terça-feira, 6 de outubro de 2015

Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil - 12 de Outubro




Viva a mãe de Deus e nossa! Viva a Senhora Aparecida! Celebramos com todo amor do nosso coração a Festa da Rainha e Padroeira de todos os brasileiros, Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

A Festa é em torno de uma imagem, encontrada por pobres pescadores. Eram homens muito simples e, na simplicidade do coração deles, Deus se revelou através de uma simples imagem, quebrada, esquecida e jogada no fundo de um rio.

Deus fala e se manifesta nas coisas mais simples, que talvez pareçam até insignificantes. A graça que aqueles pescadores alcançaram foi incomensurável. E desde que aquela imagem foi encontrada no rio Paraíba, até os dias de hoje, Deus tem concedido graças incontáveis ao Seu povo pelo sinal de uma simples imagem de Maria; a mãe de Deus, mãe de Jesus Cristo, mãe de todos nós.

A Palavra de Deus, hoje, aponta-nos a figura da rainha Ester, aquela que foi agradável ao rei, que concedeu qualquer pedido que ela [a rainha] fizesse ao seu coração. E ela pediu pela sua vida e a de seu povo. A rainha Ester é o modelo de uma intercessora.

Maria é aquela que, diante do rei, diante do Senhor da Vida, intercede por nós, seu povo. Ela pede em favor da nossa vida, em favor de nossas necessidades. Por isso nos voltemos, hoje, de coração sincero, a devotarmos aquela que é a Nossa Rainha, a nossa Padroeira, a Nossa Senhora!

Tudo a ver com a celebração de Nossa Senhora Aparecida, a nossa Mãe negra, que apareceu a pobres pescadores em 1717 num contexto de escravidão dos negros.

Há algo muito sublime no amor a Nossa Senhora. Primeiro, porque foi Deus quem a amou em primeiro lugar, como filha e depois como aquela que desposou do Espírito Santo. E dessa união do céu e da terra, no ventre de Maria, foi que aconteceu o maior dos milagres e a maior das graças que a terra já concebeu: o nascimento de Cristo Jesus, Nosso Senhor.

Maria foi o templo da grande graça divina. E é neste templo chamado ‘Maria’, é no ventre de Maria, que Deus continua gerando novos homens, uma nova humanidade. Quantas pessoas se convertem, mudam de vida, quantas pessoas são agraciadas pelos méritos, pela intercessão daquela que é medianeira das graças! O povo brasileiro guarda-lhe profunda veneração. A solidariedade de Maria com as pessoas necessitadas e excluídas é importante indicativo para todos os que desejam caminhar na vida como discípulos e missionários de Jesus.

Maria, mãe de Deus, Senhora Aparecida, pedimos hoje pelo seu povo, o povo de Deus; os doentes, os aflitos, os necessitados, os desamparados, aqueles que só têm porto seguro no coração de Deus. Ó Virgem soberana, intercede e pede pelo seu povo, não nos deixeis sozinhos nem desamparados em nossas aflições e necessidades!

Mãe de Deus, Senhora Aparecida, intercedei por nós!
Comentário dos textos bíblicos

I leitura (Est 5,1b-2; 7,2b-3)

O livro de Ester, em sua forma atual, situa-se pelo II século a.C. Os judeus encontram-se sob o domínio grego. Os autores, porém, fazem uso de personagens da época da dominação persa (538-333 a.C.), como Assuero (ou Xerxes), rei da Pérsia no séc. V a.C. Na verdade, o livro é uma novela bíblica que reflete a situação do povo judeu num contexto de opressão estrangeira. A identidade da nação judaica está sob ameaça de destruição. Sabemos que a influência da ideologia grega no interior do judaísmo foi grande e provocou resistências radicais, até com métodos violentos como o da guerrilha dos macabeus. Também provocou grande dispersão de judeus para fora da Palestina, obrigados a conviver num mundo com valores estranhos à sua tradição de fé.

