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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

“Quero ver o direito brotar e correr a justiça qual riacho que não seca” (Amós 5,24).


O profeta Amós escreve numa época de muita religiosidade e pouca justiça social. As palavras dele nos levam a perceber que a religião possui profunda inserção social. De nada vale prestar culto a Deus e os pobres continuarem a ser oprimidos.

Introdução

Amós está incluído no grupo dos “mensageiros da aliança”, e a maior parte de suas declarações são fragmentos de atividades judiciais da aliança, nos quais Javé, nos papéis de promotor e juiz, faz as acusações e condena a liderança do povo por violar a aliança e deixar de “observar os princípios básicos da política social expressa no decálogo”, explorando os fracos e pobres (Am 2,4-7). Provavelmente Amós profetizou entre os anos 760 e 755 a.C., durante o reinado de Jeroboão II, no reino do Norte (793-753 a.C.), pondo ênfase na questão social e econômica ao denunciar o luxo excessivo às custas da exploração da população comum.

Enquanto os abastados e funcionários do Estado viviam na comodidade, usufruindo do conforto concedido pela situação, esclarece Schwantes (2013, p. 16), os camponeses eram obrigados a bancar, com muito sofrimento, os planos de expansão comercial e militar de Jeroboão II. O rei impôs um aumento na tributação e colocou o serviço religioso como o centro arrecadador, usando as festas e rituais para incentivar a produção e consequentemente aumentar a arrecadação. Amós era contra essa religiosidade que de Deus não tinha nada! A classe dominante de Israel “multiplica as transgressões”, subjugando e empobrecendo o povo, usando até a força bruta para conseguir seus intentos (3,9-10; 4,1; 8,4). A necessidade que o Estado tinha de criar riquezas, forçando os camponeses com a tributação, surgiu graças aos altos custos do aparato militar, da elite administrativa, da expansão do comércio internacional e do consumo dos produtos de luxo importados. Tudo isso bancado pelo povo (Am 4,1), que era pisado (Am 2,7), aterrorizado (Am 3,9), esmagado (Am 4,1) e destruído (Am 8,4) pela tributação estatal. Amós deixa bem claro que a classe dominante em Israel se encontrava em uma situação confortável, segura e sem problemas. Viviam com a confiança de que o mal nunca se aproximaria deles. Agradeciam a Deus pela prosperidade, mas não se preocupavam nem se “afligiam com a ruína de José” (v. 6). A religiosidade dos abastados era de uma espiritualidade equivocada, já que achavam que Deus estava ao lado deles, abençoando-os, enquanto oprimiam os pobres e necessitados. Mas Deus “desceu para onde está o escravo, o sofredor, o oprimido. Ele nunca se encontra no lugar que é ocupado pelos opressores, pois nesses lugares existe a tendência de arrastar Deus para o seu lado com o objetivo de legitimar o esquema opressor” (ROSSI, 1990, p. 28). Javé sempre olhou pelos pobres e necessitados e nunca irá abençoar qualquer sistema que use de opressão para manter-se.

A rica expressão de Amós “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” está inserida num contexto em que o profeta explicita o tipo de culto desejado por Deus. Os cultos espetaculares, com suas esplêndidas liturgias que demonstravam grande fervor religioso, não passavam de disfarces para esconder o grosseiro egoísmo e ateísmo prático dos líderes. Não devemos nos esquecer da vinculação do santuário de Betel à coroa e de como os sacerdotes eram funcionários do rei. Em Amós 7,13, Amasias, sacerdote de Betel e consequentemente funcionário de Jeroboão II, afirma que Betel era o santuário do rei e ali era o templo do reino, deixando claro que a situação religiosa estava sob o controle real. É indiscutível que o templo foi facilmente manipulado por razões de Estado. 

