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sábado, 26 de março de 2016

A Vitória da Páscoa


A Páscoa cristã é a prodigiosa passagem do Senhor Jesus Cristo, cabeça da humanidade, que nos libertou da tirania de Satanás e nos introduziu na nossa verdadeira Pátria.

CELEBREMOS

A Páscoa, a festa das festas; a solenidade das solenidades, não se celebra dignamente senão na alegria. A Igreja quer ouvir as nossas aclamações: Rejubilemo-nos, repete-nos ela à saciedade, e entreguemo-nos à alegria! Os nossos irmãos orientais saúdam-se neste dia com as próprias palavras da liturgia: Cristo ressuscitou! - Ressuscitou verdadeiramente.

Reconheçamos que, nos nossos países ocidentais, não manifestamos da mesma forma a nossa felicidade. Ao passo que no Natal os fiéis que entram na igreja ou dela saem trocam espontaneamente sorrisos e votos de felicidade, na manhã da Ressurreição não nos dão a impressão de respirar uma atmosfera de vitória. O seu porte é grave. Parecem preocupados sobretudo com observar o dever da comunhão pascal. Será então necessário tomar um ar triste para cumprir o mais amável dos deveres, para unir-se pelo banquete eucarístico ao triunfo de Jesus Cristo?

Não, católico, meu irmão, não digas: Acabo de fazer a minha Páscoa. Como parece mesquinho, neste dia, esse possessivo ridículo! É a nossa comunidade paroquial, célula da Igreja universal, que vai celebrar a vitória da Páscoa. Numa das leituras da missa, o sacerdote repetirá as palavras de São Paulo: Celebremos, pois, a festa... (1 Cor 5, 8). O sentido do verbo latino epulemur, que a Neovulgata, a versão latina oficial da Igreja, usa nesta passagem, não oferece a menor dúvida, pois o reencontramos nos lábios do pai da parábola do filho pródigo: Comamos e celebremos, porque este meu filho morrera e tornou à vida (Lc 15, 23-24). Celebremos. Deixemos de lado esses rostos sérios. Tomemos um ar de festa para cantar a glória de Cristo ressuscitado, que nos alimenta com a sua carne divina para ressuscitar-nos com Ele.

Ouçamos em que termos um sacerdote romano do século III, Santo Hipólito, saudava esse mistério da nossa fé: ó Crucificado, condutor da dança divina! Ó festa do Espírito! Páscoa divina que desces dos céus à terra e da terra tornais a subir aos céus! Solenidade nova! Assembléia de toda a Criação! Ó alegria universal, honra, festim, delícias pelas quais a morte tenebrosa foi aniquilada, a vida derramada sobre toda a criatura e abertas as portas do céu!

PÁSCOA, PASSAGEM

O Prefácio pascal resumiu os motivos da nossa alegria em algumas frases de um cunho maravilhoso e de uma inspiração plenamente bíblica. Com o coração voltado para o céu, damos graças ao Senhor nosso Deus com um fervor sem igual neste dia em que Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.

() Oração que antecede - prefacia- a Oração Eucarística da Missa (N. do T.).

A palavra Pdscoa significa passagem, a passagem de Deus entre nós e a nossa passagem para Deus. A Ressurreição de Cristo é o ponto culminante dos desígnios redentores que Deus alimentava desde longa data. Uma das primeiras etapas da salvação da humanidade tinha sido a libertação do povo de Israel escravizado aos egípcios. Todos os anos, o Povo Eleito comemorava essa passagem do Senhor´ que, para tornar possível a evasão dos cativos, tinha ferido os primogénitos das famílias egípcias e protegido as casas dos israelitas cujas portas estavam marcadas com o sangue de um cordeiro. Em vão os exércitos do Faraó tinham tentado apanhar os fugitivos: foram engolidos pelas águas do Mar Vermelho, que se tinham aberto para abrir passagem aos filhos de Israel que Moisés ia conduzir para a Terra Prometida.

A nossa Páscoa é a passagem ainda mais prodigiosa do Senhor Jesus Cristo, cabeça da humanidade, que, ao deixar a terra e ir para o céu, nos libertou da tirania de Satanás e nos introduziu na nossa verdadeira Pátria. A nossa Páscoa é a antiga noite batismal no decurso da qual os pecadores, mergulhados na água em que deveriam ter encontrado a morte, saíam da piscina na mesma hora em que Cristo saíra do túmulo. A nossa Páscoa é o sangue de Cristo imolado que nos valeu a salvação. O cordeiro pascal que os israelitas compartilhavam num repasto sagrado em ação de graças pela sua libertação passada não era senão a figura do verdadeiro Cordeiro, cujo sangue nos redimiu e que tomamos como alimento na Eucaristia, sacramento da nossa redenção.

