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sábado, 5 de março de 2016

Homilia no funeral do Juiz Antonin Scalia, da Suprema Corte dos Estados Unidos da América.


Nós estamos reunidos aqui por causa de um homem. Um homem pessoalmente conhecido por muitos de nós, e que por muitos outros é conhecido apenas pela reputação; um homem amado por muitos, repudiado por muitos; um homem de muitas controvérsias, e de grande compaixão. Este homem, obviamente, é Jesus de Nazaré.

É ele que nós professamos: Jesus Cristo, Filho do Pai, nascido da Virgem Maria, crucificado, morto, ressuscitado, sentado à direita do Pai. É por causa dele, por causa da Sua vida, morte e ressurreição que nós não choramos como aqueles que não têm nenhuma esperança, mas confiantemente recomendamos Antonin Scalia à misericórdia de Deus.

A Escritura diz que “Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e amanhã”. E isto estabelece um bom roteiro para os nossos pensamentos e preces aqui hoje. Portanto, olhamos em três direções: para o passado, em ação de graças. Para o presente, em súplica. E para a eternidade, em esperança.

Olhamos para Jesus Cristo ontem – quer dizer, no passado – em gratidão pelas bênçãos que Deus derramou sobre papai. Na última semana, muitos rememoraram o que papai fez por eles, mas hoje, aqui, lembramos o que Deus fez por papai; como Ele o abençoou. Nós damos graças, em primeiro lugar, pela morte expiadora e pela ressurreição vivificadora de Jesus Cristo. Nosso Senhor morreu e ressuscitou não apenas por todos nós, mas também por cada um de nós. E, agora, nós olhamos para esse ontem de Sua morte e Ressurreição, e agradecemos que ele tenha morrido e ressuscitado por papai. Além disso, agradecemos que Jesus tenha dado a ele uma vida nova no batismo, que o tenha alimentado com a Eucaristia e o tenha curado com a confissão. Agradecemos que Jesus lhe tenha concedido 55 anos de matrimônio com a mulher que ele amou – uma mulher que o completou em cada passo, e que o manteve responsável.

Deus abençoou papai com uma profunda fé católica — a convicção de que a presença e o poder de Cristo continua no mundo de hoje através do Seu corpo que é a Igreja. Ele amava a coerência e a clareza do Magistério da Igreja. Ele amava as cerimônias eclesiais, em especial a beleza de seu culto ancestral. Ele acreditava no poder dos Sacramentos como os meios de salvação – como o Cristo trabalhando em seu interior pela sua salvação.

Embora, uma vez, num sábado à tarde, ele tenha ralhado comigo por ter ouvido confissões naquela tarde, naquele mesmo dia. E eu espero que seja uma fonte de consolação (se houver algum jurista aqui presente) que o colarinho romano nunca tenha sido um escudo contra suas críticas. O assunto, naquela tarde, não era que eu estivesse ouvindo confissões, mas que ele tivesse ido parar na minha fila do confessionário. E ele rapidamente se retirou: “sem chance de que eu me confesse com você!”. O sentimento era recíproco.

Deus abençoou papai, como se sabe, com um amor pelo seu país. Ele sabia muito bem quão apertada fora a fundação de nossa nação. E ele enxergava nessa fundação como os próprios fundadores também achavam, uma bênção. Uma bênção logo desperdiçada quando a fé foi banida do espaço público, ou quando nos recusamos a levá-la até ali. Assim, ele compreendeu que não havia nenhum conflito entre amar a Deus e amar o próprio país, entre a própria fé da pessoa e o seu serviço público. Papai compreendeu que quão mais profundo ele chegasse em sua fé católica, tão melhor cidadão e servidor público ele se tornaria. Deus o abençoou com um desejo de ser o melhor servo para o seu país, porque ele era o melhor servo para Deus. 

Nós, Scalias, de todo modo, damos graças por uma bênção particular que Deus nos concedeu. Deus abençoou papai com um amor por sua família. Estivemos emocionados de ouvir e ler as muitas palavras de louvor e admiração por ele, sua inteligência, seus escritos, seus discursos, sua influência e tudo o mais. Mas mais importante para nós – e para ele o é que ele era o papai. Ele era o pai que Deus nos deu para a grande aventura da vida familiar. É claro que ele esquecia nossos nomes às vezes, ou os misturava: mas éramos nove. Ele nos amava, e lutava para mostrar tal amor, e lutava para compartilhar a bênção da fé que ele estimava tanto. E ele nos deu uns aos outros, para apoiar-nos reciprocamente. Esta é a maior riqueza que um pai pode legar, e neste momento somos particularmente gratos por ela.

