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quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Papa Francisco: um perigo não tão claro, mas bem presente


Aqueles que levam a cabo atos perversos de terror em nome do chamado Estado Islâmico (o que, apesar de suas reivindicações distorcidas, nada tem a ver com Deus ou religião) se transformaram numa grande ameaça para o mundo de hoje. 

Cada ataque terrorista que eles, e aqueles a quem inspiram, infligem contra os cidadãos desavisados serve para interromper as nossas rotinas e modos de vida bem-estabelecidos. Eles estão encontrando meios de tumultuar cada canto desta natureza divina e de piorar muitos lugares que já estavam arrasados.

Mas estes fanáticos desorientados e depravados não são a maior ameaça à vida na forma como a conhecemos atualmente.

Há uma ameaça muito mais perigosa aí fora.

É o Papa Francisco.

Não, ele não está planejando um reino de terror. Ele está, isto sim, profeticamente disseminando uma mensagem que – se a acatarmos de fato – poderá facilmente abalar e mudar as nossas vidas de um modo muito mais radical e desestabilizador do que tudo o que os militantes do ISIS possam vir desencadear.

Ele vem assim agindo em níveis múltiplos e em várias frentes. Ele tem encontrado focos de resistência em setores da sociedade, e mesmo dentro da Igreja Católica.

Existem aqueles que frequentam as missas aos domingos e que se irritam com os seus pedidos insistentes por uma reforma ampla da “economia que mata”, incluindo uma maior regulamentação dos livres mercados. Existem os benfeitores ricos e generosos das dioceses católicas, pessoas que tentam ser tão responsáveis com os seus recursos quanto ser esforçados em lucrar, pessoas que se ofendem pelos apelos angustiados do papa por uma distribuição mais justa da riqueza.

Existem cidadãos bons e decentes de todas as crenças e entre aqueles que não possuem nenhuma religião, pessoas apaixonadas que se ofendem com o pontífice e acreditam que ele está redondamente enganado ao exigir que a Europa e a América do Norte abram suas portas aos migrantes e refugiados da África e do Oriente Médio.

Existem católicos sérios que estão escandalizados com as exortações infindáveis do papa em acolher aqueles a quem as regras de suas igrejas definem como impuros ou vivendo em pecado (tais como os divorciados e recasados, os gays e as lésbicas autoafirmados e os que, em boa consciência, usam métodos contraceptivos).

Eles e outros ficam horrorizados com a convicção de Francisco de que a Igreja de Roma não tem escolha senão se envolver no diálogo com os cristãos que rejeitam alguns de seus dogmas, com as pessoas de outros credos que não acreditam em Jesus Cristo, com os que não acreditam em Deus, com os céticos e mesmo com os que são os inimigos declarados da Igreja. 

Toda vez que o papa condena os fabricantes de armas e o comércio armamentista, ele enfurece aqueles, especialmente nos EUA, inclusive católicos, que creem existir um propósito jurídico para a posse individual de armas em casa ou para a ação militar maciça ao redor do mundo.

Assim ele enfurece os farisaicos quando se posta contra a pena capital e mesmo contra as condenações perpétuas, insistindo que as prisões e outras instalações correcionais deveriam ser transformadas em centros de reabilitação, em vez de permanecerem como locais para a mera imposição de punições.

Francisco chama ao trabalho – alguns diriam até mesmo que ele arenga – praticamente todo mundo com um ou outro aspecto de seu ensino abrangente a respeito da ecologia como a criação de Deus.

Por exemplo, existem aqueles que creem que o papa passou por cima de sua autoridade e da decência humana quando insistiu que as mulheres não têm direito a terminar ou não querer mais uma gravidez problemática. Têm outros que dizem que ele está indo além de seu escopo quando entra no debate em torno das mudanças climáticas ficando ao lado dos que acreditam que a atividade humana irresponsável é o culpado pelo fenômeno do aquecimento global.

Mas a ameaça mais perniciosa que Francisco apresenta a tantas pessoas em nossas sociedades e em nossa Igreja relaciona-se com a sua obsessão com a misericórdia.

Sim, a misericórdia. A misericórdia é uma arma muito mais perigosa do que as bombas dos terroristas.

Isso porque a sua prática requer que perdoemos os que nos têm magoado, mesmo que o tenham feito de um modo horrível. Significa que nós os perdoamos em lugar de exigir, segundo a justiça humana, que restaurem exatamente o que destruíram (mesmo se isso seja, na maioria das vezes, impossível).

A misericórdia e o perdão são os opostos exatos da retaliação, vingança e mesmo da retribuição.

Pedir que sejamos misericordiosos – tal como Jesus diz que não devemos julgar, mas sim dar a outra face e amar os nossos inimigos – vai contra o nosso sentimento inato de justiça e equidade.

É verdade que aqueles que nos têm prejudicado ou que romperam com a lei devem ser responsabilizados por seus atos. Mas sem misericórdia, perdão e reconciliação, não pode haver cura, nem para a vítima nem para o perpetrador.

Aos nos recusarmos a demonstrar misericórdia e perdão aos que nos atacaram ou abusaram, nós – seja um país, uma instituição, um grupo particular ou um indivíduo singular – podemos facilmente acabar agarrados às nossas próprias feridas com orgulho e um falso sentimento de justiça.

A única maneira de curar estas transgressões é libertando-nos delas.

O chamado de Francisco a uma maior misericórdia no mundo e em nossas vidas não é uma tentativa distorcida, sentimentalista para encobrir as faltas ou varrer os erros para baixo do tapete.

Pelo contrário, trata-se de uma mensagem desafiadora – sim, até mesmo ameaçadora – que vai derrubar as nossas vidas se nós, verdadeiramente, acolhermos a misericórdia e ofertá-la aos demais.

A Igreja, como o sacramento universal da salvação, precisa assumir esta convocação à misericórdia.

Esta é uma enorme intuição de Francisco.

Se ela não ameaça algum aspecto da sua vida – não importa se você se identifique como um tradicionalista, progressista ou algo intermediário –, então você provavelmente não está escutando.


Robert Mickens,
editor-chefe da revista Global Pulse. Desde 1986, vive em Roma, onde estudou Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana antes de trabalhar por 11 anos na Rádio Vaticano e, então, mais uma década como correspondente do jornal The Tablet, de Londres.
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Fonte: National Catholic Report
Tradução: Isaque Gomes Correa.

Disponível: IHU Unisinos