Seremos capazes de conter a nossa alegria? Éramos uns infelizes cativos, submetidos a Satanás, e Cristo abriu-nos as portas da nossa prisão. Fez-nos passar do campo de concentração para o país da liberdade. Éramos náufragos destinados aos abismos infernais e, quando nós nos debatíamos nas águas do dilúvio em esforços inúteis, o braço de um Barqueiro intrépido nos agarrou e nos arrancou ao sorvedouro. O nosso Libertador, o nosso Barqueiro, é Cristo que se imolou por nós.

O termo glorioso do seu sacrifício fez-nos passar do pecado para o amor, da sombra para a luz, da morte para a vida, da vida natural sempre tributária da morte para a vida sobrenatural que não conhece declínio. 

O VERDADEIRO CORDEIRO

Ele é, continua o Prefácio, citando agora o oráculo de João Batista (cfr. Jo 1, 29), o verdadeiro Cordeiro que tirou os pecados do mundo. Seremos capazes de ouvir sem estremecer esta sentença de perdão? Não haveremos de proclamar bem alto o nosso agradecimento? Vivíamos num mundo pecador, onde todo o homem que vinha à existência era incapaz de repelir essa herança de pecado. E num dia, num só dia, o Cordeiro pascal fez desaparecer todos os pecados do mundo.

Cristo, inocente, reconciliou os pecadores com o seu Pai (seqüência pascal). Deus já não percebeu mais nenhúm pecado sobre a terra. A malícia irremediável de todos os pecados do mundo foi ultrapassada pelo excesso de amor do nosso Salvador, que arrastou na sua esteira a generosidade dos pecadores convertidos. Onde abundou o pecado, sobreabundou a graça (Rom 5, 20). A partir desse momento, Deus contempla a raça humana na pessoa da sua Cabeça, o seu Filho infinitamente amante e obediente.
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() Oração em forma de poesia que se recita ou canta, em algumas festas especialmente solenes, antes da leitura do Evangelho (N. do T.).
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Mas estaremos realmente libertos da escravidão do pecado? A argumentação de São Paulo é taxativa. A morte, ensina o Apóstolo, é a conseqüência, o salário do pecado: Por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte (Rom 5, 12). Ora, na manhã da Páscoa, a morte foi destruída: se o castigo foi anulado, é porque a falta foi apagada.

O Prefácio pascal torna a pedir emprestada a linguagem paulina para detalhar a vitória pascal de Jesus Cristo: morrendo, destruiu a nossa morte, e ressuscitando, restituiu-nos a vida. Em conseqüência da revolta de Adão, tínhamos sido despojados da intimidade eterna a que Deus nos tinha destinado graciosamente. Estávamos reduzidos a ruminar em perpétua amargura a lembrança da nossa queda e o pesar pelo paraíso perdido para sempre. A morte, que destrói os nossos corpos como o faz com a erva dos campos, era nas mãos de Satanás a arma pela qual ele nos privava infalivelmente dos privilégios inauditos com que Deus nos tinha favorecido. Já não havia céu para o homem, já não havia vida com Deus.

Mas o Filho de Deus, tornando-se um de nós, venceu a morte invencível, e fê-lo morrendo como um de nós. É verdade que poderia ter voltado para a sua glória esquivando-se à morte, tal como aconteceu com Elias: nesse caso, Ele teria escapado à morte, mas esta teria conservado o seu império sobre o restante dos homens. Para destruí-Ia, um homem devia enfrentá-la, desfazer o seu abraço, arrancar-lhe o seu aguilhão.

A seqüência da missa da Páscoa faz-nos assistir ao admirável duelo entre a Morte e a Vida na arena do sepulcro de José de Arimatéia. O nosso campeão, Cristo, tendo-se imolado sobre a Cruz, foi provocar a Morte no obscuro domínio em que ela encerrava as suas vítimas. O céu e o inferno marcam os pontos dessa luta gigantesca, que não durou menos de trinta e seis horas. Mas na manhã do terceiro dia, o Autor da vida, tendo rompido as cadeias que o prendiam, derribou a Morte e pô-la fora de combate. A morte corporal, castigo da falta de Adão, estava abolida.

Cristo, morrendo, destruiu a nossa morte´, desarticulou-a, dividiu-a em duas. A primeira morte permanece ainda como castigo do pecado, mas já não é senão uma passagem inofensiva que desemboca na eterna morada de Deus. A segunda morte, a do condenado, já não tem direitos sobre aqueles que participam da Ressurreição do Senhor. Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão? (1 Cor 15, 55).

Ressuscitando, restituiu-nos a vida. Fez-nos recuperar o estado sobrenatural em que Deus tinha criado o homem. Tornamo-nos novamente filhos adotivos de Deus. A partir de agora, participamos da vida divina do nosso Irmão ressuscitado. Se cremos nEle, se aderimos a Ele sob o signo do batismo, se nos incorporamos a Ele sob o signo da Eucaristia, se, assentindo à sua palavra, nós a pomos em prática, não formamos com Ele senão um só corpo, a Igreja dos ressuscitados.

