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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A vida na Líbia sob o Estado Islâmico: amputações, degolas e crucificações públicas


A Líbia desabou no caos em 2011, depois da derrubada do ditador Muamar Kadafi por forças da Otan. Kadafi tinha chefiado o país durante décadas de modo sanguinário – péssimo com ele, mas… incrivelmente, pior ainda sem ele.

Várias facções se engalfinham pelo poder e se autoproclamam as legítimas autoridades sobre porções do país em frangalhos. O cenário de terra de ninguém não foi desperdiçado pelos terroristas do Estado Islâmico (EI), que transformaram algumas partes da Líbia em territórios do seu “califado”.

A maioria dos combatentes do EI na Líbia são estrangeiros da Tunísia, do Iraque e da Síria. A ONU estima que eles sejam de 2 mil a 3 mil. Cerca de 1,5 mil estão na cidade de Sirte, situada na costa, onde a milícia fanática impõe o extremismo da lei islâmica desde as regras de vestuário, segregação nas escolas e policiamento “religioso” até punições que incluem amputações, decapitações e crucificações públicas.


Este cartaz, em imagem divulgada pela rede britânica BBC, diz:

“Instruções para vestir o hijab de acordo com a sharia:

    Deve ser fechado e não revelar nada
    Deve ser folgado (não apertado)
    Deve cobrir todo o corpo
    Não deve ser atraente
    Não deve lembrar as roupas de infiéis ou homens
    Não deve ser ornamentado e chamar a atenção
    Não deve ser perfumado”.

A BBC conseguiu conversar com ex-moradores de Sirte.

Seus relatos são chocantes: 

“Eu trabalhava como pediatra no Hospital Ibn Sina. Agora, estou em Trípoli, para onde escapei com minha família em agosto de 2015, quando os conflitos estavam começando. Mas, como todos os outros, ainda tenho parentes morando em Sirte. Às vezes entramos em contato com eles pela internet, via satélite. Em geral, lá não há mais acesso à rede ou a linhas telefônicas. Quem continua na cidade são os que têm menos condições financeiras. Têm chegado a nós notícias de que estão faltando remédios nos hospitais. A matança é inacreditável. Eu perdi quatro primos do lado paterno, cinco do lado materno, outros três parentes e dois vizinhos. Um primo foi crucificado na rotatória Zaafran, outro na rotatória Gharbiyat e um terceiro foi decapitado. O quarto foi morto por um tanque de mísseis. Uma amiga perdeu três irmãos mais novos. A situação é trágica: seu irmão foi morto em um ataque suicida em 7 de janeiro. Ele estava prestes a se formar na escola militar. Eu culpo os países da região pelo Estado Islâmico. Odeio ouvir o nome de alguns deles agora: Egito, Tunísia, Catar, Argélia, Sudão, Afeganistão, Síria. Meu pai é um policial veterano e estava sendo ameaçado em Sirte. Todos que trabalham na polícia podem ser sequestrados ou mortos se não se juntarem a eles” (Bint Elferagani, médico).

“Não se tratou de uma invasão em si. Jihadistas locais declararam aliança com o EI e receberam reforço de homens que fugiram das forças do general Khalifa Haftar em Benghazi. Há pessoas de outras nacionalidades nas fileiras do Estado Islâmico. Não são apenas árabes. Houve um desfile especial de boas-vindas para combatentes do Boko Haram, vindos da Nigéria. No início, a sensação era a de que eles estavam mais preocupados em conquistar a fidelidade e a obediência da sociedade tribal de Sirte. Em agosto (2015), as regras de vestuário e comportamento começaram a ser mais implementadas. Foi quando também começaram as crucificações e chicoteamentos de condenados, geralmente após as orações de sexta-feira” (Al-Warfali, ex-morador de Sirte).


“Ainda temos parentes e amigos na cidade. Temos escutado que praticamente não existem remédios nos hospitais. Pelo que sabemos, não há gasolina. O EI deve ter tomado Sirte com a ajuda dos militantes pró-Khadafi, que chegaram lá com o pretexto de expulsar soldados de Misrata. Eles começaram a crucificar pessoas na entrada da cidade dois meses após tomá-la. Seu ‘crime’ era serem espiões do Líbia Dawn (grupo islâmico rival). Eu vi ao menos uma pessoa sendo crucificada. Depois, ouvi e li sobre outras 17, entre elas um amigo e seu irmão (um clérigo salafista). Ambos já estavam mortos quando foram crucificados” (Ibrahim, autônomo).
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