A história de Ester atualiza a proposta do Êxodo. O povo oprimido pode mudar a história. Existem caminhos de libertação que precisam ser abertos com inteligência e organização. Deus age por meio das pessoas aparentemente fracas. Ester é uma das mulheres que, ao longo da história de Israel, foram protagonistas de movimentos populares capazes de transformação social: as parteiras do Egito, Míriam, Débora, Judite… Leve-se em conta que, na época da redação do livro de Ester, as mulheres eram oficialmente excluídas de qualquer instância decisória. Pertenciam à categoria das pessoas impuras, conforme estabelecia o sistema sacerdotal de pureza. No entanto, por essas pessoas, Deus suscita projetos de vida e salvação para o povo.

Ester, fazendo uso de seus atributos femininos, com sabedoria e coragem, toma a iniciativa de enfrentar o poder que mata. O que a move não são interesses pessoais, mas a libertação do povo. Sua estratégia demonstra maturidade e consciência. Mesmo após conquistar a simpatia e a confiança do rei, a ponto de tornar-se rainha, não se deixa arrastar pelas tentativas de cooptação da parte de quem domina. Não aceita a oferta de riquezas; pelo contrário, usa agora de seu poder para garantir a vida de seu povo. Ester encarna a liderança que não trai o seu povo. Doa-se por inteiro e arrisca a vida para salvá-lo.

Evangelho (Jo 2,1-11)

O relato das bodas de Caná constitui uma releitura da aliança que Deus realizou com o povo de Israel. O compromisso de amor mútuo foi rompido por sucessivas infidelidades por parte de Israel, desde a opção pela monarquia até a organização do sistema sacerdotal de pureza. Não é por acaso que, logo após as bodas de Caná, Jesus se dirige ao Templo, onde, profeticamente, denuncia a exploração ali instalada e anuncia um novo Templo, que é ele próprio.

Na festa de casamento, Jesus é apresentado como o esposo da nova humanidade. O sistema judaico, organizado segundo os interesses de uma elite religiosa, esvaziou o sentido da antiga aliança; já não respondia ao amor de Deus. A imposição de um legalismo excludente criou imenso vazio no coração do povo. Os seis potes vazios representam as festas judaicas (o Evangelho de João apresenta seis delas), que deveriam ser expressão de plena alegria pela presença amorosa e salvadora de Deus. No entanto, estão vazias, perderam o verdadeiro conteúdo que saciaria a sede que o povo tem de Deus.

A comunidade de João manifesta sua fé em Jesus como Deus-esposo que vem resgatar (Caná significa “adquirir”) sua esposa e oferecer-lhe o vinho do amor e da alegria. Essa festa de casamento, portanto, é a celebração da nova aliança. A esposa é o novo povo de Deus, formado pelas comunidades cristãs. A esposa é representada pela mãe de Jesus. Por isso Jesus se dirige a ela chamando-a de “mulher”. Ela executa um papel muito especial: percebe que naquela festa falta o essencial. Dirige-se a Jesus, pois sabe que dele vem a solução: “Eles não têm mais vinho”. Jesus lhe responde que sua hora ainda não chegou. O texto supõe que aquela mãe-mulher-comunidade entendeu perfeitamente e, por isso, confia em Jesus: “Fazei tudo o que ele disser”. Na cena seguinte, vemos Jesus-esposo dizendo de modo imperativo aos que serviam: “Enchei os potes de água”, e depois: “Tirai e levai ao mestre-sala”. Este provou sem saber de onde viera o melhor vinho. Porém, “os que serviam estavam sabendo”. O vinho em abundância simboliza o dom do amor de Deus para a humanidade. É a volta da plena alegria oferecida por Deus, que celebra com seu povo a aliança definitiva.

João faz questão de dizer que “esse foi o princípio dos sinais… e os discípulos acreditaram nele”. Até a “hora de Jesus” – o momento de sua morte e glorificação –, vários outros sinais serão por ele realizados. O tema da aliança contemplado no primeiro sinal serve como chave de interpretação para todos os demais. No final do evangelho, João vai dizer: “Esses sinais foram escritos para que vocês acreditem que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, vocês tenham a vida em seu nome” (20,31). Nesse mesmo evangelho, Jesus declarou: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (10,10).

A mãe de Jesus, que aparece nas bodas de Caná como representante do novo povo de Deus, indica como podemos ser fiéis à aliança com Deus: permanecendo atentos às necessidades do povo, contando com a graça de Jesus presente no meio de nós e pondo-nos a serviço do seu projeto de vida em abundância para todos.