1. Rios secam quando deixamos de praticar a justiça

Os atos e rituais que expressavam liturgicamente a fé na divindade não foram criados pela camada pobre de Israel, mas sim pelos ricos e para os ricos. E assim o reinado de Jeroboão II tornou-se o contexto de práticas religiosas consideradas formas hediondas de pecado, porque vinculadas à opressão dos pobres. A religiosidade esquizofrênica em Israel também é encontrada em Amós 4,4-5, em que constatamos que o cumprimento dos rituais do templo, a adoração e a participação das festas seriam para proveito dos próprios ofertantes e para encobrir suas falhas morais e a opressão aos justos empobrecidos. Uma falsa religiosidade substituindo a prática da justiça e a adoração verdadeira. De nada valia a religião se era usada para encobrir as injustiças, tampouco seus rituais bem elaborados e a pompa dos cultos. E o que falar de Amós 8,4, em que lemos sobre o desprezo pelos dias sagrados que os comerciantes eram obrigados a observar? Não viam a hora de passar esses dias para que pudessem pôr em prática seus métodos para enganar e roubar a população oprimida.

Esses dados mostram que as práticas religiosas em Israel eram meramente formais, sem um real relacionamento do cultuador com Deus. As festas, os ritos, os dias santos, os sacrifícios, as procissões eram, todos, meios de autogratificação dos ofertantes, usados para compensar sua injustiça. O que caracterizava, portanto, a religiosidade das classes altas de Israel era: luxo e pompa na forma; falta de contato com Deus no conteúdo; manipulação da divindade na atitude, a fim de legitimar as práticas contrárias à lei da aliança (ZABATIERO, 2013, p. 50).

O código da aliança estava completamente esquecido, não era mais praticado. E o se importar com o próximo não estava mais em uso. Participar de um culto manipulado era o suficiente para justificar as injustiças dos poderosos. Aos olhos dos profetas, havia íntima relação entre a injustiça e a falta de misericórdia dos poderosos, de um lado, e a pobreza espiritual deles, de outro. A religião dos ricos era fingida, uma máscara que escondia suas reais intenções de oprimir e roubar os pobres e fracos (Os 6,6; Am 5,21-24).

Na crítica dos profetas, “o culto se converteu num lugar de autocomplacência e de fartura. Javé se converteu em mera função de uma empresa religiosa que é manipuladora e interessada” (BRUEGGEMANN, 2007, p. 711). O culto deveria ser testemunha e encarnação da prática de comunhão com Javé, com o verdadeiro caráter de Javé como soberano e misericordioso. Mas o templo e os rituais nele realizados funcionavam somente como um possível calmante para Javé. O significado dos rituais se esvaziara, perdera-se de vista o que realmente importava: amar solidariamente. Quando os profetas criticavam o que ocorria no templo e deslegitimavam os ritos sacrificais, a intenção deles era somente uma, acabar com as injustiças sociais e econômicas. Talvez seja possível afirmar que os profetas propunham nova forma de adoração, fundamentada na prática da justiça e no restabelecimento do direito dos pobres e explorados. Nos profetas encontramos o desmascaramento da violência e da superficialidade do sistema religioso e a declaração de qual rito é, de fato, agradável a Deus: a prática da solidariedade. É preciso insistir no fato de que, para o povo de Deus, a justiça representa tanto o problema essencial da existência quanto um elemento essencial de saúde social.

Atos de maldade, violência e injustiça provocam Javé. Vivemos num tempo em que é praticamente impossível não ser envolvido com a exploração do pobre no mundo. No entanto, a solidariedade é palavra que assume contornos de arcaico e de raridade. Esquecemo-nos com muita facilidade de que a medida de uma sociedade plenamente humana reside justamente na vida de seu povo pobre. Uma sociedade em que falta o cuidado pelo vulnerável/pobre é, significativamente, desumana e desumanizadora. A opressão do fraco pelo forte há de se tornar na literatura profética um sinal incontestável da negação de Deus. Nesse sentido, a negação de Deus não passaria pela confissão religiosa, mas, sim, pela negação de gestos de solidariedade e de proteção em relação aos mais fracos.

