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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Conservadores e temporalistas freiam, mas Francisco não vai parar.


O verdadeiro pilar que sustenta tudo na política religiosa do Papa Francisco é o Deus único, uma única Divindade, apoiada pela razão e pela fé. Deus que tudo sustenta e tudo criou e continua criando incessantemente.

O papa não tem um tumor, mesmo que benigno, no cérebro nem outras doenças. Se tivesse, ele diria. Jorge Bergoglio é um homem cujas paixões foram e são a verdade e a fé. A verdade para ele é um valor absoluto; ele aceita o relativismo de todos os outros valores, mas o rejeita firmemente no que diz respeito à verdade. Digo essas coisas porque discutimos várias vezes sobre elas nos nossos encontros. E, como eu não acredito na verdade absoluta, ele captou qual era a diferença que nos dividia: para ele, a verdade absoluta coincide com Deus, para um crente a verdade própria é absoluta, mas apenas a própria, bem sabendo que pode não coincidir com a dos outros.

Lembro-me dessas conversas porque me dão a certeza de que, se estivesse doente, o papa diria. Além disso, há alguns meses, foi justamente ele que disse publicamente: "Não terei muito tempo para levar a cabo o trabalho que devo cumprir, que é a realização dos objetivos prescritos pelo Vaticano II e, em particular, o do encontro da Igreja com a modernidade".

Essa declaração, pela parte que diz respeito ao "pouco tempo disponível", despertou uma grande surpresa e também uma forte preocupação entre aqueles que consideram essencial o seu pontificado para uma renovada mensagem da Igreja. A sua resposta pública foi esta: "Por sorte minha, eu não tenho nenhum mal, mas entrei em uma idade em que as possibilidades de vida tornam-se cada vez menores enquanto o tempo corre. Eu só espero que a transição não seja fisicamente dolorosa. Mas, dito isso, está tudo nas mãos de Deus".

Portanto, o Papa Francisco hoje não está doente. Resta entender por que "os abutres voam sobre ele", como escreveu Vito Mancuso de movo eficaz na quinta-feira passada no nosso jornal. Abutres que lançam falsidades contra Francisco, esperando que ele se torne pontificalmente cadáver, que o Sínodo sobre a família e o Jubileu sobre a Misericórdia sejam dois fracassos, assim como a sua política religiosa em relação ao encontro com a modernidade e a desconstrução – segundo eles – da Igreja.

Os abutres construíram tudo isso e estão cheios de consequências. Nos nossos artigos dos últimos dias, as suas intervenções foram examinadas e conectadas a uma lógica perversa umas às outras. Razões de poder religioso e temporalista os animam e uma visão completamente diferente da Igreja. Eles não querem uma Igreja aberta como Francisco quer; não querem a sua Igreja missionária, não querem o fim do temporalismo. Eles consideram Francisco um intruso, uma espécie de alienígena, de revolucionário incompatível com a tradição.

Por isso, eles combatem, jogam lama, divulgam notícias falsas, revelam supostos documentos, desvelam posições internas no episcopado católico. Uma verdadeira guerra. Francisco vai vencê-la ou perdê-la? E quais são os pilares da sua pregação e quais são as suas armas (se é que se pode falar de armas) nesse embate entre Igreja temporalista e Igreja missionária?

O verdadeiro pilar que sustenta tudo na política religiosa do Papa Francisco é o Deus único, uma única Divindade, apoiada pela razão e pela fé. Deus que tudo sustenta e tudo criou e continua criando incessantemente. Não existe e não pode existir um Deus próprio de cada religião: se Deus é tudo e tudo criou, Ele é de todos e de cada um e continua criando, porque, se parasse, seria uma Divindade que parou e continua sendo espectadora de uma realidade em contínuo movimento, um Deus que se retirou para o alto dos céus, não mais criador, mas testemunha da contínua evolução da sociedade.