II leitura (Ap 12,1.5.13a.15-16a)

O capítulo 12 do Apocalipse apresenta a situação de sofrimento pela qual passam as comunidades cristãs no final do século I, sob a opressão do imperador Domiciano. A mulher e o dragão representam dois projetos antagônicos: o de Jesus com as comunidades cristãs e o do império romano. Percebe-se aqui uma evocação do texto de Gênesis: “Porei hostilidade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a descendência dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (3,15).

A mulher é descrita como “um grandioso sinal no céu, vestida com o sol, tendo a lua sob os seus pés e, sobre a cabeça, uma coroa de doze estrelas”. São símbolos com profundo significado. A mulher aparece no céu, irradiando a gloriosa luz divina, revestida de grande poder cósmico. A coroa de doze estrelas tem relação com as tribos de Israel e o novo povo de Deus nascido da fé em Jesus Cristo. A mulher também representa Maria, a mãe de Jesus, o verdadeiro rei de toda a humanidade que subiu ao céu e está junto do trono de Deus.

O dragão é a antiga serpente, isto é, aquele que introduz o mal e a morte no mundo. Persegue a mulher e procura matá-la. O vômito do dragão atrás da mulher, tentando afogá-la, é o império romano, que, com força e poder, faz submergir todo o povo com sua ideologia. Não admite outros projetos. Por isso persegue especialmente os seguidores de Jesus. A terra, porém, engole o vômito do dragão, salvando a mulher. É a própria história que “engole” os impérios. Eles não são eternos; não são absolutos. Dentro de si carregam o germe da própria destruição.

A mulher, portanto, representa os pequeninos e fracos pelos quais Deus se manifesta ao mundo, oferecendo vida e salvação. Maria de Nazaré gerou o Filho de Deus, nosso salvador. As comunidades cristãs, seguidoras de Jesus, têm a missão de gerar vida e dignidade no mundo. Essa missão contrapõe-se aos projetos de morte impostos pelos poderosos. A mulher que, na fé e confiança em Deus, vence o dragão é símbolo de todas as pessoas empenhadas na defesa e promoção da vida contra todo tipo de opressão e exclusão.

PARA REFLETIR

A Solenidade hodierna recorda a proteção da Virgem Maria, sua presença materna e consoladora, experimentada em 1773,

por três pobres pescadores, na aurora de nossa história nacional. As redes vazias dos pobres quase se romperam pela abundância de peixes, após o “aparecimento” da imagem enegrecida da Imaculada Conceição. Desde então, aquela imagenzinha humilde e feiosa recorda ao povo brasileiro a presença materna da Mãe do Senhor na nossa história e na nossa terra. Sim, hoje a festa é nossa, do povo brasileiro; hoje, por todo o território nacional, gente de todas as raças que fazem esta Nação, canta com devota gratidão: “Viva a Mãe de Deus e nossa, sem pecado concebida! Salve a Virgem Imaculada, a Senhora Aparecida!”

Esta presença materna, carinhosa, providente e atuante da Virgem Santíssima é ilustrada de modo admirável nas leituras da Palavra de Deus, que acabamos de ouvir. Primeiramente, a Virgem é evocada pela rainha Ester, que arriscou a vida para salvar o seu povo da condenação à morte. Quem não se comove com o apelo da Rainha? “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida – eis o meu pedido! – e a vida do meu povo – eis o meu desejo!” Como tais palavras cabem na boca da Mãe do Senhor! Ela, perfeita e completamente salva e redimida de todo pecado por pura graça de Deus; ela, a Agraciada! Mais que ninguém, ela pode cantar as palavras de Isaías, que o Missal coloca no início da Eucaristia deste dia: “Com grande alegria rejubilo-me no Senhor, e minha alma exultará no meu Deus, pois me revestiu de justiça e salvação, como a noiva ornada de suas jóias”. Maria Virgem, totalmente agraciada, totalmente salva por Deus, não esquece de nós, filhos que o Filho lhe deu ao pé da cruz: “Salva a vida do meu povo – eis o meu desejo!” Ela é a Mulher do Apocalipse, em luta constante contra a serpente, o antigo Inimigo, que ameaça o povo de Deus; ela é a Mulher que, em Caná, intercede pelos esposos, ensina-nos a fazer o que o Filho disser e cuida para que a água das nossas pobrezas e das nossas angústias seja transformada no vinho da alegria, fruto da ação do Espírito do Cristo ressuscitado.