2. O conhecimento de Deus exige sempre a prática da justiça

Exatamente por causa disso também podemos interpretar a realidade e como ela se manifesta por meio do não conhecimento de Deus. Poder-se-ia dizer que a totalidade da sociedade é prejudicada quando alguém se afasta desse conhecimento e, consequentemente, o custo social se eleva. Todas as vezes que o conhecimento de Deus é rejeitado, mal interpretado, manipulado ou ocultado, temos forte reflexo no aumento da prática de injustiças entre os mais pobres.

O conhecimento de Deus exige sempre a prática da justiça exatamente porque ele é a fonte da prática da justiça. Percebe-se que o cotidiano é o definidor do conhecimento de Deus. Não é necessário olhar para o alto, mas sim para a terra! A vida prática daqueles que deturpam o conhecimento de Deus é vida cheia de injustiças entre os seres humanos. Devemos, sem sombra de dúvida, pensar de forma coletiva, ou seja, talvez seja necessário abandonar a percepção de que conhecemos Deus a partir da singularidade. Por quê? Basicamente porque compreender o conhecimento de Deus como toda a sociedade – todo o tecido social – é prejudicado quando alguém se afasta desse conhecimento. A questão, portanto, não é a integridade de Deus, mas a integridade do ser humano e da criação.

O ranking do conhecimento de Deus – alto ou baixo – residiria na maneira como a solidariedade é praticada para com o pobre! A relação de proximidade existente entre Deus e o próximo é de extrema clareza no Antigo Testamento. A negação do outro pobre significaria a negação do próprio Deus. Dois textos me parecem emblemáticos a fim de esclarecer um pouco mais: “Não explorarás ao jornaleiro necessitado e pobre, seja ele seu irmão ou um estrangeiro que reside em sua terra. Pagará a ele a cada dia seu salário, sem deixar que o sol se ponha sobre esta dívida; porque ele é pobre e, para viver, necessita de seu salário. Assim ele não clamará a Javé contra ti e não ficarás em pecado” (Dt 24,14-15); “Quem burla de um pobre ultraja o seu Criador” (Pr 17,5). Gutiérrez é claro ao afirmar: “Onde há justiça e direito há conhecimento de Javé, quando aqueles faltam este está ausente […] o Deus da revelação bíblica é conhecido através da justiça inter-humana” (1973, p. 252). A equação me parece diáfana: recusamos o próprio Deus quando aceitamos e até mesmo legitimamos a desigualdade social, política e econômica. Se a presença de Deus acontece de maneira ativa e proativa em relação aos pobres, nosso encontro com ele somente pode acontecer a partir de gestos concretos que viabilizem a solidariedade com os pobres e sua libertação. Na miséria se encontra a verdadeira face de Deus.

Em outras palavras, se o comportamento ético não melhorar, a consequência inevitável seria a ausência de Javé de sua própria casa. A acusação de fundo é justamente aquela que aponta para a discrepância entre o comportamento na vida diária e a confiança no templo. A verdadeira religião foi convertida em mentira por conta das injustiças cometidas pela comunidade de adoração contra os pobres em seu meio. É necessário salientar, segundo a percepção de Blank (2002, p. 47), que “não é o culto em si que está sendo rejeitado, mas toda a ideologia que usa o culto para encobrir interesse de poder, interesses ideológicos e até interesses econômicos ou religiosos”. Nesse sentido, poder-se-ia dizer que a falsa adoração contribui para um aumento substancioso do custo social. Onde falta a dimensão horizontal, a dimensão vertical é impossível. Percebe-se uma relação de anterioridade do horizontal sobre o vertical. A relação horizontal é pré-requisito para a vertical, e a vertical somente subsiste com base na emergência da horizontal. Não se trata de repudiar o sacrifício realizado nas celebrações, mas de indicar que ele é inaceitável quando as qualidades da justiça e do direito estão faltando.