Assim, olhamos para o passado, para Jesus Cristo ontem. Recordamos todas estas bênçãos, e damos honra e glória a Nosso Senhor por elas, porque são obras d’Ele.

Olhamos para Jesus hoje, em súplica – para o momento presente, o aqui e o agora, enquanto pranteamos aquele que amamos e admiramos, aquele cuja ausência nos é dolorosa. Hoje rezamos por ele, pelo repouso de sua alma. Agradecemos a Deus pela sua generosidade com papai, porque ele era direito e justo. Mas sabemos também que, embora acreditasse, ele o fazia imperfeitamente, como o resto de nós. Ele tentava amar a Deus e ao seu próximo, mas, como o resto de nós, ele o fez de modo imperfeito. Ele era um católico praticante – praticante no sentido de que ele não tinha atingido a perfeição ainda. Ou melhor, que Cristo ainda não era perfeito nele. E apenas aqueles em quem Cristo é trazido à perfeição, podem entrar no céu. Estamos aqui, portanto, para fazer as nossas preces por este aperfeiçoamento, que é o dom final da graça divina, e que libertará papai de todo o resquício de pecado.

Mas não creiam na minha palavra sobre isto. O próprio papai, de modo não surpreendente, tinha algo a dizer sobre o assunto. Escrevendo há alguns anos a um ministro presbiteriano cujos serviços funerais ele admirava, ele resumiu muito bem as armadilhas dos funerais (e porque ele não gostava de encômios). Ele escreveu: “mesmo quando o falecido era uma pessoa admirável, – aliás, especialmente quando o falecido era uma pessoa admirável – louvar suas virtudes pode nos levar a esquecer que estamos rezando e dando graças pela misericórdia inexplicável de Deus com um pecador”. Portanto, ele não teria excepcionado a si mesmo disto. Nós estamos aqui, então, como ele gostaria, para rezar pela inexplicável misericórdia divina a um pecador: para este pecador, Antonin Scalia. Não nos permitamos demonstrar a ele um falso amor, e deixar que a nossa admiração o prive de nossas orações. Continuaremos a demonstrar a nossa afeição por ele, e fazer o bem a ele, rezando por ele. Que toda mácula de pecado seja purificada, que todas as feridas sejam curadas, que ele seja depurado de tudo que não for Cristo. Que ele descanse em paz.

Finalmente, olhamos para Jesus, para sempre, na eternidade. Ou melhor, consideremos nosso próprio lugar na eternidade, e se será com o Senhor. Mesmo enquanto rezamos para que papai entre rapidamente na glória eterna, devemos lembrar de nós mesmos. Todo funeral nos lembra de quão fino é o véu, entre este mundo e o próximo, entre o tempo e a eternidade, entre a oportunidade de conversão e o momento do juízo. Assim, não devemos sair daqui sem mudança. Não faz sentido que celebremos a bondade e a misericórdia divinas se não estivermos atentos a estas realidades em nossas próprias vidas. Devemos permitir que este encontro com a eternidade nos mude, nos afaste do pecado e nos aproxime do Senhor. O padre dominicano inglês Bede Jarrett colocou isto lindamente quando rezou, “Ó Filho poderoso de Deus… Enquanto tu preparas um lugar para nós, prepare também a nós para este lugar feliz, para que estejamos contigo e com aqueles a quem amamos por toda a eternidade.”

Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre. Meus caros amigos, esta é igualmente a estrutura da missa – a oração mais elevada que podemos oferecer por papai, porque não é a nossa oração, mas a oração do Senhor. A missa olha para Jesus ontem. Ela penetra no passado – para a Última Ceia, para a Crucifixão, para a Ressurreição – e ela faz que estes mistérios e seu poder presentes aqui, neste altar. O próprio Jesus se faz presente aqui, hoje, sob as espécies de pão e vinho, de modo a que possamos unir todas as nossas preces de ação de graças, de súplica e de dor com o próprio Cristo, como uma oferta ao Pai. E tudo isto com os olhos na eternidade – chegando até o céu – onde esperamos gozar da perfeita união com o próprio Deus e encontrar com papai de novo, e com ele nos alegrarmos na comunhão dos santos.


Reverendo Paul Scalia,
sacerdote na Diocese de Arlington, Virginia, e filho do justice americano Antonin Scalia, pronunciou na homilia da missa do funeral do seu célebre pai, no último dia 20 de fevereiro de 2016.
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ZENIT