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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Homilética: Sagrada Família - Ano C: "A família, comunidade que vive amor e compromisso".


Os textos de hoje acentuam as relações familiares. Estas devem estar fundamentadas no amor que vem de Deus, para que a família possa realmente ser comunidade onde cada um é amado e respeitado. Fundamental para a própria sociedade, a família assim alicerçada contribui de modo essencial para a harmonia e a construção da vida humana.

Comentário dos textos bíblicos

Evangelho (Lc 2,41-52)

Os pais de Jesus são judeus piedosos, observantes da Lei, que peregrinam a Jerusalém (cf. Ex 23,14-17) e conduzem seu filho. Entre 12 e 13 anos, o menino deveria começar a observar os mandamentos mais sérios. Maria e José são solícitos com o menino. Mas a peregrinação era feita em grupos, normalmente de parentes, que poderiam ser numerosos. Daí a possibilidade de os pais suporem que Jesus estivesse com as outras crianças e adolescentes da família.

Por que Jesus ficou em Jerusalém? Não foi mero ato de independência de um adolescente. No entanto, trouxe preocupação a seus pais. É Maria quem o interroga (não José). Ela procura entender; ao mesmo tempo, sua pergunta tem um tom de dor, de angústia e exigência materna. Ela não esperava tal ato de Jesus: “Meu filho…” (v. 48). E não fala só de sua parte: há grande compreensão entre Maria e José, e os dois sofrem juntos: “por que fizeste assim conosco?” Ela reverencia José, mencionando-o primeiro: “teu pai e eu” (v. 48).

A resposta de Jesus mostra uma surpresa e, ao mesmo tempo, uma distância. Não de rebeldia; adolescente, ele era obediente a seus pais (v. 51). Mas deixa claro que sua vida já na adolescência está marcada pelo absoluto da vontade do Pai: “devo… meu Pai” (v. 49). A essa vontade Jesus nada pode antepor. O que mais tarde dirá aos discípulos, propondo-se como referencial para eles, é o que já vive antes em sua relação com seus pais, subordinando-a ao Pai: “Quem amar pai e mãe mais do que a mim…” (Mt 10,37). Sua resposta opõe o “teu pai” (José) ao “meu Pai”. Ele reconhece José como seu pai (jurídico), presta-lhe obediência, mas seu Pai real é aquele que é o senhor do templo, onde ele permanece. Poder-se-ia dizer que as duas formas de obediência não estão desligadas entre si. Jesus se submete a seu pai adotivo porque reconhece acima de si a vontade do Pai. A autoridade dos pais sobre os filhos e a obediência destes são reflexo da paternidade de Deus e da nossa filiação divina.

Abrigado por seus pais, Jesus desenvolve-se humana e espiritualmente, até chegar o momento do início de sua missão pública (v. 52).

A família é comunidade de amor, de estima mútua, onde Deus é o referencial para todos, Deus e seu amor. É escola de amor, de autossuperação, de fidelidade aos compromissos assumidos, de desenvolvimento humano e espiritual. Hoje, infelizmente, é tão comum o drama de famílias que sofrem pela separação dos pais ou pela conduta dos genitores, prejudicial à comunidade do lar. Diante disso, cabe a nós, primeiramente, oferecer o auxílio de nossa oração, seja pelos que se preparam para constituir família, seja pelas famílias que sofrem, pelos filhos e pelos cônjuges. Todos podem contar com o apoio da família de Nazaré. Além disso, cabe à comunidade eclesial apoiar as famílias para que se desenvolvam sempre mais no amor, possam superar dificuldades, restaurar os elementos fraturados, renovar o compromisso e o dom recíproco. 

I leitura (Eclo 3,3-7.14-17a)

O texto é dirigido a pessoas adultas, que devem observar a Lei. Trata do cuidado para com os pais, especialmente os idosos. O amor e o dever de cuidar não cessam quando o filho se torna emancipado da família de origem, mas permanece o dever de gratidão. A principal atitude inculcada no texto é a de “honrar” os pais. Um dos dez mandamentos (cf. Ex 20,12; Dt 5,16) é aqui concretizado e explicitado, evocando a ternura que deve reinar na família.

No plano humano, quem honra os pais terá alegria com os próprios filhos (v. 5). No plano religioso, o amor aos pais perdoa os próprios pecados (v. 3.14-15); quem os honra será atendido quando rezar (v. 5.15). A relação com os pais toca em Deus: quem os honra, os venera, honra a Deus (v. 7). Por quê? Os filhos são dados por Deus e por isso devem agradecer a vida a Deus, honrando, respeitando, amando seus pais.