A Festa de hoje recorda-nos a presença constante de Nossa Senhora na vida da Igreja, na vida do povo brasileiro e na vida de cada um de nós. Não poderia ser diferente! Foi o próprio Cristo quem lhe deu essa missão materna em relação a nós, seus discípulos amados. Recordemo-nos da cena dramática no Calvário. Jesus diz à sua Mãe, indicando o Discípulo Amado, que é cada um de nós, cada cristão, católico ou não: “Mulher, eis o teu filho!”(Jo 19,26). Não foi ela quem escolheu ser nossa Mãe. Não! Foi o Filho mesmo quem lhe deu a missão: “Eis o teu filho, os teus filhos, Virgem Maria! Tu és a Mulher do Gênesis, inimiga da serpente; tu és a Mãe dos viventes, a verdadeira Eva!” Fidelíssima à vontade do Senhor, como sempre foi, a Virgem vela por todos os cristãos; até por aqueles que não lhe têm amor e veneração, chegando mesmo a difamá-la! Mãe dos discípulos do Senhor Jesus, Mãe da Igreja, Virgem Maria! Foi esta maternidade tão amorosa, fecunda e providente que o povo brasileiro experimentou às margens do rio Paraíba do Sul, quando a imagem enegrecida da Imaculada apareceu nas redes dos pescadores. É esta maternidade que nós experimentamos continuamente em nossa vida. Quem de nós não tem uma história para contar a respeito da presença da Virgem no nosso caminho? “Filho, eis a tua Mãe!” (Jo 19,27). Não fomos nós que escolhemos Maria por Mãe. Cristo mesmo, no-la deu como aconchego materno. Na cruz, ele olhou para o Discípulo Amado, para cada um de nós, e deu-nos sua Mãe: “Filho, eis a tua Mãe!” Que generosidade, a do Senhor: deu-nos tudo, seu corpo, seu sangue, sua vida… deu-nos sua Mãe! Realmente, amou-nos até o fim (cf. Jo 13,1). Jesus olha para todo cristão – católico ou não – e indica: “Eis a tua Mãe!” E o Evangelho diz qual deve ser a atitude do discípulo ante um dom tão generoso, tão belo, tão grande: “A partir daquele momento, o discípulo a levou para sua casa” (Jo 19,27). Todo discípulo de Cristo tem o dever de acolher o dom do Senhor, o dever de levar a Mãe de Jesus – agora Mãe de cada cristão – para sua casa. Não fazê-lo é desobedecer a um preceito expresso e claro do Senhor, é privar-se de tão grande dom! Por isso, mil vezes tem razão o povo brasileiro em orgulhar-se hoje de ter Maria por Mãe. Tem razão o nosso povo de tê-la proclamado Rainha e Padroeira do Brasil!

Virgem Mãe Aparecida, Mãe de Deus e nossa! Vela pelo povo brasileiro, acolhe nosso brado filial!

Intercede com tua oração materna por nossos governantes: que sejam retos, justos, servidores do bem comum, sobretudo dos mais necessitados!

Sê consolo para quem chora, força para quem se encontra alquebrado, inspiração e encorajamento para os pobres, saúde para os enfermos e rosto maternal de Deus para todos nós! Vela pelas crianças, mantém na harmonia as famílias de nossa Pátria, vela pela paz no campo e nas cidades!

Senhora Aparecida, protege a Santa Igreja em terras brasileiras! Roga pelo clero, pelos religiosos, por todo o povo de Deus!

Ajuda-nos, Mãe de Deus-Jesus e Mãe nossa, ajuda-nos a construir um Brasil mais cristão, mais justo, mais pacífico e solidário… e que, pelas tuas preces maternas, jorre para nós o vinho bom da alegria e sejamos todos, um dia, herdeiros do Reino dos céus. Amém!

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