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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A cremação honra os nossos mortos?


Como é que os católicos devem encarar a possibilidade da cremação? A meu ver, há duas questões que devem ser consideradas a este respeito:

Em primeiro lugar, a Igreja permite a cremação?

E em segundo lugar, é uma alternativa adequada para os católicos homenagearem os seus entes queridos que já partiram?

A resposta para a primeira indagação é que a Igreja permite, sim, a cremação, desde que as cinzas restantes sejam devidamente enterradas. Uma autorização de 1963, incluída no Código de Direito Canônico de 1983, especificou que a cremação é permitida sempre que não seja escolhida “por razões contrárias à doutrina cristã”. Os católicos falecidos podem ser cremados, portanto, sem que seja violada a lei da Igreja. No entanto, em vez de as suas cinzas serem lançadas ao mar ou mantidas dentro de uma urna em algum local da casa, os restos devem ser armazenados num recipiente respeitoso e em seguida enterrados, como no sepultamento tradicional.

Mas será que a cremação, mesmo sendo permitida, é mesmo a melhor opção para um católico? Será que ela é recomendável no contexto da nossa fé? Com base numa tradição católica mais ampla, parece ficar claro que a cremação é reservada para casos excepcionais, em que existem fortes razões práticas para que o corpo seja cremado (na maioria desses casos, para evitar a propagação de doenças infecciosas). Como nem a cremação nem o enterro constituem um sacramento, a importância da escolha é principalmente simbólica. Mas nós, como cristãos, devemos escolher o sepultamento, sempre que possível, como a maneira mais adequada de homenagear os nossos entes queridos em harmonia com a nossa fé.

Para começar, o próprio Jesus Cristo, nosso Senhor, foi sepultado antes de ressuscitar. Nós também seremos ressuscitados. É claro que Deus pode, na sua onipotência, ressuscitar uma pessoa cujos restos foram destruídos pelo fogo, mas o sepultamento expressa melhor a nossa esperança na graça redentora de Deus e a nossa expectativa da vida nova na eternidade.

Quando eu vou a um cemitério, fico imaginando que, debaixo da terra, as pessoas falecidas e sepultadas estão esperando para ser chamadas. Seus corpos, criados à imagem de Deus e cuja forma Ele mesmo se dignou a assumir ao encarnar-se, não são simplesmente descartados. Os corpos dos fiéis defuntos serão retomados de uma forma mais gloriosa ao serem ressuscitados. O enterro nos ajuda a apreciar melhor essas verdades da nossa fé e a nos sensibilizar para a morte de um jeito mais católico. É por isso que os primeiros cristãos insistiram na escolha do sepultamento dos seus mortos, embora este não fosse o costume do seu tempo; é por isso que o enterro foi consistentemente preferido ao longo de toda a história da cristandade, chegando a ser até obrigatório por lei, tanto religiosa quanto civil. Antes de 1963, o funeral católico não era permitido para os católicos que solicitavam a cremação. E mesmo depois de alterada esta lei, continua sendo “fervorosamente recomendado” que se opte pelo enterro em vez da cremação, porque o sepultamento é um costume mais adequado à nossa fé na ressurreição dos mortos. 

A cremação, além do mais, tem fortes associações com o panteísmo, com o niilismo e com a rejeição pura e simples da matéria. Algumas religiões orientais ensinam que os mortos simplesmente deixam de existir como pessoas individuais; a cremação simboliza, assim, a desintegração do indivíduo como tal. Outros povos, como os antigos gregos e romanos, viam o corpo basicamente como um invólucro descartável. E outros grupos, sectários ou herméticos, chegaram a recomendar a cremação explicitamente como forma de negar a crença cristã na ressurreição.

Por que a cremação vem sendo escolhida com crescente frequência nas sociedades ocidentais de hoje? Algumas pessoas a procuram apenas por ser um jeito mais rápido de se livrar de um corpo (e, em alguns casos ou países, mais barato, considerando-se o dinheiro que seria gasto nos funerais, na compra de um terreno no cemitério e na construção e manutenção de um túmulo ou jazigo). Além disso, economiza-se espaço de terra. Já ouvi pessoas idosas usando estes argumentos para explicar o seu desejo de ser cremadas: na ânsia de aliviar os familiares do fardo econômico do funeral, elas acabam deixando de levar em conta outras necessidades, emocionais e espirituais, das pessoas que vão deixar para trás.

Eu, pessoalmente, acho um pouco desolador que as pessoas foquem mais nas facilidades e comodidades práticas do que no apreço pelos gestos de honra à memória dos falecidos e de fé na sua ressurreição. Talvez as pessoas que dão esse tipo de instrução à família nem sempre pensem que a própria família preferiria lhes oferecer um ritual que, em seu coração, os homenageasse melhor; além disso, o “fardo” ligado aos ritos de sepultamento, que, na verdade, é um “fardo” abençoado, poderia trazer mais conforto aos enlutados.

O apelo exercido pela cremação também nos diz algo sobre o “desenraizamento” das pessoas de hoje em dia. Os cristãos que mantiveram uma forte ligação com algum lugar especial do mundo normalmente querem ser enterrados nesse lugar. Hoje, no entanto, as pessoas mudam de endereço com muito mais frequência e podem sentir o desejo de ser literalmente “espalhadas aos ventos” depois da sua morte. Também é provável que as pessoas de hoje, que acham tão difícil disciplinar os apetites sensuais, se sintam especialmente atraídas pela ideia do “descarte” simbólico do próprio corpo, que seria considerado mais como um peso do que uma bênção para a alma; por isso, pareceria melhor livrar-se dele finalmente.

Como cristãos, nós sabemos que essas visões são errôneas, já que somos criaturas psicossomáticas, criadas por Deus como unidades de corpo e alma. Embora afetados pelo pecado original, os nossos corpos ainda conservam a sua bondade: eles são criados por Deus. Nossos corpos vão nos acompanhar, de uma forma aperfeiçoada, ao longo de toda a eternidade. E, como São Paulo disse aos coríntios, o último inimigo a ser destruído será a morte.

Na expectativa daquele dia, seria mais recomendável enterrarmos os nossos defuntos e alimentarmos a esperança nos bens que virão na eternidade.
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Aleteia / Catholicus