Portanto, um Deus criador que as suas criaturas sentem dentro delas, porque uma centelha divina existe em todos, e não importa se são conscientes disso ou não. Essa centelha divina opera nas criaturas através dos instintos, e esses instintos são a vida, o espaço que ocupam, o tempo criativo das partículas elementares que vorticosamente giram pelo universo e as leis às quais obedecem. O Universo e os Universos se modificam continuamente, e essas modificações são guiadas por Deus.

Tudo isso, de fato, é eterno, e a centelha de Divindade dá a cada criatura as suas leis: os átomos têm as suas leis, os astros, as galáxias, os campos magnéticos, as estrelas. Todas essas formas nascem e morrem, e é tempo que as desgasta.

Essa é a visão da realidade que nós, animais pensantes, somos capazes de perceber. Nós temos um planeta que gira em torno de uma estrela. A nossa centelha divina nos deu uma mente que está dentro de um corpo; nós temos pensamentos que brotam da mente, criada, por sua vez, pelo corpo, e esse corpo tem uma vida própria e uma morte própria.

Essas realidades visíveis descrevem as leis evolutivas que nós, animais que veem a si mesmos, imaginamos e descobrimos. Deus está muito além de como nós o pensamos, mas, para aqueles de nós que são crentes, essa é a visão que eles têm. Para aqueles não crentes, a visão é diferente em apenas um ponto: eles não acreditam em um Deus personalizado. Eles pensam em um Ser que gera Entes, ou seja, formas, cada uma com leis próprias. Entre as leis que guiam as criaturas, não existe a de se interpretar, e a interrogação principal é saber quem somos e de onde viemos. Uma das respostas é a religião, isto é, a crença em um Deus e em um eventual além da morte. 

O Deus único do Papa Francisco é a versão mais alta e também mais consoante para aqueles que aderem às conclusões que a sua fé lhe inspira. Mas agir de modo que todas as religiões cheguem a essas conclusões não é fácil nem rápido. Confronta-se com crenças diferentes, valores diferentes, interesses contrapostos. Não por acaso, Francisco é anticlerical e diz isso. É um percurso – o de convencer todas as religiões, incluindo a católica, à fé no Deus único – extremamente acidentado. Não há varinha mágica que possa resolvê-lo.

Francisco sabe disso e prossegue passo a passo. O primeiro aponta para uma espécie de confederação das várias confissões cristãs que, em um segundo momento, deveria levar à unidade religiosa readquirida. Enquanto isso, amizade com as outras religiões monoteístas e aproximação às não monoteístas. Esse é o cenário.

Está excluído que o Papa Francisco posso levá-lo a cabo, até porque deveria ter sobre as costas uma Igreja Católica que estivesse estreitamente unida a esse cenário, mas nem mesmo essa unidade está completa. O choque interno é sobre várias questões, mas a verdadeira causa é a mesma: Deus único, religiões em fraternidade, mesmo que cada uma com a própria história, as próprias tradições, os próprios cânones e as próprias escrituras.

Quanto às hierarquias católicas, ou seja, os bispos descendentes dos Apóstolos, elas estão vivendo a situação atual sobre o tema da família, e a sede é o Sínodo que se concluiu com a "Relatio finalis", apresentou nesse sábado à noite ao Papa Francisco, que foi parte integrante e principal do Sínodo.

A "Relatio finalis", no entanto, foi precedida por vários discursos de Francisco. Um dos quais, pronunciado por ele na última Audiência Geral dedicada à paixão de amor entre os esposos, diz palavras extremamente significativas que o L'Osservatore Romano intitula – não por acaso – "Por que a fidelidade não tira a liberdade".

Eis as passagens principais.

"Na realidade, ninguém quer ser amado somente pelos próprios bens ou por obrigação. O amor, como também a amizade, devem a sua força e a sua beleza justamente a este fato: que eles geram um vínculo sem tirar a liberdade. Consequentemente, o amor é livre, a promessa da família é livre, e essa é a beleza. Sem liberdade, não há amizade, sem liberdade não há amor, sem liberdade não há matrimônio. A fidelidade às promessas é uma verdadeira obra-prima de humanidade, autêntico milagre, porque a força e a persuasão da fidelidade, apesar de tudo, não deixam de nos encantar. A honra à palavra dada, a fidelidade à promessa não podem ser compradas e vendidas. Não podem ser obrigadas pela força, mas também nem construídas sem sacrifício."

