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terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Todos corruptos?


Passou quase despercebida na época, a indicação feita pelo Papa João Paulo II, de um padroeiro para os políticos. O escolhido foi S. Tomás Morus, santo inglês  nascido em 1477, contemporâneo portanto, dos albores do mundo moderno em ascensão,  com a emergência dos Estados nacionais e as grandes descobertas.

Tomás Morus foi advogado de formação humanista, pai de família, membro do parlamento, desempenhou várias missões diplomáticas. Conseguiu conciliar sua vida cristã autêntica, com carreira política bastante ativa. Levantava-se bem cedo para rezar, antes de ir para o tribunal. Foi nomeado pelo rei Henrique VIII, membro do conselho secreto, posteriormente chanceler do Reino, em 1529, o mais importante cargo de governo  abaixo do rei.  Sempre gentil, bem humorado, não deixou de se preocupar, estando no governo, com a justiça social e a ética.

Sua obra famosa  A  Utopia, editada em 1516, descreve um Estado imaginário, sem propriedade privada nem dinheiro, um Estado preocupado com a felicidade coletiva, ou seja: o bem comum. “Com efeito, ser o único a viver em prazeres e delícias, tendo ao redor pessoas que gemem e se lamentam, não é ser rei, é ser um guarda de prisão”, ele escreve no Livro Iº desta obra, ao falar do bom governo e da justiça social.

Qual foi o segredo deste político bem sucedido que não cedeu à corrupção? Segundo ele mesmo, foi a fidelidade à sua consciência. Um filme famoso sobre sua vida se intitula a propósito: “O homem que não vendeu sua alma”. Mesmo sendo amigo do rei, não cedeu ao Act of Supremacy, de 1534 que colocava o rei como chefe supremo da Igreja da Inglaterra, após ter rompido com o papa. O papa negara ao rei seu primeiro divórcio, deste divórcio se seguiram outros tantos, além rainhas por ele executadas, como se sabe. 

Tomas Morus foi preso e encarcerado. Na prisão escreveu uma obra prima da língua inglesa:  O diálogo do conforto contra as tribulações e as memoráveis cartas a sua filha Margaret. Inúteis foram as tentativas de corrompê-lo, foi fiel à sua consciência até o fim. O tribunal que o julgou condenou-o a ser decapitado, o que ocorreu em Tower Hill em 06 de junho 1535. Em 1935 foi canonizado. Sua festa no calendário litúrgico da Igreja Católica é dia 20 de junho. Corajoso e tranqüilo, ao subir o patíbulo usou ainda de seu bom humor, para descontrair o carrasco, pesaroso de ter de executá-lo, disse-lhe: “ajude-me a subir; para descer, deixe por minha conta”.

É-nos oportuna a lembrança deste grande homem público, que foi um sábio, principalmente quando em nosso país presenciamos os lamentáveis acontecimentos envolvendo nossos políticos. Engaja-se hoje na busca de poder a qualquer custo e falta-se com a ética. Tudo é levado em conta, menos o essencial: o bem comum. A política que é a arte de trabalhar pelo bem comum, perde-se em egoísmos.

O bem comum é o conjunto de condições concretas que permitem a todos atingir níveis de vida compatíveis com a dignidade humana. A corrupção porém, destrói o senso do bem comum na sociedade, desmoraliza a vida pública, marginalizando e às vezes eliminando os honestos que se recusam a corromperem-se.  O que vemos são políticos desmoralizados, pelos quais a nação perde o respeito, defenderem-se fazendo a mentira virar verdade e a verdade tornar-se mentira.

Que Tomás Morus ilumine os políticos, para que possam ter um mínimo de compostura. E que, os corruptos não nos façam esquecer dos que se esforçam por serem honestos. Enfim, é permitido até mesmo pedir um milagre ao santo. Que nossos políticos possam praticar o que ele ensina no seu célebre livro já citado: “Velar por sua vantagem pessoal sem ofender as leis, eis a sabedoria; trabalhar além disso pela vantagem da comunidade, eis a virtude” ( Utopia, Livro IIº).


Dom Pedro Carlos Cipollini 
Bispo de Santo André