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quarta-feira, 23 de março de 2016

Homilética: Vigília Pascal na Noite Santa - Ano C: "Ressuscitou, aleluia!"


A teologia de Israel considerou o Egito como o símbolo do inimigo da humanidade, primeiramente porque, em hebraico, o nome Egito significa “Mar Estreito” e em segundo lugar porque a palavra faraó, quando lida ao contrário naquele idioma, resulta literalmente no vocábulo “pescoço”, “nuca” ou “cerviz” e, metaforicamente, significa o ego. A nuca é a parte do corpo em que se coloca o jugo e que se curva na presença do soberano. Os reis vencedores pisavam a nuca dos reis vencidos (Sl 18,40; Sl 110,1b). Pisar a cabeça da serpente significa vencer tudo que é inimigo do ser humano, essa é a missão da descendência da mulher contra a serpente (Gn 3,15b). E Jesus é aquele que obteve a vitória final sobre os inimigos da humanidade.

Comentário dos textos bíblicos

Evangelho (Lc 24,1-12): A vida vence a morte!

A história da salvação converge para esse momento. Na cidade santa, representante da história salvífica, Deus manifesta sua grande ação salvadora, a morte e a ressurreição do Messias. Mas é preciso escutar as Escrituras para compreender a mensagem divina proferida pelos “anjos”: “Porque procurais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou”.
No primeiro dia da semana, dia da nova criação, Deus ressuscita Jesus. As mulheres que vão ao túmulo o encontram vazio e não entendem o que se passa. A boa-nova da ressurreição de Jesus não pode ser compreendida diante do túmulo vazio, mas somente mediante o anúncio divino. Os “homens com vestes resplandecentes” convidam as mulheres a rememorar o que Jesus havia ensinado a respeito de sua morte e ressurreição. Ao lembrarem-se das palavras do Mestre, as mulheres anunciam aos Onze e aos outros o acontecido no túmulo vazio. No entanto, eles não acreditam.

As mulheres representam o elo entre o túmulo aberto e as aparições do Ressuscitado. Essas aparições revelarão o sentido do sepulcro vazio, que não fala por si só, mas deve ser complementado pela palavra, mediante a experiência com o Ressuscitado, que explicará as Escrituras aos discípulos para que compreendam tudo o que devia acontecer.

Nesse relato, a mensagem central é mostrar que o Vivente não deve ser procurado no túmulo, entre os mortos. Porque o Deus da vida não podia abandonar seu Filho na região dos mortos. A morte de Jesus não foi sua derrota, e sim sua exaltação, seu êxodo para o Pai. Mas essa revelação vem de cima. E os discípulos só poderão anunciar a boa-nova da ressurreição de Jesus quando fizerem a experiência com o Ressuscitado. Eles deverão fazer a passagem da dúvida à certeza, da incredulidade à fé. E isso ocorrerá quando fizerem a experiência do encontro com o Vivente. 

Comentário global das leituras:
A graça venceu o pecado, o perdão venceu a violência!

As leituras de hoje têm como objetivo retomar a história da salvação.

Em primeiro lugar, Deus criou e mantém, com sua providência, a ordem da criação e a vitalidade de todos os seres. A beleza da criação provoca no ser humano a admiração por sua harmonia e estabilidade, levando-o à contemplação e à adoração do Criador. Mas a complexidade da criação também desperta o interesse do ser humano para conhecê-la e explorar os seus segredos, pois essa capacidade foi dada por Deus à humanidade. Contudo, o único ser do universo capaz de conhecer não pode prescindir da responsabilidade para com a preservação da obra de Deus.

O segundo passo da ação salvífica de Deus exige uma resposta do ser humano. Deus quis fazer aliança com a humanidade, e, para que isso se realize, faz-se necessária a firme decisão consciente do ser humano de aceitar o senhorio absoluto de Deus, mostrando em todos os momentos da vida que o ama acima de tudo.

Nesse relacionamento íntimo entre Deus e a humanidade, confiança e esperança estão sempre juntas. Ao entregar a própria vida nas mãos de Deus, o ser humano fica seguro de que não será decepcionado.

Exemplo disso são os hebreus que encontraram vida e liberdade quando tudo parecia perdido, pois o Senhor lhes deu a completa vitória sobre os inimigos. Deus estava empenhado em livrar de qualquer ameaça o povo da aliança e preservá-lo da destruição, ficando à frente dele na saída do Egito, na travessia do mar, no deserto e na terra prometida.

Apesar de todas as infidelidades do povo escolhido, Deus nunca o esqueceu nem deixou de tratá-lo com amor, sempre chamando Israel e renovando a aliança com ele. Assim, Deus foi agindo na história com o firme propósito de dar a salvação a todo ser humano. A humanidade, por sua vez, quase sempre respondeu a tão grande propósito com a rebeldia do pecado. Muitas vezes o ser humano reconheceu sua responsabilidade nas afrontas a Deus, pediu perdão e recomeçou a caminhada de fé. Outras vezes, o ser humano permaneceu na sua obstinação e orgulho contra o Senhor. Até que nos foi enviado o Salvador para plenificar a obra de redenção, que começou com a criação. Mesmo assim o Filho de Deus foi rejeitado, sofrendo, por nossa culpa, a morte na cruz. Mas Deus o ressuscitou nesta noite grandiosa que hoje celebramos. Jesus Cristo, o Filho do Altíssimo, nossa páscoa e nossa ressurreição, garantia de nossa união definitiva com Deus.

Pistas para reflexão

Várias situações podem fazer com que a páscoa não seja atuante em nossas vidas. Que situações poderiam ser essas? Será que estamos conscientes de que a ressurreição de Jesus não é um prêmio que o Pai lhe deu por seu bom comportamento, como se faz com uma criança, mas, na verdade, Cristo ressuscitou por nossa causa? “Se Cristo não ressuscitou, vã é nossa fé” (1Cor 15,14.17). E, se nós não soubermos o significado da ressurreição de Cristo como garantia de nossa união definitiva com o Pai e da filiação divina que nos foi dada nesse mistério, vã continuará sendo a nossa fé, que nem mesmo poderá ser chamada de cristã.


Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).
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Vida Pastoral