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segunda-feira, 21 de março de 2016

Homilética: Ceia do Senhor: "O Memorial do Senhor".


A instrução de Jesus “fazei isto em memória de mim” não significa ter uma recordação intelectual de sua pessoa; trata-se de uma ordem para que a comunidade de fiéis (a Igreja) celebre a entrega de Jesus ratificada na cruz e plenificada na ressurreição. E, como a páscoa de Jesus foi realizada como plenificação da Páscoa judaica, a “memória” que se celebra é o conjunto dos atos salvíficos de Deus, quando a morte foi transformada em vida. A celebração da eucaristia é atualização, no aqui e agora, dos eventos salvíficos realizados ao longo da história que culminaram no mistério de Cristo.

Comentário dos textos bíblicos

Evangelho (Jo 13,1-15): Façais assim como eu fiz

A cena do lava-pés situa-se na segunda parte do Evangelho de João (13-20), na qual se relata a exaltação de Jesus, sua elevação ao Pai. Nesse bloco, Jesus se dirige aos discípulos (cap. 13-17) num longo discurso de despedida.

O v. 1 abre a cena da ceia, introduzindo o leitor no contexto em que serão desenvolvidos os discursos de Jesus aos seus. A ceia é realizada antes da festa da Páscoa, ou seja, antes de Jesus passar deste mundo ao Pai. A ceia é dominada pela temática que perpassa por todo o evangelho: amor e fidelidade. Jesus amou os seus e seu amor permanece até o fim. Esse amor será transbordado na entrega definitiva de Jesus na cruz. Na cena do lava-pés, Jesus antecipa, de modo prefigurativo, essa entrega e as suas consequências.

Nos vv. 2-5, Jesus põe-se a lavar os pés dos seus discípulos. O gesto realizado durante a ceia é muito significativo. Sabemos que cear com alguém significa partilhar de sua vida e ideais. Jesus partilhava com os seus a mesma vida e missão que recebeu do Pai. Sabendo que tudo recebera do Pai, o amor em sua plenitude, e ciente de que sua hora havia chegado, pois estava para voltar ao Pai, Jesus vai mostrar, no gesto do lava-pés, o que significa esse amor pleno recebido do Pai e oferecido aos seus.

As normas de conduta relativas à hospedagem determinavam que lavar os pés era uma atividade realizada pelo anfitrião ou pelo seu primogênito (cf. Gn 18,4; Lc 7,44), e não por um escravo, como geralmente se pensa. No Antigo Testamento, o dono da casa lavava os pés do hóspede como gesto de acolhida. E, assim como Abraão acolheu Deus na figura dos três homens que o visitaram (cf. Gn 18,4), no gesto de lavar os pés, Jesus, o primogênito de Deus, acolhe na casa paterna toda a humanidade. É um sinal profundo em que se revela o rosto do Pai, que ama e acolhe, dando-se de forma definitiva no Filho. Esse gesto fundamenta a vocação da Igreja no mundo.

O questionamento de Pedro (vv. 6-11) diante daquele gesto denota a falta de disposição do apóstolo para, em nome de Jesus, acolher na Igreja, da qual é chefe, todo ser humano indistintamente. Inicialmente Pedro não compreendeu isso; só depois da ressurreição de Jesus é que o apóstolo entendeu que Jesus queria a acolhida dos gentios na comunidade (At 10,34). Mas não permitir a Jesus lavar-lhe os pés significa não tomar parte com ele, não ter parte na herança, ou seja, não participar da comunhão com Deus realizada em Jesus Cristo, em sua vida e morte aqui antecipada nesse gesto profético.

Os vv. 12-15 explicam a atitude de Jesus, oferecem o seu significado. Aqueles que têm parte com Jesus, que partilham de sua vida e missão, não poderão se ausentar do serviço ao outro. Serviço que se traduz no acolhimento do outro, na entrega de si, numa vida de doação e serviço amoroso. Somente ama aquele que entrega a própria vida. E entregar-se vai muito além de simples serviço, mas é dom daquilo que se é e do amor que se tem, dom de si para o outro. 

