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quinta-feira, 3 de março de 2016

Homilética: 4º Domingo da Quaresma - Ano C: "Um Pai espera a volta do filho".


O Papa Francisco diz na sua carta “Misericordiae vultus”: “Nas parábolas dedicadas à misericórdia, Jesus revela a natureza de Deus como a de um Pai que jamais se dá por vencido até que não tenha dissolvido o pecado e superado a rejeição com a compaixão e a misericórdia. Conhecemos estas parábolas; três em particular: a da ovelha perdida e da moeda extraviada, e a do pai e os dois filhos (cf. Lc 15,1-32). Nestas parábolas, Deus se apresenta sempre cheio de alegria, sobretudo quando perdoa. Nelas encontramos o núcleo do Evangelho e da nossa fé, porque a misericórdia se mostra como a força que vence tudo, que enche de amor o coração e que consola com o perdão” (n.9). O homem que teve dois filhos é Deus, que tem dois povos. O filho maior é o povo judeu; o menor, o gentil. A herança recebida do pai é a inteligência, a mente, a memória, o engenho e tudo aquilo que Deus nos deu para que conhecêssemos e louvássemos.  

Textos: Josué 5, 9a.10-12; 2 Co 5, 17-21; Lc 15, 1-3. 11-32

Pontos da ideia principal

Em primeiro lugar, o filho menor. É o povo gentil. Afastou-se da casa do Pai rumo a uma região longínqua, para esbanjar o tesouro e dissipar a herança que Deus prodigamente lhe tinha confiado. E lá nessa região do pecado a sua imagem e a sua semelhança que o Criador tinha impresso na sua alma foi se escurecendo. Queria uma liberdade sem limites. Deixou-se levar por enganos ilusórios, tratando de saciar a sede de felicidade que se aninhava no seu coração com os prazeres deste mundo. O que aconteceu? Caiu na mais profunda degradação espiritual moral existencial. Dois elementos foram fundamentais para voltar para casa: a reflexão e o sentido da família na formação espiritual dos filhos. Primeiro, a reflexão. Este filho menor refletiu. Deus permite a nossa miséria para que, voltando sobre nós mesmos, experimentando a nossa indigência, sintamos saudade da casa do Pai e voltemos ao único Bem que pode apagar a nossa sede de infinito. “Fizestes-nos, Senhor, para Vós, e os nosso coração está inquieto até não descansar em Vós” (Santo Agostinho, Confissões, I, 1). Será a reflexão sobre os nossos passos que nos permitirá conhecer-nos melhor à luz de Deus, confessando assim a nossa miséria. Santa Teresa de Jesus, mestra do diálogo entre a alma e Deus, dizia que o primeiro passo da vida de oração era conhecer-se à luz de Deus. E segundo, o sentido da família. Se este filho menor decide voltar é porque na casa do seu Pai sente segurança, o amor e a ternura do seu Pai, ademais das comodidades que lhe brindava a vida familiar. Atenção aos pais de família para que encham os seus filhos de carinho, calor e abraços, para que não se deixem levar das exigências da carne e dos paraísos enganosos da droga e das falsas ideologias! É na família onde se semeiam as primeiras sementes da fé se formam os hábitos que libertam os filhos da escravidão interior.   

Em segundo lugar, o filho maior. É o povo judeu cumpridor da lei, fiel à Aliança divina, guiado pelos Patriarcas e Profetas. Porém, pouco a pouco, um verme foi carcomendo esta fidelidade, o pior dos males, a soberba. Esquecendo que a eleição divina era um dom gratuito, e não algo que lhe era devido em justiça, começou a desprezar aqueles que tinham ido a regiões longínquas. Perdeu o sentido universal da sua missão, enterrou o talento que lhe tinha sido confiado, sem fazê-lo produzir para o bem de todos. Povo este sem misericórdia e despiedado com quem não cumpriam ao pé da letra o que eles consideravam a lei de Deus. Pensavam ter direitos diante do seu pai. Achavam que eram justos. À soberba e presunção do mérito próprio, juntaram o ressentimento, a inveja, a ira, a tristeza interior. Que pena, pois este filho maior veio para quebrar a sinfonia maravilhosa da casa e não quis entrar na festa da misericórdia! 

Finalmente, o pai misericordioso. Misericordioso com o filho menor e com o maior, também. Com os dois usou da sua infinita misericórdia. Com o filho menor, misericórdia concretizada nestes detalhes: respeita a liberdade, sabe esperar com paciência o tempo da maduração do seu filho, recebe-o com júbilo e esplendidez, e o restitui na sua dignidade humana e espiritual. Com o filho maior, misericórdia concretizada nestes detalhes: sai para chamar o filho, convida-o à festa comum, suporta a humilhação do seu filho ao jogar na sua cara tanta misericórdia com o menor, e lhe diz que em casa não é escravo, mas filho, e que pode dispor dos bens da família. Derramou lágrimas de alegria, sim, pela volta do filho menor, mas também de tristeza e pena, pelo filho maior.

Para refletir: Sou consciente da luta e violência terrível que o demônio e o espirito do mundo desatam contra a família, contra a pureza do amor humano tal qual Deus os criou e redimiu em Cristo, contra a inocência das crianças despertando neles a desconfiança aos seus pais e à toda autoridade legítima, propondo “novos mestres”, falando de amor livre, de divórcio, chamando normais condutas destrutivas para a família, manipulando a vida humana pelos abusos da engenharia genética? Com qual dos dois filhos me identifico? Tenho coração misericordioso como esse pai da parábola?

Para rezar: Nunca melhor do que hoje para rezar o ato de contrição: “Meu Senhor Jesus Cristo! Deus e Homem verdadeiro, Criador, Pai e Redentor meu; por ser Vós quem sois, Bondade infinita, e porque vos amo sobre todas as coisas, pesa-me de todo coração ter-vos ofendido; também me pesa porque podeis me castigar com as penas do inferno. Ajudado pela vossa divina graça, proponho firmemente nunca mais pecar, confessar-me e cumprir a penitencia que for imposta. Amém”. Ou estas linhas de Santa Faustina Kowalska: “Desejo me transformar na vossa misericórdia e ser um vivo reflexo de Vós, ó Senhor. Que este maior atributo de Deus, isto é a sua insondável misericórdia, passe através do meu coração e da minha alma ao próximo. Ajudai-me, Senhor, para que o meu coração seja misericordioso, para que eu sinta todos os sofrimentos do meu próximo. A ninguém recusarei o meu coração. Serei sincera inclusive com aqueles dos quais sei que abusarão da minha bondade. E eu mesmo me fecharei no misericordiosíssimo Coração de Jesus. Suportarei os meus próprios sofrimentos em silêncio. Que a vossa misericórdia, xodó Senhor, repouse dentro de mim. Meu Jesus, transformai-me em Vós porque Vós podeis tudo. Amém”. (Diário 163).  


Pe. Antonio Rivero, L.C.,
Doutor em Teologia Espiritual, professor e diretor espiritual no seminário diocesano Maria Mater Ecclesiae de são Paulo (Brasil).
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ZENIT

Qualquer sugestão ou dúvida podem se comunicar com o padre Antonio neste e-mail:  arivero@legionaries.org