O relacionamento com Javé não é construído por meio de um processo mágico, mas unicamente por meio da obediência à sua vontade, que é livre e não se prende a coisa alguma. Além disso, o profeta acrescenta que a busca que eles fazem por Deus no templo não combina com as injustiças praticadas no dia a dia; isto é, ele condena enfaticamente os sacrifícios realizados no templo acompanhados pelas injustiças praticadas exteriormente (cf. Is 1,10-17). O culto não combina com a vida diária deles e, por isso, não é autêntico. O comportamento diário é o critério para a autenticidade do culto. Certamente, para o profeta, é aquilo que acontece nas ruas que profana ou não o templo. E, consequentemente, Amós relativiza a forma de culto que não tem seu início na “sacralização” da vida, ao dizer que Javé deseja ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca. No entanto, muitos não viam a necessidade de seguir a vontade de Javé na vida diária. Era, poderíamos dizer, uma fé sem responsabilidade social.

Não se trata, portanto, de rezar mais ou menos. Mas de encontrar Deus e celebrar a vida no encontro com os pobres, pois “somente através deles o homem entra em contato com Deus. Ou, melhor dizendo, somente quando o homem busca a Deus por esta via indireta tem sentido buscá-lo também de forma direta” (SICRE, 1990, p. 401). Não resta dúvida de que o conhecimento de Deus se manifesta notadamente no campo das relações entre os seres humanos. Afirmaríamos que o mais importante não é o culto, mas a prática da justiça! Epsztein segue na mesma linha ao afirmar que “o culto de Javé que não for acompanhado de conduta íntegra torna-se blasfêmia, induzindo os fiéis ao erro” (1990, p. 112).

A percepção de Amós tinha como ponto de partida o espaço público, para somente depois caminhar em direção ao espaço privado. Nesse sentido, o espaço do templo – contraposto ao espaço público, isto é, das ruas – talvez possa ser visto na literatura de Amós como uma extensão do que acontece na vida pública. Afirmamos que era extensão porque o profeta não percebia a “vida das ruas” e a “vida do templo” como entidades distintas e distantes. Seriam realidades complementares que poderiam, até mesmo, agir como agentes de reforço mútuo. A tentação de um dualismo que separa a vida do culto é real! Mas o culto deveria funcionar como se fosse uma retroalimentação dos fiéis, que os modelaria e os levaria a uma prática alternativa no “mundo real”. Somos necessariamente levados a concluir que a prática do bem, da retidão e da justiça era a expressão fundamental do compromisso com Javé. De acordo com Vitório (2012, p. 26): “o padrão de conduta baseado na vontade divina estava calcado nas relações interpessoais fundadas na misericórdia e na justiça, mais do que em práticas cultuais. O cultual ocupava lugar secundário, quando se tratava de agir corretamente em relação ao semelhante”.

Nos mais variados textos proféticos é possível perceber com clareza a decadência da fé em Israel. Uma decadência não originada da falta de “fé”, mas sim da falta de foco em observar a relação intrínseca e inevitável entre celebração da vida e celebração de Javé. Todavia, os atos formais do culto, por mais performáticos que pudessem ser, já não davam qualquer sinal de que ali se adorava a Javé. Gerstenberger (2007, p. 233) ratifica que, na época dos profetas, “crítica social e crítica ao culto andavam de mãos dadas”.

A questão de fundo dos profetas não era a reforma pura e simples da liturgia que ocorria nas celebrações no templo. Não se tratava de reforma e muito menos de uma crítica ao modelo litúrgico. O que se condenava de maneira contundente era a falta de vínculo entre celebração e vida, isto é, pensava-se que Javé pudesse ser subornado e comprado com rituais grandiloquentes e, além disso, que Javé pudesse estar do lado deles, mesmo quando a violência e a opressão se faziam presentes na ordem do dia.

