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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Tempo da Quaresma: espiritualidade, liturgia e vivência.


A Santa Quaresma

A Quaresma é um período de quarenta dias de penitência de comida.

Inicia-se na Quarta-feira de Cinzas, prolongando-se até a Quinta-feira Santa, antes da Missa na Ceia do Senhor. A penitência na alimentação prolonga-se até o Sábado Santo ou Grande Sábado, perfazendo exatos quarenta dias.

Trata-se de um tempo privilegiado de conversão, combate espiritual, jejum e escuta da Palavra de Deus.

Na Igreja Antiga, este era o tempo no qual os catecúmenos (adultos que se preparavam para o Batismo) recebiam os últimos retoques em sua formação para a vida cristã: eles deveriam entregar-se a uma catequese mais intensa e aos exercícios de oração e penitência.

Pouco a pouco, toda a comunidade cristã - isto é, os já batizados em Cristo -, começou a participar também destes exercícios, tanto para unir-se aos catecúmenos, como para renovar em si a graça de seu próprio batismo e o fervor da vida cristã, preparando-se, assim, para a santa Páscoa.

Assim, surgiu a Quaresma: tempo no qual os cristãos, pela purificação e a oração, buscam renovar sua conversão para celebrarem na alegria espiritual a Santa Vigília de Páscoa, na madrugada do Domingo da Ressurreição, renovando suas promessas batismais e participando da Eucaristia pascal, entrando em comunhão com o Ressuscitado dentre os mortos, o Vencedor da Morte, o Cristo nosso Deus.

São as seguintes as práticas da Quaresma:

A oração

Neste tempo os cristãos se dedicam mais à oração. Uma boa prática é rezar diariamente um salmo ou, para os mais generosos, rezar todo o saltério no decorrer dos quarenta dias. Pode-se, também, rezar a Via Sacra às sextas-feiras! Ainda é possível, além do terço costumeiro, rezar-se mais um terço, com os mistérios dolorosos.

A penitência

Todos os dias quaresmais (exceto os domingos!) são dias de penitência na alimentação. Aliás, esta é a prática que melhor caracteriza a Quaresma! Sem renúncia ao alimento, não há observância quaresmal.

Cada um deve escolher uma pequena prática penitencial para este tempo. Por exemplo: renunciar a um lanche diariamente, ou a uma sobremesa, etc...

Na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa os cristãos jejuam: o jejum nos faz recordar que somos frágeis e que a vida que temos é um dom de Deus, que deve ser vivida em união com ele; também nos ensina a domar nossos instintos. Os mais generosos podem jejuar todas as sextas-feiras da Quaresma. Farão muitíssimo bem!

Recordemo-nos que às sextas-feiras os católicos não devem comer carne; e isto vale para o ano todo!

O jejum consiste numa só refeição completa; as outras duas não devem, juntas, chegar a uma refeição.

A abstinência de carne consiste em não comer carne de animais de sangue quente: mamíferos ou aves, de modo geral.

A esmola

Trata-se da caridade fraterna. Este tempo santo deve abrir nosso coração para os irmãos: esmola, capacidade de ajudar, visitar os doentes, aprender a escutar os outros, reconciliar-se com alguém de quem estamos afastados - eis algumas das coisas que se pode fazer neste sentido!

A leitura da Palavra de Deus

Este é um tempo de escuta mais atenta da Palavra santa: o homem não vive somente de pão, mas de toda Palavra saída da boca de Deus. Seria muitíssimo recomendável ler durante este tempo o Livro do Êxodo ou os Números, ou o Deuteronômio, ou o Profeta Jeremias ou Oséias ou, ainda, a Epístola aos Romanos.

A conversão

“Eis o tempo da conversão!”, diz-nos São Paulo. Que cada um veja um vício, um ponto fraco, que o afasta de Cristo, e procure lutar, combatê-lo nesta Quaresma! É o que a Tradição ascética de Igreja chama de “combate espiritual” e “luta contra os demônios”. Nossos demônios são nossos vícios, nossas más tendências, que precisam ser combatidas.