Como compreendemos bem que a liturgia multiplique os aleluia para aclamar a vitória de Jesus Cristo e agradecer-lhe por nos ter associado a ela. Graças ao seu triunfo, somos pecadores perdoados, mortais destinados a ressuscitar.

ESFORÇO DE CONVERSÃO

Essa alegria pascal, não a exprimiremos apenas nos nossos cânticos, mas havemos de manifestá-la por um esforço generoso e leal de conversão.

Com efeito, aquilo que Jesus realizou em nome da humanidade, da qual Ele é a cabeça, ainda não se realizou efetivamente para cada um de nós. É verdade que São Paulo emprega os verbos no passado quando declara: Deus deu-nos a vida com Cristo lt;...gt;, e corressuscitou-nos, e sentou-nos nos céus em Cristo Jesus (Ef 2, 5-7). Da parte de Deus, é coisa feita; no entanto, falta ainda que cooperemos com essas graças insignes. A redenção do nosso corpo - como o Apóstolo faz questão de precisar - ainda pertence ao futuro: em esperança estamos salvos (Rom 8, 23-24). Sim, Cristo redimiu-nos do pecado pela sua morte, mas com a condição de que já não deixemos o pecado reinar no nosso corpo mortal, cedendo às suas concupiscências. Ofereçamo-nos a Deus, insiste ele, como mortos que voltaram à vida; ponhamos o nosso corpo ao serviço de Deus, fazendo dele o instrumento de obras santas (cfr. Rom 6, 1-14).

Não há nisso nenhuma contradição. Ao pedir-nos docilidade e um esforço pessoal, Deus não retoma com uma mão o que nos deu com a outra. Jesus continua conosco para secundar a nossa boa vontade e terminar a sua obra em nós. O banquete pascal espera-nos sobre o altar. Aproximemo-nos alegremente para comungar o corpo imolado de Cristo, que venceu por nós o pecado e a morte. Ele nos pede apenas um ato de honestidade: São Paulo alude na segunda leitura da missa de Páscoa (1 Cor 5, 6-8) ao costume dos israelitas que, na véspera da celebração pascal, lançavam ao fogo o velho fermento a fim de não o misturar com os pães ázimos do repasto ritual. Pede-nos assim que tomemos a precaução de nos desembaraçarmos do nosso velho fermento de maldade e perversão.

E nós o fizemos. Esse fundo lamentável de pecado, depusemo-lo na Sexta-feira Santa aos pés da Cruz sobre a qual morria o nosso Salvador. Mas não podíamos ser libertados de uma vez por todas e já não estar sujeitos ao desejo do mal. Não nos entristeçamos por termos de continuar a recomeçar continuamente esse trabalho de purificação. Devemos crer que testemunhamos ao Senhor um amor muito maior se renovamos cada dia o nosso desejo de evitar as negligências e as imprudências que conduzem ao pecado. Alegremo-nos porque temos de reconverter-nos a Deus diariamente, porque temos de voltar a afirmar-lhe e provar-lhe a nossa fidelidade. Não tremamos ao pensar nos perigos de amanhã. O nosso Cordeiro pascal irá trazer-nos o remédio capaz não apenas de pensar as chagas de ontem, mas de obter-nos uma cura eterna.

A nossa alegria pascal deve manifestar-se também na caridade fraterna. Jesus espera de nós essa resposta direta ao testemunho de amor que nos dá na manhã da Ressurreição. Mostrar-lhe-emos o nosso reconhecimento e a nossa fé, e ao mesmo tempo conservaremos, com mais segurança a nossa pureza, se nos amarmos como irmãos, como seus irmãos. A santa Páscoa revelou-se-nos hoje - lemos num hinário da liturgia bizantina -, Páscoa a pura, Páscoa a grande, a Páscoa dos crentes, Páscoa que nos abre as portas do paraíso. Páscoa! Abracemo-nos todos com alegria, ó Páscoa! É a libertação das dores!

A nossa liturgia latina, menos exuberante, não se preocupa menos de ver uma terna caridade reinar entre os cristãos que devem reencontrar-se todos na mesma casa do Pai, como partilharam nesta manhã do mesmo repasto pascal. Dignai-vos, Senhor - diz uma antiga oração litúrgica -, infundir em nós o espírito do vosso amor. Fizestes de nós um só corpo; dai-nos a todos um só coração, para que, na alegria unanimemente experimentada da vossa Ressurreição, devamos ainda à vossa bondade a graça de amar-nos agora uns aos outros como nos amaremos eternamente.

Georges Chevrot 
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Fonte: A Vitória da Páscoa. Editora Quadrante. São Paulo, 2002. Págs 5-12.
Tradução: Quadrante

Disponível em: Quadrante