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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Misericórdia: originalidade da vida cristã


O cristianismo das origens se definia pela misericórdia. A Igreja nasce no meio urbano, e os cristãos são cidadãos que vivem situações difíceis de caos e miséria devido à densidade populacional. Diante do alto índice de mortalidade infantil e da breve expectativa de vida, ocorria um intenso fenômeno migratório. Às cidades acorria grande número de estrangeiros, que eram bem-acolhidos pelos cristãos que lhes davam assistência de diferentes formas.

Na Antiguidade, também os romanos praticavam generosidade, mas os cristãos tinham uma atitude diferenciada em relação ao próximo, pois cumpriam as obras de misericórdia por mandato divino. Se um enfermeiro socorresse uma vítima de epidemia sabia que colocava a sua vida em risco, mas se o cuidador fosse pagão, não esperava uma recompensa por esse gesto. Os cristãos, ao contrário, por conta de Jesus e da promessa de vida eterna, sabiam que esse amor ao próximo os aproximava do Pai das misericórdias. 

Os cristãos, contudo, não cuidavam do próximo com segundas intenções, como que para merecer a vida eterna, pois o amor não pode ter interesses. Sabiam, entretanto, que o gesto realizado na concretude da experiência humana remetia a uma transcendência fundamental que Jesus revelara. 

Na sociedade antiga, praticar o bem sem esperar uma recompensa era uma ideia considerada contrária à justiça. Os filósofos romanos se opunham à misericórdia, considerando a piedade um defeito de caráter, indigno dos sábios, mas próprio de pessoas imaturas. Para eles, usar de misericórdia era deixar-se levar por um impulso ignorante.

Também hoje a gratuidade da misericórdia suscita estranheza, especialmente diante da cultura que exalta o individualismo. Muitos não compreendem como alguém pode doar a própria vida ao cuidar de um familiar doente ou idoso. Há quem não suporte um sacrifício por si mesmo, muito menos pelos outros. Numa sociedade com crise de alteridade, nem sempre a misericórdia é bem-vinda. 

Nós nos escandalizamos diante de imagens de crianças refugiadas mortas durante o êxodo de seu país. Clamamos por justiça diante das mortes praticadas cruelmente por terroristas. Precisamos manter essa estranheza diante da falta de misericórdia, visto que nada há de mais grave do que a indiferença. Não podemos nos acostumar com a dor do outro; precisamos ir além: acolher os refugiados; perceber as necessidades dos migrantes; encontrar formas de superar o ódio e a vingança; e criar a cultura da paz.

Só agindo desse modo, manteremos nossa tradição mais profunda: praticar as obras de misericórdia como expressão de nossa identidade cristã. Os hospitais, as escolas para pobres, os orfanatos, os asilos, as fazendas de recuperação de drogados, as casas de apoio às vítimas do HIV e todas as demais iniciativas que o Evangelho nos sugeriu são testemunhas de nossa fidelidade a Jesus Misericordioso. Aquele que tomou para si os nossos pecados e curou nossas feridas, conhece nossas misérias e nos pede que sejamos cuidadores e portadores dessa mensagem de salvação a tantos que encontramos no caminho da vida. Para muitos, a Boa Nova de Cristo só será acessível pela nossa prática de amor misericordioso.

Enfim, a misericórdia deve ser uma das virtudes prioritárias do cristão, porque Deus ama tanto o mundo que os cristãos não podem amar a Deus se não se amarem uns aos outros. Esse amor se dilata de tal maneira que sempre extrapola a família, a tribo, a nação e todos os limites que possa ter um grupo humano. Até os adversários são dignos de misericórdia. A atitude misericordiosa dos primeiros cristãos foi capaz de dar uma nova base cultural para o renascimento do mundo romano, oprimido pelo acúmulo de miséria. Não poderia ser essa mesma consciência que ajudaria a humanidade de hoje a resolver seus desafios planetários?


Dom Leomar Brustolin

Bispo auxiliar de Porto Alegre (RS)