Os antigos davam o nome de sete demônios principais: a soberba, a avareza, a tristeza (hoje diz-se a inveja), a preguiça, a ira, a gula, a sensualidade. Estes demônios geram outros.

Na Quaresma, é necessário identificar aqueles que são mais fortes em nós e combatê-los! 

Quanto à liturgia quaresmal:

Este tempo sagrado é marcado por alguns sinais especiais nas celebrações da Igreja:

A cor da liturgia é o roxo - sinal de sobriedade, penitência e conversão;

Não se canta o Glória nas missas (exceto nas solenidades, quando houver);

Não se canta o aleluia que, sinal de alegria e júbilo, somente será cantado outra vez na Páscoa da Ressurreição;

Os cantos da Missa devem ter uma melodia simples e tratarem dos temas quaresmais; não é permitido que se toque nenhum instrumento musical, a não ser para sustentar o canto, em sinal de jejum dos nossos ouvidos, que devem ser mais atentos à Palavra de Deus;

Não é permitido usar flores nos altares, em sinal de despojamento e penitência (nos casamentos e outras festas as igrejas, devem ser enfeitadas com muita sobriedade!);

A partir da quinta semana da Quaresma podem-se cobrir de roxo ou branco as imagens, em sinal de jejum dos sentidos, sobretudo dos olhos.

O importante é que todas estas práticas nos levem a uma preparação séria e empenhada para o essencial: a Páscoa!

As observâncias quaresmais não são atos folclóricos, mas instrumentos para nos fazer crescer no processo de conversão que nos leva ao conhecimento espiritual e ao amor de Cristo. Tenhamos em vista que o ponto alto do caminho quaresmal é a renovação das promessas batismais na Santa Vigília pascal e a celebração da Eucaristia de Páscoa nesta mesma Noite Santa, virada do sábado para o Domingo da Ressurreição.

Empenhemo-nos sincera e devidamente nas práticas quaresmais. Elas não são essenciais, mas são sinal concreto de que entramos de corpo e alma no caminho da conversão. Uma vida religiosa sem práticas concretas em comunidade, reguladas pela Igreja, é como um corpo sem vértebras: não se sustentará de pé e terminará por negar praticamente a realidade da Encarnação. O Verbo fez-Se carne, fez-Se matéria, "concretizou-Se". O cristianismo é uma religião da alma e do corpo, das intenções e das práticas!

Que todos possam ter uma intensa vivência quaresmal, para celebrarmos na alegria espiritual a santa Páscoa do Senhor!

Ficha de vivência quaresmal
(Para ser preenchida até Domingo e oferecida espiritualmente ao Senhor 
na Vigília Pascal)

Senhor Jesus Cristo, seguindo o Teu caminho no deserto e preparando-me para celebrar dignamente a Tua santa Páscoa, suplico Teu misericordioso auxílio para as seguintes práticas quaresmais que me proponho fazer em Tua honra e para melhor ser Teu discípulo:

Oração: (o que rezarei a mais durante este tempo, todos os dias);

Jejum/penitência: (o que retirarei diariamente, exceto aos domingos, da minha alimentação);

Esmola: (o que farei para ir ao encontro dos meus próximos, sobretudo praticando obras de misericórdia corporais e espirituais);

Vício a combater: (quais das minhas más tendências combaterei nesta Quaresma, evitando as ocasiões, as situações e os atos);

Livro da Escritura a ler: (que livro lerei completamente, de preferência o Êxodo ou Números ou Deuteronômio ou a Epístola aos Romanos);

Leitura espiritual: (é recomendável também escolher um livro para leitura espiritual. Poderia ser o Mostra-me teu Rosto ou O Silêncio de Maria, de Inácio Larrañaga, A Leitura de Deus, de Garcia Columbás, A Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, O Peregrino Russo...);

A confissão sacramental.


Dom Henrique Soares da Costa
Bispo Diocesano de Palmares - PE