seja tudo em todos, também é verdade que, já desde agora, Ele habita inseparavelmente no seu templo, que é a Igreja, segundo a sua promessa: Eu estou convosco todos os dias até ao fim dos tempos. Portanto, tudo quanto o Filho de Deus fez e ensinou para a reconciliação do mundo, podemos reconhecê-lo não só na história do passado, mas senti-lo também na eficácia do que Ele opera no presente.

É Ele que, tendo nascido pelo poder do Espírito Santo de Mãe Virgem, por ação do mesmo Espírito fecunda a sua Igreja imaculada, para gerar pelo Batismo uma inumerável multidão de filhos de Deus. Destes se diz: Não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas nasceram de Deus.

É n’Ele que foi abençoada a descendência de Abraão por meio da adoção filial de todos os povos do mundo; e o santo Patriarca torna-se pai das nações, quando, pela fé e não pela carne, lhe nascem os filhos da promessa.

É Ele que, sem excluir povo algum e reunindo todas as nações que há debaixo do céu, forma de tão numerosas ovelhas um só rebanho santo e todos os dias cumpre o que prometera, ao dizer: Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil; é necessário que Eu as traga também e ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor. E embora tenha dito a São Pedro como chefe [dos Apóstolos]: Apascenta as minhas ovelhas, é Ele o único Senhor que orienta o ministério de todos os Pastores.

É Ele que alimenta os que se aproximam desta Pedra, com pastos tão abundantes e frescos, que inúmeras ovelhas, fortalecidas pela generosidade do seu amor, não hesitam em entregar-se à morte pelo seu Pastor, como Ele, o Bom Pastor, deu a vida pelas suas ovelhas. Não é só a gloriosa fortaleza dos mártires que participa na sua paixão, mas a própria regeneração batismal de todos aqueles que renascem pela fé. Deste modo se celebra, segundo a Lei, a Páscoa do Senhor nos ázimos da pureza e da verdade: rejeitado o fermento da antiga malícia, é do mesmo Senhor que a nova criatura se inebria e alimenta.

A nossa participação no Corpo e Sangue do Senhor não tem outro efeito senão transformar-nos naquilo que recebemos, e revestir-nos em tudo, no corpo e no espírito, d’Aquele em quem morremos, em quem fomos sepultados e em quem ressuscitámos.



Dos Sermões de São Leão Magno, papa
(Sermão 12 da Paixão, 3, 6-7: PL 54, 355-357) (Sec. V)