Até agora, nunca acontecera um pontificado que baseasse o amor, a amizade, a fidelidade e o matrimônio sobre a liberdade. De fato, esse conceito aplicado especialmente ao matrimônio não é algo novo para a Igreja. Um dos cânones em que se baseia o julgamento da Rota Romana no que diz respeito às sentenças de nulidade é precisamente a hipótese de que o matrimônio foi celebrado com a força exercida sobre ao menos um dos esposos (quase sempre a mulher) pelos pais ou por outras considerações ditadas pelos interesses e não pelo amor.

Mas nenhum papa tinha transferido o cânone judiciário a um princípio de valor que, pessoalmente, eu considero como laico, dando a essa laicidade um alto valor ético. No entanto, a análise de valor feita pelo Papa Francisco seria incompleta se não fosse aprofundada pelo exame das famílias atuais em todo o mundo, mas, especialmente, no mundo ocidental, onde o cristianismo esteve na origem medieval da Europa, assim como o laicismo e a descoberta da liberdade.

Contudo, é verdade que as conclusões do Sínodo representam uma clara freada na ação inovadora do papa, porque, no que diz respeito aos divorciados que coabitam com o novo cônjuge, confiam a decisão de admiti-los aos sacramentos ao "discernimento" do confessor. Por conseguinte, haverá casos em que o confessor os admitirá aos sacramentos, e outros, de sinal contrário.

A incoerência desse procedimento é evidente, e é igualmente evidente que o papa deve tê-lo aceitado. A escolha entre duas concepções diferentes da Igreja não data de hoje, mas hoje é ainda mais inaceitável do que antigamente, por duas razões: a primeira é o Vaticano II, que prevê o encontro da Igreja com a modernidade, e a modernidade não se configura em uma decisão tão engenhosa. Uma segunda razão é ainda mais clamorosa: a família de hoje não é mais fechada, mas aberta e o será cada vez mais.

É justamente uma família que vive na coexistência entre fidelidade à promessa e liberdade. É o papa quem disse isso, mas é o papa que, sobre esse ponto, se subjaz ao "discernimento" dos vários confessores. Como se sabe, não há confessores de profissão, cada presbítero é confessor. Por isso, a partir desse ponto de vista, o Sínodo termina com uma vitória aos pontos do partido tradicionalista. Que, no entanto, vai encontrar a sua derrota a partir da situação atual das famílias. Vejamos essa situação que configura a realidade de grande parte do mundo cristão.

Vejamos, acima de tudo, a situação entre marido e mulher. Não é mais a que estava vigente ainda na primeira metade do século XX, quando era a mulher que cuidava da educação dos filhos, ao menos até a sua adolescência. Hoje, a mulher também trabalha como e quanto o seu marido. Enquanto isso, ela também cuida dos seus filhos, crianças e jovens, mas, se tiver mais do que dois, é forçada a ser ajudada por uma cuidadora e/ou uma creche, ou ainda por um jardim de infância.

O marido, geralmente, está comprometido com um emprego profissional que lhe deixa pouco espaço, mas (nos casos positivos), quando o filho é adolescente, ele encontra um espaço para ele, mas atenção: não como educador, mas como amigo. É uma coisa boa ser amigo de um filho, mas é totalmente diferente da educação. O amigo busca as confidências do filho, as interpreta, tem uma ideia daquele caráter e o compensa com confidências próprias. Em suma, trocam-se sugestões, mas a demanda de obediência desaparece. Talvez seja bom, mas a sua amizade não é exclusiva. O filho, geralmente, forma o seu caráter e a sua visão da vida com a frequentação de outros amigos coetâneos, estuda com eles, se diverte com eles, pensa com eles, vive com eles.