Atualmente, a idade avançada, mais frequente que no passado, traz consigo também o desafio do amor gratuito, quando os pais não podem mais, humanamente, oferecer uma recompensa. É então o momento de os filhos, não sem sacrifícios, oferecerem o conforto de sua presença, o consolo de seu sincero amor filial e a disposição de propiciar-lhes um envelhecimento digno e minorar seus sofrimentos. Tal tarefa é exigente, e só se consegue levá-la adiante com êxito se vivida com o amor que vem de Deus.

II leitura (Cl 3,12-21)

O texto traz exortações à comunidade cristã e uma orientação para os relacionamentos familiares. A primeira parte, exortativa, põe a ênfase no amor fraterno. O acento está na reciprocidade do amor e em suas manifestações concretas: bondade, compaixão, humildade, mansidão, longanimidade, um elenco de virtudes que exigem grande empenho pessoal (v. 12). Para tanto, porém, há forte motivação. O motivo último do amor não é jamais o próximo (o que ele é, o que fez ou não a mim etc.), mas a nova condição do cristão: Deus me santificou, me escolheu, me amou. Amo porque me sei amado, primeiro, e porque Cristo recriou meu ser. Posso, assim, viver a caridade que vem do Cristo, o amor paciente, humilde, que não guarda rancor, que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (cf. 1Cor 13,4-7).

Nessa história, o amor conhece os limites das pessoas e dos relacionamentos humanos. Por isso, faz parte do amor suportar-se mutuamente e perdoar. Também aqui o motivo é transcendente: perdoar como o Senhor perdoou (v. 13). E como ele o fez? Perdoou totalmente, sem exigir nada, a não ser a abertura e o acolhimento. Um perdão gratuito, sem limites, no qual não se contam quantas vezes se perdoou (setenta vezes sete!). O perdão expressa de modo particular o amor: é o amor que persiste dando, doando, per-doando. E, assim, o amor supera qualquer expectativa e constitui a união máxima entre seres por vezes tão diferentes. É ele que mantém a comunidade unida e a leva à perfeição (v. 14). A paz, que é dom de Cristo, surge então como consequência dessa vivência recíproca do amor. Sendo Deus a fonte de todo amor, cabe ao cristão, que vive nesse amor, agradecer a Deus (v. 15).

A segunda parte da exortação frisa a importância de ter uma vida modelada pelo evangelho. A Palavra de Cristo, seu evangelho, deve habitar no cristão como num santuário (v. 16). Se é assim, na comunidade os membros se edificam mutuamente: pela instrução mútua; pela celebração em conjunto (salmos, hinos, cânticos), em ação de graças. Tudo isso transborda no falar e no agir, que têm sempre sua origem no Senhor e são feitos por causa dele (v. 16-17).

Os v. 18-21 concentram-se nas relações familiares. A família, parte da comunidade cristã, já deve viver aqueles valores expressos nas exortações dos v. 12-17. A carta não deixa completamente as categorias e modelos sociais de sua época, a marcada subordinação da esposa ao esposo e dos servos aos senhores (cf. 3,22-4,1). No entanto, já dá início a um movimento de superação desses condicionamentos culturais, ao permeá-los pelo evangelho. Dessa maneira, se a mulher devia estar subordinada ao marido, isso se deveria dar “como convém no Senhor” e não segundo um modelo social qualquer. Não se explica o que “convém no Senhor”, como se fosse coisa já conhecida pela comunidade. Mas as exortações ao amor mútuo feitas imediatamente antes oferecem indicações nesse sentido. De forma paralela, também os maridos devem “amar suas esposas”, um modo de falar que não era tão comum na época – e, mais, com o amor cristão delineado nos v. 12-15.

A mesma relação de amor recíproco deve permear o relacionamento entre pais e filhos (v. 20-21).

 III. Pistas para reflexão

– Como nossa comunidade está sendo ou pode ser apoio para:

Crianças, adolescentes e jovens que sofrem em suas famílias?
Casais em dificuldade de relacionamento – e também em dificuldades de saúde, dificuldades financeiras…?
Pais/mães em sua missão de educar e de formar de modo humano e cristão seus filhos?
Os anciãos que não contam com o apoio de suas famílias?
Pais ou mães que assumem sozinhos, sem o cônjuge, a tarefa de conduzir seus filhos?
– Em que pontos minha família deve ser renovada pelo amor de Deus, a fim de que cresça como comunidade de amor que irradia a paz proveniente de Deus para a sociedade? Que passos dar no caminho dessa renovação?

– Como realizar a pastoral de adolescentes e jovens, a fim de que possam, com maturidade, assumir a futura vida matrimonial, os compromissos familiares e a educação dos filhos?


Maria de Lourdes Corrêa Lima
Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e do Instituto Superior de Teologia da Arquidiocese do Rio de Janeiro. Doutora em Teologia (Bíblica) pela Pontifícia Universidade Gregoriana (Roma). É membro da Ordem das Virgens da Arquidiocese do Rio de Janeiro. E-mail: mllima@puc-rio.br
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Vida Pastoral