Os profetas, nesse sentido, demonstravam profunda convicção de que a celebração religiosa não podia ser separada da vida. Seria impensável e, até mesmo, impossível buscar a Deus sem reconhecer a necessidade imperativa de praticar a justiça em todas as relações humanas. A violação do direito inalienável do ser humano é, antes de tudo, uma violação do próprio Deus. Trata-se de crime contra Javé, o autor e protetor da vida. Afinal, ao suprimir o direito do pobre, “sua existência em si está ameaçada” (SCHWANTES, 2013, p. 100). Não se trata, portanto, de ações dos poderosos que ameaçam somente a propriedade; em jogo está a própria vida dos oprimidos.

A situação descrita por Amós em seu livro é a de indivíduos que, durante o dia, exploravam as pessoas e, mais tarde, se refugiavam no templo. Eles queriam estar próximos de Deus, contanto que pudessem estar distantes de todos os outros que eram diariamente violentados por eles mesmos. Todavia, poderíamos afirmar que não há como ter comunhão com Deus e, ao mesmo tempo, oprimir as pessoas; não há comunhão vertical quando não há comunhão horizontal; e seria impensável amar a Deus que não vemos se negligenciarmos aqueles que vemos. Uma das mais belas peças teológicas dos profetas pode muito bem ser assim resumida: não há conhecimento de Deus quando não há comunhão e solidariedade com os mais pobres.

3. Se dez vezes formos aos pobres, dez vezes nos encontraremos com Deus

Os caminhos do povo de Deus em direção aos santuários de Betel, Berseba, Gilgal ou Jerusalém, ao invés de aproximarem-no de Deus, distanciavam-no. Eram caminhos que levavam para mais próximo dos templos e para mais distante dos pobres! A religião não pode ser vista na perspectiva do conceito de neutralidade. Estamos diante de pessoas que exploravam a revelação religiosa em vista de seus próprios interesses. Narcotizavam as próprias mentes de tal maneira, que passavam a utilizar conscientemente a religião para justificar suas injustiças no trato com seus semelhantes. A direção a princípio poderia ser considerada correta, mas os passos revelavam uma prática que situava em compartimentos bem separados a religião e a vida. Nesse caminho presumiam que Deus estivesse com eles, mas na verdade não o conheciam. Não podemos nos esquecer de que a prática do bem é sinal incontestável da presença de Deus. E, consequentemente, “ninguém pode pressupor que Deus está com ele, se não pratica o bem” (LOPES, 2007, p. 130). E Amós não nos deixa esquecer, por exemplo, de que “buscar a Deus” (5,4) e “buscar o bem” (5,14) têm o mesmo significado. Havia entre eles muita religiosidade e nenhuma vida, mas não podemos nos esquecer de que a vida precede o culto.

Amós não fala sozinho; Isaías e Jeremias juntam-se a ele para nos dizerem que Javé estava cansado do culto que parte da população fazia porque havia iniquidade associada ao ajuntamento solene (Is 1,11-13). Liturgia e vida deveriam ser visualizadas simetricamente, isto é, toda vida deveria ser percebida como cúltica. Amós, por sua vez, usa palavras realmente fortes para demonstrar a desaprovação ao culto: “aborreço”, “desprezo”, “não me deleito”, “não me agradarei nem atentarei”, “afasta de mim o estrépito”, “não ouvirei” (5,21-23). Impressiona a força das palavras e como todas elas nos levam a pensar que a prática da justiça e do direito deve preceder o ritual religioso. Os rituais, por mais pomposos que possam ser, não substituem a prática da justiça. Aqueles do meio do povo que acorriam aos santuários poderiam ser descritos da seguinte forma:

eles iam ao templo, mas a vida não era transformada; cantavam, mas não adoravam; corriam a Gilgal, mas não deixavam correr os ribeiros de justiça e de retidão. Não havia conexão entre religião e vida. Eles eram liturgicamente avivados, mas eticamente reprovados; tinham carisma, mas não caráter; cantavam bonito no templo, mas viviam de forma horrenda aos olhos de Deus; diziam amar a Deus, mas oprimiam o próximo (LOPES, 2007, p. 135).