I leitura (Ex 12,1-8.11-14): Este será para vós um memorial perpétuo

A Páscoa e o êxodo, momentos fundadores de Israel como povo, são inseparáveis. Nesse texto proclamado hoje na liturgia, explicita-se o propósito da primeira Páscoa: a esperança de salvação dos primogênitos e a expectativa de libertação da escravidão. A salvação dos primogênitos significa que a vida das futuras gerações do povo estará assegurada, contrariando os desejos do faraó (Ex 1,16). Naquela época, era o primogênito quem levava adiante o nome do clã ou da tribo. Sem primogênitos não há futuro para o povo. Somada à salvação dos primogênitos estava a libertação da escravidão, garantia de vida livre e digna para as futuras gerações.

Para representar essa dupla ação de Deus, cada família deveria escolher um cordeiro ou cabrito sem defeito, simbolizando a integridade da oferta ao Deus uno e perfeito. Em contraste com outras festas de Israel, a Páscoa era uma festa familiar, pois da família dependia a existência de gerações futuras e livres.

O sangue simbolizava a vida (cf. Gn 9,4; Lv 17,11), e a última praga, que será narrada após o relato da celebração da primeira Páscoa, consistirá na morte, que ameaçava hebreus e egípcios. Por meio do sangue do cordeiro, símbolo da vida dos ofertantes, marcando a entrada das casas, Deus proibiu a ação da morte contra os hebreus (Ex 12,22-23).

O restante do cordeiro era assado e consumido pela família. A carne do animal não era cozida porque isso tomaria muito tempo e esse alimento deveria ser preparado o mais rapidamente possível. A família teria de comê-lo apressadamente, para sair sem perda de tempo. Todos deveriam assimilar a urgência da libertação a ser realizada por Deus. Sandálias nos pés, cajado nas mãos e rins cingidos (v. 11) são aspectos de quem tem pressa para sair em longa viagem. Cingir os rins significa que a túnica estava levantada, com a orla presa no cinto, deixando as pernas livres para correr, trabalhar, lutar numa batalha ou fazer grande viagem.

Todos esses simbolismos da celebração da Páscoa dos hebreus visam mostrar que Deus saiu vitorioso contra todos os deuses do Egito (Ex 12,12) e sobre os maiores inimigos da humanidade representados por esses deuses: a morte e a escravidão.

II leitura (1Cor 11,23-26): Fazei isto em memória de mim

O texto de Paulo quer enfatizar a recepção de uma tradição viva que teve origem no próprio Cristo. Para o pensamento bíblico do primeiro século da era cristã, os verbos “receber” e “transmitir” refletiam a transmissão de tradições sagradas que procediam de fontes fidedignas. Assim, falando da última ceia de Jesus, Paulo quer deixar os cristãos de sua época cientes de que ele recebeu de fontes seguras as informações sobre esse evento tão importante para a vida cristã.

O texto ressalta que Jesus “deu graças”: essa expressão, no idioma em que foi escrita, é eukaristein, de onde deriva o termo eucaristia.

A afirmação de que partiu o pão indica a participação de todos os comensais em um mesmo pão partilhado, significando a comunhão entre Cristo e a Igreja. “Isto é meu corpo”, no idioma nativo de Jesus, significa “isto sou eu mesmo”. Quer dizer que o pão fracionado e entregue aos comensais representa a totalidade da vida de Jesus, integralmente oferecida a Deus e à humanidade. Essa oferta de Jesus é que alimenta a Igreja e dá vida a ela enquanto caminha rumo ao reino definitivo.

Pistas para reflexão

Que nesta noite de vigília possamos meditar sobre nosso serviço ao outro. Nosso fazer na Igreja está fundamentado na acolhida amorosa do irmão em nossa vida? Deus nos acolheu em Jesus Cristo como Igreja, corpo de Cristo: será que estamos acolhendo a humanidade com o mesmo empenho?


Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj
Graduada em Filosofia pela Universidade Estadual do Ceará e em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje – BH), onde também cursou mestrado e doutorado em Teologia Bíblica. Atualmente, leciona na Faculdade Católica de Fortaleza. É autora do livro Eis que faço novas todas as coisas – teologia apocalíptica (Paulinas).
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