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domingo, 12 de julho de 2015

"João Paulo II me humilhou". Entrevista com Ernesto Cardenal.

O que João Paulo II me disse foi: "O senhor deve regularizar a sua situação". Eu não quis lhe responder.

Ele deve sua popularidade à revolução sandinista, que venceu em 1979, que apoiou desde o começo e da qual foi ministro durante o primeiro governo dos sandinistas. Mas também deve sua popularidade à advertência de João Paulo II, que, em março de 1983, repreendeu a ele e seu irmão Fernando no aeroporto de Manágua, recém rebatizado para Augusto César Sandino. A fotografia de Ernesto Cardenal ajoelhado diante do Papa que o admoesta com o dedo indicador correu o mundo. E também o que aconteceu na Praça da Revolução de Manágua depois desse encontro: centenas de milhares de pessoas e o coro sandinista se reuniram diante do altar, fato que foi sabiamente divulgado pelo sistema televisivo, que repetia: “entre cristianismo e revolução não há contradição”, célebre máxima cunhada exatamente por Cardenal.

Passaram-se 30 anos desde que isso aconteceu mas depois de ouvir suas primeiras palavras, compreende-se que Ernesto Cardenal não mudou nada.

Entre cristianismo e revolução não há, efetivamente, contradição nenhuma, repete impassível: “Não são a mesma coisa, mas são perfeitamente compatíveis. Pode-se ser cristão e marxista ou cientista”, insiste.


Sobre Cardenal pesa ainda a suspensão “a divinis” decidida pelo cardeal Ratzinger quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas a coisa não o preocupa.

“A proibição é para administrar os sacramentos, e eu não me fiz sacerdote para administrar sacramentos e passar os dias celebrando batizados e matrimônios, mas para ser contemplativo”. Ernesto Cardenal vive na comunidade contemplativa de Solentiname, na Nicarágua, a mesma que fundou, nos anos 1970, com Thomas Merton.[1]

Publicamos a seguir a entrevista de Ernesto Cardenal feita pelo jornalista Alberto García Saleh e publicada no jornal La Provincia em 2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.



Como o senhor estabeleceria a diferença entre o sandinismo de antes e o de hoje?

Uma coisa não tem nada a ver com a outra. A revolução da Nicarágua foi uma das mais belas revoluções que já ocorreu. Foi de uma solidariedade com o mundo inteiro, teve um grande carinho de todos os povos e houve um grande entusiasmo do nosso povo com ela. Foi uma guerra de sete anos contra os Estados Unidos e foi vencida, fazendo com que as tropas de ocupação norte-americanas fossem embora da Nicarágua. Depois, alguns dos principais dirigentes começaram a roubar antes de entregar o poder e perderam a revolução. Agora, esses mesmos que traíram a revolução e também o sandinismo estão no governo.

Pesa muito a responsabilidade de ser o poeta hispano-americano mais importante destes tempos?

Isso é algo muito arbitrário. Não me acho tão importante, e, mesmo que fosse, o fato de ser importante não tem importância.

Mas o senhor viajou por todo o mundo e visitou os países mais insólitos. Que países mais lhe surpreenderam?

Tenho um livro de poemas intitulado "Pasajeros de tránsito", que é de viagens por muitas partes do mundo. Meus poemas nascem das experiências do país e não da experiência do conhecimento que existe sobre o país.

Mas as suas obras foram traduzidas para muitos idiomas.

Sim, mas isso não é garantia de excelência. Um poeta inglês dizia que a grandeza de algumas das grandes obras da literatura radica em algo extraliterário. Eu diria que, se existe uma pequena grandeza em minha obra, é por razões extraliterárias, porque os temas da minha poesia são os pobres e o amor à humanidade.

O senhor tem uma vocação religiosa que considera tardia. O que produziu a sua conversão religiosa?

Eu sempre tive uma vocação de entrega a Deus, e isso significava a renúncia ao apoio humano e outras muitas renúncias, e por isso eu não me atrevia a renunciar. Em um momento da minha vida, eu resolvi provar, como quem se joga na prisão entregando-me para Deus. Então, me enchi de felicidade e união com Deus. Ele entrou em mim, e desde então eu tenho uma união mística amorosa com Deus.

Mas o senhor não comunga muito com os representantes de Deus na Terra.

Eu não acredito no Vaticano, mas sim em Jesus e na Igreja que ele tentou criar, que é muito diferente da de agora.

Rios de tinta foram derramados sobre o encontro que o senhor teve com João Paulo II e sobre o que ele lhe disse.

O que João Paulo II me disse foi: "O senhor deve regularizar a sua situação". Eu não quis lhe responder. Ele voltou a repetir a frase com esse tom brusco que tinha. Ele estava simplesmente me repreendendo porque eu era um sacerdote em um cargo de governo em uma revolução, e ele estava me pedindo que eu deixasse o cargo. Mas o bispo da Nicarágua havia autorizado os sacerdotes que tinham cargo de governo a seguir com eles por certo tempo enquanto fosse necessário, e o Vaticano o havia difundido. Fez-me uma humilhação pública porque eu estava no aeroporto com a junta de governo, e, como eu era ministro da Cultura, o governo decidiu que eu tinha que ser o presidente, mesmo que o Papa não quisesse a minha presença.



"João Paulo II me humilhou"

E o que senhor acha que o Papa queria realmente?

Queria uma revolução que perseguisse a Igreja, como havia sido a do comunismo na Polônia, que era um país tremendamente católico, com um governo antirreligioso e impopular. A Nicarágua era muito católica, mas apoiando uma revolução de orientação marxista, mesmo que cristã. E o Papa acreditou que, falando contra a revolução diante de 700 mil pessoas na missa papal na praça, o povo o aclamaria. E então o povo começou a gritar contra ele e a lhe faltar com respeito, até o ponto em que o Papa teve que gritar várias vezes: "Silêncio!".

O senhor respondeu ao Papa quando ele lhe repreendeu?

Eu não podia. Todas as câmeras estavam ali, e eu não ia começar a polemizar com o Papa.

O senhor é um expoente da teologia da libertação.

Considero-me um discípulo. A teologia da libertação me inspirou, dentre outros, e aos poetas marxistas.

O que significou a sua última distinção, o prêmio Pablo Neruda?

Foi especial por ser um ídolo da juventude. Em meu discurso de entrega, eu disse que, até esse momento, eu havia me ufanado de ser o poeta menos premiado da língua espanhola.






[1] Por Alver Metalli em Vatican Insider
Disponível em: Instituto Humanitas Unisinos