A amizade do pai é preciosa quando existe, mas não fundamental. Formativo é o conjunto dos amigos, que muitas vezes o pai nem conhece, enquanto para a mãe resta, nesse ponto, só o amor pelo filho, muitas vezes correspondido. A partir desse ponto de vista, o complexo de Édipo tende a aumentar, não sem consequências na formação do jovem.

Mas também existem outros casos em que a situação não é esta, que, no entanto, é a melhor da família moderna e, obviamente, a mais rara. Na maioria dos casos, o pai não se torna amigo do filho, muito menos este último se torna amigo do pai. Quando chega em casa para comer e para dormir (e nem sempre isso acontece), o filho ou a filha fala muito pouco com os pais, com o pai, principalmente. Os contatos verdadeiros são reduzidos ao mínimo, com tudo o que se segue, droga ou alcoolismo ou bullying incluídos.

Por fim, a famosa "promessa de fidelidade" é muitas vezes violada. Por parte do marido, isso sempre aconteceu, mas agora acontece muitas vezes também por parte da mulher. Às vezes, é a situação dos separados em casa, com uma família muito "sui generis", mas também bastante difícil de gerir.

Outras vezes, mais frequentes, há a separação e o divórcio. Muitas vezes, as relações continuam sendo civis e, às vezes, se estendem da mulher à nova companheira do marido e até mesmo – se houver – aos filhos com diferentes ascendências parentais. Mas muitas vezes não é assim, ou é assim apenas na forma, mas não na substância.

Em suma, uma família muito aberta nos pais e nos filhos. No entanto, ainda é possível apontar para a família tradicional, isto é, fechada e não aberta. Mas isso pode acontecer em uma Igreja igualmente fechada e não aberta. O papa, no caso específico, sofreu. Vai sofrer ainda? Também em outras questões?

Dias atrás, ele dissera, falando do Sínodo, que ele não é um parlamento. Não há uma maioria e uma oposição. Há uma escuta de posições diferentes. Mas, desta vez, produziu-se, ao contrário, de modo bastante engenhoso, uma maioria freante. O papa, depois de ouvir a "Relatio finalis" do Sínodo, poderia expor em sede magisterial um pensamento diferente. Mas eu não acho que ele o fará.

Há algum tempo, Francisco escreveu o prefácio de um livro que publicava todas as várias intervenções do cardeal Martini. Eu conheci muito bem Martini, tanto quando era arcebispo de Milão, quanto em Gallarate, em um retiro para sacerdotes idosos e doentes. Os nossos encontros ocorreram cinco vezes, o último dos quais algumas semanas antes que a morte o levasse.

Martini estava muito à frente em relação a uma Igreja aberta e moderna e era íntimo de Bergoglio. Sobre o tema dos divorciados e da família, ele ainda estava mais à frente do que o Papa Francisco, sem falar dos seus atuais contraditórios. Martini também era animado pela fé. Muito profunda. Martini também gostava de debater com os não crentes, não para convertê-los, mas para progredir com eles. Martini também acreditava no único Deus que abole os fundamentalismos e o terrorismo e combate contra o poder temporal das Igrejas.

Por fim, Martini afirmava que no mundo existe um único pecado: o da desigualdade social, e é contra ele e contra as suas consequências que a Igreja deve combater levantando a bandeira do amor ao próximo. Esse era Martini, amigo íntimo de Bergoglio, que, por sua vez, queria que ele se tornasse papa, enquanto no último conclave no qual ele não interveio, foi Martini que queria Bergoglio como papa, e assim foi.

Se existe um Paraíso, as suas almas se encontrarão. Se não existe, a história falará de ambos. Francisco não se esqueceu e continuará combatendo, recordando que o Sínodo não é um parlamento, mas, como o parlamento, está organizado sobre a liberdade dos outros a serviço dos quais os homens de boa vontade devem trabalhar. Sirvam o próximo, mesmo aqueles que não têm fé. Deus é único, as criaturas são livres, até porque foi Ele quem assim as criou.


Eugenio Scalfari,
jornalista e fundador do jornal italiano La Repubblica
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Tradução: Moisés Sbardelotto.

Disponível: IHU