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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Você mataria este menino sabendo que ele é Adolf Hitler?

New York Times: uma pergunta cruel e uma ideia distorcida sobre o livre arbítrio

Se, por absurdo, você pudesse encontrar Adolf Hitler quando ele ainda era criança, você o mataria?

Esta foi a pergunta que o jornal The New York Times fez aos seus leitores, embalado pelo recente frenesi em torno ao filme “De Volta para o Futuro” e seu enredo de viagens no tempo. O resultado da pesquisa foi anunciado via Twitter: 42% responderam que matariam o garoto de olhos sonhadores que viria a se tornar o Führer nazista. 30% não o matariam e 28% não souberam o que decidir.

É importante recordar que as pesquisas via Twitter não têm valor científico, mas este caso, em concreto, sugere uma possível concepção geral de que cada pessoa está de alguma forma “predestinada” a fazer o que faz – e que nada poderia alterar o seu “destino”, exceto, talvez, soluções radicais como o assassinato. A maioria dos participantes da enquete se declarou disposta a matar um inocente (o menino Adolf) para punir um criminoso (o adulto Hitler).

O caso indica a nossa ilusão de ler em todo ser humano “digitalizado” um prenúncio do gênio ou da abjeção. Chamamos isso de “metadados” – e ainda não sabemos até que ponto o Google já nos classificou e arquivou em sua memória mais profunda e inacessível com base neles. Quando os metadados indicam que algo ou alguém é mau, tendemos a acatar essa catalogação sem muito senso crítico: podemos até reagir como se nos fosse indicado o próprio signo do diabo e dispensamos maiores aprofundamentos antes de condenar o “acusado” à fogueira (assim como é comum condenarem sumariamente a Igreja à fogueira por “ter queimado milhões de pessoas na Idade Média”, embora os historiadores mais sérios desmintam as lendas sensacionalistas propagadas pelo laicismo mais raivoso a respeito da Inquisição). 

Foi o que ocorreu nesta brincadeira de eugenia anacrônica do New York Times.

A propósito, você mataria este menino?
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