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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Medjugorje e o veredicto do Vaticano: um dilema nas mãos do Papa Francisco


Escritor e novelista
francês Leon Bloy (1846-1917)
Leon Bloy — o “católico selvagem”, como costumava se definir — dizia que não há fé em ir a Lourdes como doentes que buscam uma cura. Fé mesmo é a daqueles que, saudáveis, vão banhar-se na gruta pedindo para ficarem doentes, quem sabe de uma doença repugnante, para, então, poder melhor tomar parte na cruz de Cristo. Tal paradoxo me ocorre quando às vezes me pedem para falar o que penso a respeito de Medjugorje. Na verdade, eu fui entre os primeiros a ir àquela planície, então, semidesértica, no centro da qual havia uma igreja de paróquia construída há pouco tempo e claramente excessiva para o lugar. Dimensões de santuário que levantavam suspeitas, como se os dirigentes franciscanos quisessem criar um espaço adequado para as multidões de peregrinos. O que me movia naquela empreitada não era o fervor dos devotos, mas a curiosidade jornalística: queria ver o que estava acontecendo naquele lugar pouco conhecido, sobre o qual, nos ambientes católicos, circulavam há já um bom tempo boatos estranhos.

Medjugorje está localizada ao sul da Bósnia e Herzegovina

Na volta, no entanto, o carro em que peguei carona derrapou na neve enquanto atravessávamos a região da Ístria, na Croácia, e acabamos em uma ribanceira. Fomos retirados com cordas por bombeiros. Depois dos primeiros-socorros, eles tornaram-se rudes quando descobriram bíblias em nossa bagagem. Saímos abatidos, malquistos, com as lesões curadas de maneira áspera. Quando eu consegui chegar em casa, ao sair da cama, caí por terra devido a uma vertigem violenta, que se repetiria a cada vez que tentava me levantar. O carro capotou várias vezes, eu bati com a cabeça, levou tempo e terapias adequadas para colocar as coisas no lugar. Em suma, alguma coisa me fez voltar o pensamento para o paradoxo de Bloy, embora não tenha certeza se havia rezado antes de partir. Estava em grande forma, tinha quarenta anos na época, mas retornei com a cabeça enfaixada, como se vestisse um turbante, e ainda por cima ferido a ponto de ter que andar segurando uma bengala.

Os seis videntes: Vicka, Jakov, Mirjana, Ivanka, Marija e Ivan

Em contrapartida, devo dizer, tive um privilégio que, para muitos peregrinos entusiasmados de hoje, seria digno de “santa inveja”: estava entre os poucos que, amontoados na pequena sacristia da igreja, assistiram ao êxtase — real ou presumido — dos então seis adolescentes, e entre aqueles que puderam trocar algumas palavras, numa mistura de várias línguas, tanto com os “videntes” quanto com os franciscanos, que ainda mostravam espanto e medo da polícia política do regime, devido à atenção de que eram objeto.

Um aspecto que muitas vezes é esquecido: Tito estava morto há um ano, e seus sucessores já prenunciavam a destruição que depois se pode verificar. Para se manterem no poder, ao invés de afrouxar as rédeas, puxaram-nas, inclusive na questão da luta antirreligiosa. Certamente, aqueles não eram tempos favoráveis para quem quisesse organizar encenações de falsas aparições do Céu, usando-se, além de tudo, de seis jovenzinhos: muito novos para ludibriarem de forma convincente uma polícia famosa por sua brutalidade, que no primeiro interrogatório poderia desmascará-los. 

Pensei em contar a história do meu “milagre invertido” (partir saudável e voltar estropiado) para tentar amainar, com bom humor, a paixão — a favor ou contra — que é despertada muitas vezes quando se fala de Medjugorje.

Milhares de peregrinos visitam Medjugorje todos os anos

Paixões que têm, no entanto, a sua justificativa. De fato, em uma perspectiva católica, não se exagera definindo o dilema como dramático. Por um lado, pergunta-se: a Igreja não teria se omitido nos últimos 33 anos (o início dos fatos é de 1981) ao não reconhecer e dar autorização oficial àquela manifestação que, a Senhora, a Mãe de Cristo, anuncia como sendo a última aparição da história, e que é repleta de exortações, conselhos, para se por em guarda? Por outro lado, também se pergunta: não seria a Igreja, talvez, culpada por não ter intervindo, depois de tantos anos, para desmascarar uma superstição, uma possível fraude contra a qual trovejaram com palavras terríveis os bispos da diocese, sem serem capazes de acabar com as peregrinações que têm enganado milhões de fiéis ingênuos?

Imagem de Nossa Senhora Rainha da Paz, no local da primeira aparição

Contudo, a Igreja acabou se movendo, ainda que no seu próprio tempo. Na semana passada, depois de quase quatro anos de trabalho, a Comissão de Inquérito, presidida pelo Cardeal Camillo Ruini, apresentou seu volumoso processo para a Congregação da Doutrina da Fé. Ela irá analisar tudo e apresentará suas conclusões ao Papa, que será responsável​​, é claro, pela decisão.

Se se tem esperado por tanto tempo — e se ainda se esperará mais — a principal razão é certamente o fato de que as “aparições” ainda estão em curso e que, portanto, é impossível julgá-las, sem saber como elas vão ser no futuro. Assim, por ora, estamos limitados a medidas como a proibição de peregrinações “oficiais”, organizadas e lideradas pelo clero (aliás, medida desrespeitada por devotos, alguns bispos e por pelo menos um par de cardeais).

Cardeal Camillo Ruini,
 presidente da 
Comissão de Inquérito
 sobre as manifestações
 em Medjugorje
Porém, o que preocupa mesmo a Santa Sé é que, em qualquer caso, a decisão não será indolor. Se negativa, o dano será imenso à pastoral, tendo em conta os milhões de peregrinos, de todo o mundo, que viajaram até Medjugorje, mas vão descobrir que foram vítimas de um embuste. Se positiva, será devastador para o direito canônico, que concede aos bispos locais o juízo sobre os fatos presumivelmente sobrenaturais ocorridos em suas dioceses. Em Medjugorje, encontramo-nos diante da rejeição categórica e controversa dos prelados que se sucederam em Mostar, a capital eclesiástica. Desmentindo-os, a Igreja nega a sua própria lei e sua hierarquia, com consequências perigosas.

É mais previsível que, ao final, se faça um comunicado interlocutório non constat de sobrenaturalidade”, ou seja, sem a certeza (até o momento) da sobrenaturalidade dos fatos, portanto, sem caráter de decisão final. Parece-nos remota a hipótese de ser emitido um definitivo e direto constat de não sobrenaturalidade”, ou seja, os fatos (com certeza) não são sobrenaturais.

Assim, à espera de novos eventos esclarecedores, a Igreja sugere que os católicos continuem a colher os frutos espirituais abundantes de uma árvore que — deve ser dito — revelou-se bastante fecunda. Orando, confessando-se, aproximando-se da Eucaristia, deixando de lado, por ora, a questão do que deu origem a tudo isso. Os céticos — e para eles também, deve-se dizer, há uma avalanche de argumentos para se opor à crença — poderão refletir sobre o que me disse um mariólogo famoso: “Não sei se, no início, Nossa Senhora realmente estava presente em Medjugorje. O que constato, passados 30 anos, a julgar por esses devotos apaixonados que a invocavam e continuam a invocá-la, é que agora ela não pode deixar de estar ali”.



Vittorio Messori
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Corriere della Sera
Disponível em: Medium