A celebração da vida não apenas precede o ritual religioso, como também o ratifica. Mazzarolo (2005) segue igualmente pelo mesmo caminho ao dizer:

Deus não quer em primeiro lugar um culto dirigido a ele, muitas vezes como desculpa para a conduta injusta de vida; ele quer sim uma vida nova que espalhe sua própria justiça. A exigência de Deus, portanto, é para que os homens se convertam da relação de desigualdade para uma relação social justa e igualitária, através da partilha de um sistema econômico onde os bens são distribuídos de tal maneira que gerem vida para todos.

Todavia, o contrário, por mais sugestivo que possa ser e parecer, não expressa nem de perto a mesma e necessária verdade da teologia bíblica do Antigo Testamento. Deus procura vida, e não culto.

Conclusão

A performance no culto de nada adianta se estiver desvinculada da performance em defesa da vida dos mais fracos. Deus não cabe na sacristia nem muito menos pode ser reduzido a um sacristão! Rituais desconectados da vida e que negam a vida estão à procura da domesticação de Deus. Domesticando o sagrado, pensam que podem manipulá-lo e, manipulando-o, invertem a posição, ou seja, deixam de ser criaturas para se tornar criadores. Havia uma grande falha na teologia que procedia do templo exatamente porque ela não tinha como fonte perene de alimentação a libertação e a defesa do mais vulnerável. A percepção de Amós nos ajuda a compreender que os crimes sociais se tornaram crimes religiosos

Que fazer para sobreviver dentro de um sistema em que o pobre é uma forma ilegítima de existência humana?

Amós nos ajuda a pensar que adoramos a Deus no corpo desfalecido dos fracos. O corpo deles é um altar em que Deus sempre se faz presente. Nesse sentido, um crime cometido contra o ser humano deve ser compreendido como um crime contra Deus e, além disso, a negação do caráter de cuidador dos pobres se reflete na negação da divindade. Quando caminhamos em direção aos pobres, são os nossos pés que rezam.

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Bibliografia

BLANK, R. J. O Deus que desafia seu próprio culto. Revista de Cultura Teológica, São Paulo, v. 10, p. 33-47, 2002.

BRUEGGEMANN, W. Teología del Antiguo Testamento. Salamanca: Sígueme, 2007.

EPSZTEIN, L. A justiça social no antigo Oriente Próximo e o povo da Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1990.

GERSTENBERGER, E. Teologias no Antigo Testamento. São Leopoldo: Sinodal, 2007.

GUTIERREZ, G. Teologia da Libertação. Petrópolis: Editora Vozes, 1973.

LOPES, Hernandes Dias. Amós: um clamor pela justiça social. São Paulo: Hagnos, 2007.

MAZZAROLO, I. O clamor dos profetas ao Deus da justiça e misericórdia. São Paulo: Mazzarolo, 2005.

ROSSI, Luiz Alexandre Solano. Como ler o livro de Jeremias: profecia a serviço do povo. São Paulo: Paulus, 1990.

SCHWANTES, M. O direito dos pobres. São Leopoldo: Oikos, 2013.

SICRE, J. L. A justiça social nos profetas. São Paulo: Paulinas, 1990.

VITÓRIO, J. Nas sendas do direito e da justiça. Educação para uma vida ética no profetismo bíblico. Estudos Bíblicos, Petrópolis, v. 113, p. 23-36, 2012.

ZABATIERO, J. P. T. Uma história cultural de Israel. São Paulo: Paulus, 2013.


Luiz Alexandre Solano Rossi
Doutor em Ciências da Religião pela Umesp, pós-doutor em História Antiga pela Unicamp e em Teologia pelo Fuller Theological Seminary. É professor no mestrado e doutorado em Teologia da PUC-PR e coordenador da graduação em Teologia da PUC-PR. E-mail: luizalexandrerossi@yahoo.com.br.
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