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segunda-feira, 25 de abril de 2016

A “mulher” de Jesus


O Evangelho da mulher de Jesus! Estranho, mas é esse o título dado pela pesquisadora Karen King, da Universidade de Harvard, a um minúsculo pedaço de papiro copta encontrado recentemente. Especialistas se dividem na opinião sobre a autenticidade do documento. Falta ainda o teste com carbono 14 para comprovar a sua datação, postulada no século IV. Trata-se de frases soltas: “Não [para mim]. Minha mãe me deu a vi[da] (1). Os discípulos disseram a Jesus: (2); negar; Maria é digna disso (3). Jesus disse a eles: Minha mulher (4). Ela conseguirá ser minha discípula (5). Que os perversos se encham (6). Quanto a mim habito com ela para que (7). Uma imagem (8).

O uso de termos gnósticos – corrente de pensamento (séculos de 1 a 7) que acreditava na salvação pelo conhecimento –, como: mãe, vida, Maria é digna disso, minha mulher e perverso, se encham sinaliza que pode se tratar de pedaço do evangelho apócrifo – texto usado de forma escondida pelos cristãos e que não foram considerados inspirados – gnóstico de Maria Madalena (ano 150), do qual faltam as páginas de 1 a 6. Assim, estamos diante de mais um texto gnóstico cristão. Os gnósticos consideravam Maria Madalena como a companheira de Jesus. O evangelho de Filipe afirma: “Eram três que acompanhavam sempre o Senhor: sua mãe Maria, a irmã dela, e Madalena, que é chamada de sua companheira, consorte” E ainda: “A companheira de Cristo é Maria Madalena. O Senhor amava Maria Madalena mais que todos os discípulos, e a beijava na boca repetida vezes. Os discípulos lhe disseram: Por que a amas mais que a nós? O Salvador respondeu dizendo: Como é possível que eu não vos ame tanto quanto a ela?” No evangelho de Maria Madalena, Pedro reconhece que Jesus amava Madalena diferentemente das outras mulheres e pergunta apavorado: “Será que Ele verdadeiramente a escolheu e a preferiu a nós?”. Levi defende Maria Madalena e chama a atenção de Pedro por agir de forma misógina com as mulheres, como os adversários. O apócrifo Perguntas de Maria também admite que Madalena era amante, parceira sexual ou esposa carnal de Jesus. Opinião considerada exagerada e contestada por Pistis Sophia. Assim sendo, o fragmento encontrado é mais um testemunho da crença nos primórdios do cristianismo e na relação matrimonial entre Jesus e Madalena. O que dizer de tudo isso? Com certeza, essa dúvida vai permanecer para sempre. Para os gnósticos, a união entre o masculino e o feminino era vista numa esfera espiritual de superação da divisão corpórea. Jesus e Madalena eram vistos como exemplo dessa integração. O beijo entre eles é a expressão desse desejo espiritual que comunicava o saber. 

Da afirmativa “minha mulher” decorre um Jesus homem que ama uma mulher, como todos os homens do seu tempo. Onde está o erro nisso? Como bom judeu, Jesus jamais teria proibido essa relação humana e divina. O que não contradiz com o seu conselho de vida celibatária dada aos que queriam se dedicar de forma integral ao Reino. Na outra ponta da linha, a descoberta desse papiro mantém na pauta de discussão a questão do celibato do clero, sem, no entanto, comprovar historicamente que Jesus era casado.

No dito de Jesus “Maria é digna disso” está implícita outra controvérsia: a liderança apostólica da mulher. Em 201, Tertuliano escreve, proibindo as mulheres de ensinar, exorcizar, batizar, pregar, oferecer Eucaristia na Igreja, bem como de reivindicar cargo sacerdotal. Foi nessa época também que iniciou o processo de identificação errônea da prostituta de Lc 7,36-50 com Madalena, mulher que exerceu forte liderança entre os apóstolos, esteve ao lado de Jesus e o amou profundamente, sendo sua discípula amada. Ela foi capaz disso. Ademais, o amor entre Jesus e Madalena é o que integra tudo em todos. Um amor sublime e humano.


Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
é Padre franciscano, escritor, mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico, de Roma, especialista em evangelhos apócrifos, professor de exegese bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA, em Belo Horizonte e em cursos de Teologia para leigos. Autor de uma centena de artigos. Autor e coautor de quinze livros, sendo o último: Infância apócrifa do menino Jesus. Histórias de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010. Diretor Geral e Pedagógico dos Colégios Santo Antônio e Frei Orlando, ambos em Belo Horizonte.
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