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sábado, 12 de março de 2016

Diante do Pretório de Pilatos


O Pretório de Pilatos ficou conhecido na história por ter sido o local físico onde Jesus foi condenado. O fato se deu, por volta de meio-dia, às vésperas da Páscoa dos Judeus, a maior de suas celebrações litúrgicas (cf. Jo 19,14). 

Pretório era o nome dado pelo Império Romano à residência oficial dos Pro Cônsules, governadores das províncias espalhadas pela enorme extensão territorial ao redor do Mar Mediterrâneo que os romanos chamavam de Mare Nostrum. Pretor, palavra latina que significa líder, era a mais alta patente entre os comandantes da República Romana, posteriormente, substituída pela dignidade de Cônsul.

Dizem a Sagradas Escrituras que, depois de ser julgado por autoridades religiosas dos judeus, Jesus foi apresentado à autoridade máxima do Império na Judéia que era Pôncio Pilatos, sendo acusado de ameaçador do poder imperial, porque se apresentava como rei. Incitando as multidões contra o Mestre de Nazaré, os fanáticos líderes judaicos o acusavam no campo doutrinal de se fazer filho de Deus. Porém este argumento não interessava às autoridades romanas que pouco valorizavam as religiões em suas províncias, uma vez que era um império politeísta, e para seus proveitos políticos, apenas era-lhes muito útil ter boas relações com as lideranças religiosas. Por esta razão, era necessário encontrar um motivo político para a condenação de Jesus. 

Pôncio Pilatos governou a Província da Judéia, como Praefectus, entre os anos 26 a 36 d.C. Os evangelhos não comentam sobre sua personalidade, porém historiadores da época o apresentam com pessoa de caráter forte, violento e bajulador do Imperador. Flavio José, historiador pagão, expõe tal caráter de Pilatos, afirmando que, quando entrou solenemente em Jerusalém para tomar posse de seu cargo, exibia consigo um medalhão com o rosto do Imperador, provocando a ira dos judeus que chegavam a ser fanáticos contra o uso de esculturas. Há registros históricos de uso abusivo da força no combate a sedições e revoltas de populares. Exorbitando seu poder, teria confiscado bens do templo para construir um aqueduto. Euzébio de Cesárea, primeiro historiador da igreja, afirma que no governo de Calígula, Pilatos não teria conseguido a simpatia do Imperador e que cometeu suicídio no ano 37 d.C.  

Quanto às notícias dos santos evangelhos, vemos neste Pro Cônsul uma personalidade dúbia e desonesta, incapaz de salvar um inocente, preferindo condená-lo à morte, mesmo tendo certeza de sua total inculpabilidade. Pressionado pela opinião de um aglomerado de pessoas diante de seu pretório, lava as mãos diante da injustiça. Os evangelistas, sejam os sinóticos, seja São João se referem aos fatos com detalhes que indicam tal atitude omissa e desleal. São Mateus registra que a consciência de Pilatos foi até mesmo onerada pela sua esposa que lhe enviara o famoso recado: “Não te envolvas com este justo, pois esta noite, em sonhos, sofri muito por causa dele” (Mt 27, 19). No julgamento, procurou uma infeliz solução, apresentando a alternativa de caráter pseudodemocrático, oferecendo opção ao povo para escolher a condenação entre o inocente Jesus e o facínora Barrabás. Instigado pelos líderes, o povo prefere a soltura do culpado e a morte violenta do inocente. 

Diz São João que depois de os judeus pressioná-lo com o argumento político, “se soltas este homem, não és amigo de César, pois todo aquele que se faz rei se declara contra César” (Jo 19, 12) e ainda, “Não temos outro rei, senão César” (Jo.19, 15), Pilatos entregou Jesus para ser crucificado.

Cícero, um dos maiores oradores romanos da antiguidade, tinha tanto horror à crucifixão que a considerava crudelissimum terribilimunque supplitium (o mais cruel e o mais terrível dos suplícios).

Porém, as condições humanas ou desumanas da morte de Cristo não esgotam o sentido de tudo o que aconteceu em Jerusalém naquela véspera da Páscoa do ano 33. O Mistério de Deus a tudo envolve, fazendo com que a paixão e morte de Cristo se transformassem no ato redentor, pois pela cruz, Cristo nos salvou da condenação e da morte eterna. Não permaneceu na morte, mas ressuscitou e não morre mais. Fica assim provado que não há nenhum poder maior que o poder divino, não há nenhum mal mais forte que a misericórdia do Pai, Criador, Redentor e Santificador da pessoa humana. A morte de Cristo é a nossa salvação e sua ressurreição nossa esperança, certeza da vida eterna.


Dom Gil Antônio Moreira

Arcebispo de Juiz de Fora (MG)